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COLUNAS

Quinta-feira, 13/11/2003
Poesia, Crônica, Conto e Charge
Ricardo de Mattos

+ de 29600 Acessos
+ 1 Comentário(s)

O Melhor da Poesia Brasileira, O Melhor da Crônica Brasileira e O Melhor do Conto Brasileiro são os três livros formadores d’uma pequena colecção destinada a apresentar aos jovens alunos alguns dos nossos escritores e poetas. Três volumes pequenos com quatro autores cada. O termo comum aos títulos revela certa pretensão: O Melhor ... Dificilmente qualquer antologia traz “o melhor” de alguma coisa, sempre há faltas apontadas e escolhas lamentadas. O termo é perigoso inclusive se considerado o público alvo, cuja preguiça é critério de selecção: se o volume encerra exemplos da nata, para que ir além? Os livrinhos, todavia, não decepcionam, mormente o de contos. No mais são relançamentos autênticos, parece não ter havido substituição ou acréscimo de textos, desconfiança surgida ao deparar-me com referências aos militares da ditadura, ao governo de Getúlio Vargas e às Copas anteriores.

O volume de poesias foi o meu primeiro em muitos anos, pois entre estrofe e parágrafo prefiro este último. Seria melhor nomeado como O Melhor da Poesia Modernista Brasileira, por trazer os poetas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Vinícius de Moraes. Mesmo restringindo ao Modernismo, ainda faltariam nomes como Mário de Andrade e Cecília Meireles. Os poemas de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira são aqueles velhos conhecidos de qualquer um a cursar o segundo grau, tantas as apostilas que os trazem. De Drummond, Cidadezinha Qualquer, Quadrilha, José; de Manuel Bandeira, Os Sapos, Pneumotórax, Poética, Tragédia Brasileira e outros tantos. Marcante, enfim, a intenção de levar à primeira leitura destes poetas. Vinícius de Moraes tem exemplificada sua cansativa e derramada indefinição entre prosa e verso em poemas como (O desespero da piedade) e Elegia ao primeiro amigo. Versos longos Manuel Bandeira também os fez – e posiciono-o entre meus preferidos ao lado do árcade Gonzaga e de Augusto dos Anjos –, porém com melhor engenho. O modus operandi de Vinícius parece ser aquele transbordamento delineado no poema O falso mendigo: “Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda/Quero fazer uma poesia...”.

O volume de crónicas vela um perigo. Tomemos como exemplo Luis Fernando Verissimo, o grande cronista da actualidade. Não me lembro o tempo exacto, mas digamos que ele já acumule seus trinta anos de jornalismo, trabalhando simultaneamente para vários jornais, dentre os quais alguns exigindo contratualmente o ineditismo. Além disso, escreve para mais de um caderno do mesmo jornal – o de esportes e o de cultura. Com estas premissas, como escolher suas dez melhores crônicas? Por este motivo o volume da colecção, com textos de Ferreira Gullar, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz – Deus receba-a – e Sérgio Porto, não é o mais “forte”. As crónicas são de datação evidente e entre as de José Lins do Rego incluíram extratos de seus romances.

Acredito que nenhuma antologia de crónicas esteja completa sem trazer algo escrito por Humberto de Campos (1.886/1.934). Nascido no Maranhão e projectado à fama quando mudou-se para o Rio de Janeiro, foi o principal cronista de sua geração, assinando seus textos com o pseudónimo “Conselheiro XX”. Variou do humor de salão à sátira impiedosa, do lírico aos escritos de cunho moralizante. Os galicismos tornam o texto afectado, porém condizente com o momento. Quando dava lugar à sátira, tornava-se acre a ponto de oferecerem um prémio em dinheiro por sua mão direita. Algo como o governo de hoje pedir a mão de Diogo Mainardi. Seus livros trazem centenas de crónicas. Até mesmo sua crítica e seus perfis seguem o formato breve da crónica. Nos dias de hoje, falar em lirismo faz-nos lembrar do pastor protestante e psicanalista de origem mineira Rubem Alves. Quem se julga “lírico” deve começar a ler seus livros, começando pelo singelo Tempus Fugit e verificar se sua pretensão confirma-se.

O volume de contos é o melhor. Novamente Raquel de Queiroz, acompanhada de Origines Lessa, Josué Montello e Aníbal Machado. Os dois aprazíveis contos de Josué Montello – Vidas Apagadas e Numa Véspera de Natal – excluíram uma reserva imotivada de minha parte. Há uma harmonia impressionante entre as descrições das personagens e dos ambientes onde vivem e se esta é uma característica de sua obra, considero-a mui saudável. O mesmo preciosismo encontrei no simpaticíssimo conto Tati, a Garota escrito por Aníbal Machado, empatia quiçá provocada pelo convívio com um novo filhote em casa. A Casa do Morro Branco, de Rachel de Queiroz, lembrou-me bastante a primeira parte do romance Lucas Procópio de Autran Dourado. N’um conto biográfico, Orígines Lessa – de quem uma das netas trabalha no Fórum aqui de Taubaté – dá-nos um perfil de raro humanismo ao retratar o trabalho missionário de seu pai junto a doentes e moribundos; no outro trata com humor a estória de um time interiorano de futebol. Gostei do conto embora não goste do esporte.

Sobre Quino, o autor da Mafalda
Merece atenção o álbum Potentes, Prepotentes e Impotentes continente de charges políticas publicadas em jornais de Buenos Aires. Os livros referidos na coluna de hoje trazem muitos textos publicados inicialmente em jornais. Creio mesmo na imprensa periódica como a base por excelência do trabalho de cartunistas. A compreensão da charge é imediata e cada uma encerra sua ideia, dificilmente relacionando-se com a publicada no dia seguinte. Se há continuidade e estabelecimento de personagens fixos, talvez seja mais correcto falar-se de história em quadrinhos. Isso não significa que uma charge exija desenho único. O álbum traz algumas divididas em quadros e acredito que este fraccionamento não prejudique a caracterização. Acredito também que para o leitor diário não haja preocupação em saber até onde o trabalho deva ser considerado charge e a partir de qual ponto temos uma história em quadrinhos. Busca-se a ideia hilária, bem expressa através do desenho que a concentra, quer de linhas simples (página 86), quer extremamente rebuscado (página 85). E subtil: nem tão profunda que atrapalhe o leitor na leitura do jornal, nem tão superficial a ponto de ser tola. Novamente invoco Luis Fernando Verissimo, autor de tiras e charges com notável economia de traços e competentes na transmissão da mensagem.

Para ir além















Ricardo de Mattos
Taubaté, 13/11/2003

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
13/5/2009
10h52min
Eu adoro os textos de Manuel Bandeira. Sou terceira série e já li vários livros dele, e até hoje eu gostei de todos! Beijos!
[Leia outros Comentários de larissa maria farias]
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