Jesus Cristo era adorado como salvador da humanidade e podia trazer os mortos de volta à vida. Super-Homem podia voar acima dos edifícios e salvar a mocinha no último momento. Neo, também conhecido como mister Anderson, pode fazer tudo isso e muito mais. É o protagonista de The Matrix Reloaded (EUA, 2003), dos irmãos Wachowski, seqüência do mega-sucesso The Matrix.
Por trás de todas as perseguições de automóveis e todos os combates de kung fu de The Matrix Reloaded, espreita um subtexto metafísico que oscila entre simbolismos e platitudes. Neo (Keanu Reeves) é o messias da profecia que determina a vitória da humanidade sobre as máquinas que dominam o planeta. No primeiro episódio da trilogia, ele morre e ressuscita mais poderoso para continuar sua missão de salvador. Na coleção interminável de alusões bíblicas, sua companheira chama-se Trinity, seu despertar passa por uma espécie de pia batismal e sua jornada esbarra num seguidor que, como Judas, o trai. Mas as referências metafísicas não se limitam ao cristianismo. A mitologia greco-romana, por exemplo, também se faz presente, de Morpheus, deus dos sonhos, a Persephone, esposa do rei do inferno. E o tema principal dos filmes, a liberação da mente da ilusão que tomamos como realidade, é essencialmente budista. Claro que, como neste universo ficcional está provado que existe um véu ilusório (a matriz do título, espécie de ambiente virtual levado a extremos de verossimilhança, uma SimCity que atingiu a perfeição) encobrindo o mundo real, qualquer comparação com as nossas vidas pode ser no máximo para efeitos poéticos, já que nunca tivemos qualquer indício concreto do mesmo tipo de ilusão.
Um dos problemas de The Matrix Reloaded é estender ao mundo real características do mundo simulado. Faz sentido um personagem ter poderes sobrenaturais dentro da matriz, resultantes da sua habilidade de manipular os bits e bytes que compõem aquele universo. Não faz sentido esse mesmo personagem ter tais poderes fora da matriz, onde seu corpo meramente humano está sujeito não às normas alteráveis de um programa de computador mas às leis inalteráveis da física. E se pode haver oráculo e predestinação na lógica pré-programada da matriz, profecias e falta de livre arbítrio não se encaixam na realidade fora do computador.
Algumas idéias inspiradas no funcionamento de computadores adaptam-se muito bem a The Matrix Reloaded, como por exemplo o uso de backdoors, entradas pelos fundos que servem ao mesmo tempo como atalho e para burlar mecanismos de segurança. Outras são desastrosas, como por exemplo o agente Smith replicando-se em centenas de agentes Smith. Do ponto de vista dramático, um é melhor que muitos, e a multiplicação dilui o impacto do vilão. E não só o agente Smith aparece em numerosas versões, mas também muitos outros vilões são incorporados à galeria, quase todos programas de computador que se recusaram a morrer, antepassados dos eficientes agentes da matriz, incluindo um francês amoral (Lambert Wilson), uma italiana voluptuosa (Monica Bellucci, com decote desafiando a lei da gravidade), e gêmeos rastafaris albinos (Adrian e Neil Rayment).
O roteiro é desigual, não só na alternância entre longas cenas de discussões metafísicas (Neo e o Oráculo, Neo e o Arquiteto, etc) e longas cenas de ação com efeitos especiais (a perseguição na auto-estrada, a luta com os multiplos agentes Smith, etc) mas também na qualidade dos diálogos, que variam entre o divertidamente profano (particularmente a torrente de obscenidades em francês proferida por Lambert Wilson) e o deprimentemente óbvio (particularmente o previsível "algumas coisas nunca mudam, outras coisas mudam", que parece ter saído dos piores momentos de A Ameaça Fantasma).
Pode ter havido muita criatividade na elaboração das cenas de ação (e muito dinheiro: só a seqüência da auto-estrada custou cerca de quarenta milhões de dólares, o suficiente para produzir um filme de médio porte), mas faltou inspiração na resolução: duas situações graves se resolvem identicamente, com Neo voando em alta velocidade e resgatando no último instante os personagens em perigo. Essa nova habilidade de vôo do protagonista parece sempre um mecanismo artificial para resolver conflitos. Em outro exemplo, ele luta contra um exército de agentes Smith durante vários minutos antes de sair voando para longe do seu alcance. Se podia escapar assim com tanta facilidade, por que não o fez para evitar a luta inútil?
Para quem argumentou que o primeiro The Matrix não podia ser considerado religioso por causa da ausência de referências a deuses, The Matrix Reloaded preenche a lacuna de forma exemplar. Temos aqui o velho senhor de roupas brancas, que de sua sala repleta de monitores de vídeo (omnisciência) controla o destino de todos (omnipotência), estejam dentro ou fora da matriz. Adequadamente, ele é chamado de "Arquiteto". Em outra referência bíblica, a última cidade dos humanos chama-se Zion, o mesmo nome da morada do deus cristão. E Zion é um lugar deprimente. A população veste-se com trapos, carrega alimentos de aspecto duvidoso em cestos pré-históricos, e dança em transe ao som de tambores primitivos. Pior, é liderada por um conselho de crédulos anciãos e por uma estrutura militar previsivelmente rígida. Resta saber por que preferem essa existência lastimável às possibilidades da vida simulada na matriz. Afinal, como diz Cypher no primeiro filme, mesmo sabendo que o bife não existe, se ele é suculento e delicioso em todos os aspectos que o cérebro pode perceber, qual a diferença? Se o real não é intrinsecamente certo ou bom, por que há de ser o simulado automaticamente mau ou errado?
Grande parte do encanto inicial de The Matrix não pode ser reproduzido. Agora já tomamos a pílula vermelha e já sabemos o que é a matriz (aquele momento de descoberta na primeira história é inesquecível, quando público e protagonista percebem ao mesmo tempo que os acontecimentos inexplicáveis afinal tinham uma explicação perfeitamente lógica) e as cenas de kung fu em slow motion com a câmara girando ao redor do lutador e transformando a violência em bailado já foram exaustivamente utilizadas no cinema e na televisão nos últimos anos. Assim, The Matrix Reloaded soa muitas vezes como a explicação de uma boa piada: desnecessária e incapaz de repetir a graça.
Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Nemo Nox é editor do blog Por um Punhado de Pixels e do site Burburinho, onde este texto foi originalmente publicado.
Caro Nemo Nox, concordo com diversas das suas colocações; mas não com uma em especial: "um dos problemas de The Matrix Reloaded é estender ao mundo real características do mundo simulado." É claro q faz sentido (cinamatográfico) um personagem ter poderes sobrenaturais fora da matriz (quantas milhares de pessoas acreditam em magia, sem falar nas q acreditam em religião). Na "mitologia de Matrix", Neo é o messias: ele DEVE ter poderes fora da matrix. Aliás esse fato já havia sido anunciado sutilmente no primeiro filme, quando (Lu)Cypher diz: "se ele fosse o escolhido, eu não conseguiria fazer isto" e quando vai matar Neo, aparece um dos tripulantes da Nabucodonossor e o mata. Isto acontece FORA da matrix. Há outros argumentos nesse sentido, mas já me alonguei. Um abraço, Anthony
P.S.: como assim "também faz sentido falta de livre arbítrio" fora da matrix? esse é um dos problemas q assolam TODOS os maiores pensadores da humanidade (Platão, St. Tomás, Marx, Freud). Eles nÃo viram matrix
Meus caros:
Vocês perceberam que no final do filme, Neo gera um pulso eletromagnético e destrói os robôs sentinelas ? Na verdade, o mundo "real" também é uma simulação gerada da Matrix. Por isso o The One tem super poderes em todos os lugares. Provavelmente no terceiro filme (Revolutions) Neo finalmente vai despertar dessa recursividade e acordar no mundo "realmente real".
A cena que vocês estão discutindo é exatamente a única cena que salva o filme, nela fica claro que a matrix está dentro de uma matrix, que por sua vez deve estar dentro de outra matrix e assim por diante... Não existe, portanto, mundo "realmente real". Não é tão difícil assim de se aceitar isso, pois a maioria de nós aceita, naturalmente, que não existe mundo "virtual", não é mesmo?
Realmente, a cena salva o filme? Ou só Jesus salva? Vcs perceberam q, nos evangelhos, Jesus anda sobre as águas, ressucita, transforma água em vinho e faz outras coisas maneiras (Deos ex machina)? Além disso, tem o Uri Gueller q entorta colheres (there is no spoon). Nessas cenas fica claro, q Jesus, Uri Gueller e todos nós estamos dentro de uma simulação de computador. Como o Pe. Quevedo não pensou nisso antes? É uma explicação razoável. Mas pode ser, simplesmente, q também q exista magia fora da matrix (Neo seria um "heroi dos dois mundos"). Pode ser também q exista uma matrix dentro de outra até o infinito, o q é quase o mesmo q dizer q tudo não passa de um sonho. Seria algo tão manjado q eu pediria o dinheiro do meu ingresso de volta.
Sugiro que assistam o filme mais umas 10 vezes e entendam pq Neo agora tem poderes fora da Matrix, por favor, não sejam leigos, comentem depois de saber como será a continuação.
Algo que venho notando na moçada da minha geração - nasci em 1971 - é que não conseguem evitar de forma alguma o impulso de ir ao cinema assistir Matrix, mas - uma vez acabado o filme - só sabem meter o pau, ainda que seja um pau cheio de sutilezas irônicas. Ainda pretendo escrever algo sobre a trilogia, mas, por enquanto, sugiro que leiam o texto MATRIX CONFUSED, do Jovem Nerd, um artigo inteligente, honesto, sem babação de ovo retardada. Quanto à possibilidade ou não de se realizar "milagres" no mundo real, afora os evangelhos e meu artigo sobre Li Hongshi, em meu blog, corram atrás do livro "A autobiografia de um yogue contemporâneo", de Paramahansa Yogananda, escrito nos anos 50 do séc. XX. Há "causos" ali de deixar qualquer irmão Wachowski de cabelos em pé. E, claro, com um acréscimo: todos os "homens e mulheres santos" ali retratados sabem que não são senão veículos de ação da Vontade de Deus. Não saem voando por aí, em meio a um desesperado "amor romântico", destruindo e matando meio mundo pra salvar a namoradinha. Ainda bem que Jesus não transou nem com Rebeca - vide Livro de Urântia - nem com a Maria Madalena... []'s
...para informação: se prestarmos atenção ao primeiro filme, percebemos claramente que o mundo real é aquele em que o indivíduo está mergulhado concientemente na Matriz... o "nosso mundo" é que é virtual... uma ilusão, criada pelas máquinas para sua própria subsistência em termos de energia (somos pilhas). Então nenhum indivíduo possui super-poderes, cada atitude é proposta segundo a capacidade de cada um em manipular os bites... logo, existe a ausência de poderes entre os humanos do mundo simulado, devido à inconsciência de sua condição... As leis físicas simplesmente deixam de existir... são produtos de um mundo ilusório. Difícil de compreender pode ser... mas para mim, que sou física e admiradora do surrealismo ao mesmo tempo... isto tudo é lindíssimo.
galera ao que tudo indica no terceiro filme é que vamos conhecer a verdadeira zion, pois está que vimos é na verdade a outra versão da matrix feita para os não inclusos nos 99.9% que não acreditam na matrix. Pois para "reiniciar" a matrix atual temos que inserir os 23 indivíduos iniciais da outra... Tanto é verdade que existe outra matrix, o que é demonstrado nos poderes de neo.
Matrix Reloaded? ou Matrix Shift+Del? O filme perdeu o sentido e virou uma palhaçada, me perdoem os fanáticos. Sim. Eu gosto de Ficção. Sim. gostei de The Matrix. Porém, Reloaded se perdeu. Fiz uma crítica ácida sobre o filme.
Como no primeiro filme, este segundo é uma micelânea de idéias e ideais de mitogias culturais diversas: cristã, grega, budista, ciberpunks e dos mangás japoneses e imaginário pop norteamericano..Sendo assim, todas fontes se cruzam e o filme se resume em 5 ou 6 cenas de luta e perseguição e 3 ou quatro dialogos "pseudocabeças". A idéia da matrix dentro da matrix é bem plausível e já que outras boas idéias foram copiadas do livro que virou filme 13º andar,(uma ótima dica, aliás),nada mais óbvio do que isso...
Se assistir Matrix 10 vezes? acho que não. O máximo que conseguirei ao assistí-lo 10 vezes, será descobrir erros de continuismo.
Prefiro ler Jean Baudrillard, Paulo Virilio, Noam Chomsky 10 vezes. Isso sim fará diferença ao meu intelecto.
O grande lance é que não importa se é real ou virtual. Se é filosofico ou religioso. Por enquanto oque podemos concluir é que Matrix não passa de um sistema operacional, que vai ficando velho e antiquado com o tempo, assim como o desenvolvimento de hardwares e softwares. Nosso computador vai ficando cheio de programas, o HD lotado, informações perdidas, falhas constantes, vírus que as vezes nem sabemos que tem em nossos computadores e as vezes programinhas indesejaveis (tais como aqueles de jogos de azar que aparecem sem a nossa consciente permissão), alguns tão chatos que nem conseguimos apaga-los de nossos computadores. Por trás de todo aquele assunto filosofico, religioso e pagão, compreendemos que Matrix é uma grande rede de interação/comunicação entre os humanos tumultuada dentro de um computador. De tempos em tempos é necessario fazer uma "formatação" do HD, reinstalação do "Windows", reformulação de programas e reconecta-lo com a Internet para que ele volte a funcionar normalmente. Só que, tudo isso é representado de uma forma extremamente inteligente, numa interação entre maquina e homem.