Chavão | Eduardo Carvalho | Digestivo Cultural

busca | avançada
112 mil/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Mentor de Líderes Lança Manual para Vencer a Ansiedade
>>> Festival Planeta Urbano abre inscrições para concurso de bandas
>>> Ribeirão Preto recebe a 2ª edição do Festival Planeta Urbano
>>> Cia Truks comemora 35 anos com Serei Sereia?, peça inédita sobre inclusão e acessibilidade
>>> Lançamento do livro Escorreguei, mas não cai! Aprendi, traz 31 cases de comunicação intergeracional
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A vida, a morte e a burocracia
>>> O nome da Roza
>>> Dinamite Pura, vinil de Bernardo Pellegrini
>>> Do lumpemproletariado ao jet set almofadinha...
>>> A Espada da Justiça, de Kleiton Ferreira
>>> Left Lovers, de Pedro Castilho: poesia-melancolia
>>> Por que não perguntei antes ao CatPt?
>>> Marcelo Mirisola e o açougue virtual do Tinder
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
Colunistas
Últimos Posts
>>> Martin Escobari no Market Makers (2025)
>>> Val (2021)
>>> O MCP da Anthropic
>>> Lygia Maria sobre a liberdade de expressão (2025)
>>> Brasil atualmente é espécie de experimento social
>>> Filha de Elon Musk vem a público (2025)
>>> Pedro Doria sobre a pena da cabelereira
>>> William Waack sobre o recuo do STF
>>> O concerto para dois pianos de Poulenc
>>> Professor HOC sobre o cessar-fogo (2025)
Últimos Posts
>>> O Drama
>>> Encontro em Ipanema (e outras histórias)
>>> Jurado número 2, quando a incerteza é a lei
>>> Nosferatu, a sombra que não esconde mais
>>> Teatro: Jacó Timbau no Redemunho da Terra
>>> Teatro: O Pequeno Senhor do Tempo, em Campinas
>>> PoloAC lança campanha da Visibilidade Trans
>>> O Poeta do Cordel: comédia chega a Campinas
>>> Estágios da Solidão estreia em Campinas
>>> Transforme histórias em experiências lucrativas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Grande Sertão: Veredas (uma aventura)
>>> As novas estantes virtuais
>>> Dinamite Pura, vinil de Bernardo Pellegrini
>>> Paulo Guedes fala pela primeira vez (2023)
>>> Zastrozzi
>>> Desventuras Prosaicas
>>> Notas nas letras
>>> Analisando Sara: Pós-hardcore atmosférico
>>> Blog da Bethânia, o projeto
>>> Fui assaltado
Mais Recentes
>>> Eram Quatro Vezes -teatro Na Escola de Flavio De Souza pela Ftd
>>> Deuses espaçonaves e terra provas de Daniken 561 de Erich Von Daniken pela Círculo do Livro (1977)
>>> 1808: Como Uma Rainha Louca, Um Príncipe Medroso de Laurentino Gomes pela Planeta (2007)
>>> A Terra Dos Vampiros 561 de John Marks pela Planeta (2008)
>>> A Casa dos Esquecidos 4 Infinito 561 de Marcelo de Fazzio pela Sem (2020)
>>> Mais Love que um Olhar 561 de Marcelo de Fazzio pela Sem (2020)
>>> Lua Vermelha 561 de Benjamin Percy pela Arqueiro (2013)
>>> Dicionário De Psicologia de W. Arnold ; H. J. Eysenck ; R. Meili pela Loyola (1982)
>>> Um Estudo Critico Da Historia II de Helio Jaguaribe pela Paz E Terra (2001)
>>> O Uraguai - Coleção L&pm Pocket de Basílio da Gama pela L&pm (2009)
>>> Stoner 561 de John Williams pela Própria (2019)
>>> Ficando Longe Do Fato De Ja Estar Meio Que Longe De tudo 561 de David Foster Wallace pela Companhia das Letras (2012)
>>> Os Templários: uma cavalaria cristã na Idade Média de Alain Demurger pela Difel (2007)
>>> Dia a Dia com Corrie Ten Boom: Cada Novo Dia de Corrie Ten Boom pela Publicações Pão Diário (2013)
>>> A Atlântida de Cristóvão Colombo 561 de Pierre Carnac pela Difel (1978)
>>> A Formação social da mente 561 de L. S. Vigotski pela Martins Fontes (1996)
>>> Mucho Español para Brasileiros Volume Único 561 de Adda-Nari M. Alves pela Moderna (2001)
>>> Pride and Prejudice de Jane Austen pela Collector's Library (2003)
>>> Coleção Série Midnight Breed - 9 Volumes de Lara Adrian pela Universo Dos Livros (2011)
>>> Economia Industrial 561 de David Kupfer pela Campus (2002)
>>> The Art Of War de Sun Tzu pela Fall River Press (2015)
>>> Física 1 2 3 e 4 561 de Francis Sears pela LTc (1985)
>>> A Teoria Marxista Hoje: Problemas e Perspectivas de Atilio A. Boron+ Javier Amadeo+ Sabrina González pela Expressão Popular (2006)
>>> Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudoepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos de Qumran de L Rost pela Paulinas (1980)
>>> Paradise de Kevin Rushby pela Robinson (2006)
COLUNAS

Sexta-feira, 2/7/2004
Chavão
Eduardo Carvalho
+ de 9800 Acessos
+ 1 Comentário(s)

O chavão é - para a comunicação agradável e precisa - pior do que o silêncio. Porque o silêncio permite múltiplas interpretações e insinuações, e sempre é o que pretende ser - até mesmo porque, em certo sentido, não é nada. Mas o chavão é a anti-comunicação: é a expressão de uma frase fechada, que se pretende completa e correta - e que, por isso, não abre espaço para contestação. Um chavão às vezes está certo mesmo; mas muitas vezes está inteiramente errado, e, quando isso acontece, o fato de ser um chavão blinda o comentário a opiniões contrárias a ele. Uma conversa pressupõe intercâmbio de idéias e opiniões. Um chavão, porém, empaca esse intercâmbio: ao mesmo tempo que não significa nada, o chavão não permite que seu suposto significado seja assimilado ou criticado.

A conversa cotidiana é repleta de chavões. Alguns óbvios - e, em certos casos, compreensíveis e inofensivos -, como os que de vez quando precisamos soltar: "puxa, que trânsito hoje", "nossa, que chuva lá fora", "ai, hoje é segunda-feira, tudo de novo", "finalmente, sexta-feira, que maravilha", para aliviar a tensão de uma proximidade silenciosa e forçada, muito comuns em elevadores comerciais. Mas há o chavão que impõe o vazio do seu conteúdo, e exige que a conserva, dali em diante, siga o nível do seu primeiro comentário-chavão; quer dizer, nível nenhum. Essa segunda espécie de chavão é perigosa, porque - com uma aparente inocência - consegue controlar os limites de discussões inteiras.

Uma das funções da literatura é salvar a comunicação cotidiana dos chavões. É uma atividade que precisa ser cumprida urgentemente, antes que a criação de frases novas se extinga em definitivo, e nos condenem a ler e a ouvir a mesma meia dúzia de expressões todos os dias. Uma das piores conseqüências do distanciamento da literatura moderna do leitor comum é justamente esta: é ter condenado uma classe média de possíveis leitores à livros que são, se muito, uma coleção de chavões. E que só repetem justamente aquilo que a literatura de verdade precisa extinguir.

Sendo realista: claro que não é todo mundo que precisa aprender a se comunicar com mais detalhes e com mais beleza. Mas pelo menos quem se pretende mais educado deveria se esforçar para desenvolver idéias originais. E não apenas repetir essa segunda espécie de frases prontas, que, sem ser, se impõe como consenso, e em algumas situações são logicamente insustentáveis: "tudo é relativo", "nada é justo mesmo", "todo pensamento é ideologia", "essa é a sua opinião", etc. Ora, como dialogar produtivamente quando, depois de expressarmos a nossa opinião sobre um assunto, temos que ouvir - como se fosse um argumento em contrário - que essa é a nossa opinião? De quem mais seria? Ou pior: que esses são os "seus óculos"?

O que mais me incomoda é que, como estudante, é meio evidente para mim quem são os maiores disseminadores de chavões. Só que eu não posso fazer nada. Preciso ficar em silêncio, e agüentar, com bom humor, a retórica furada de certos oradores arrogantes. Fingindo que não ouvi nada, para passar de semestre com notas razoáveis.

Michel Laub

Ganhei de aniversário, de duas pessoas - de excelente gosto literário, por sinal -, dois exemplares de Longe da água, o novo livro de Michel Laub, que li em poucas horas de uma manhã de domingo. Michel Laub, em certo sentido, é hoje o que foi, quando começou a escrever, Carlos Heitor Cony: porque a crítica literária brasileira preferia, e ainda prefere, exagerar as qualidades de romances engajados, enquanto menospreza a expressão artística "burguesa", que trata de assuntos mesquinhos - como a vida, o amor, a amizade e a morte.

Ninguém, por exemplo, lê ainda Antes, o verão, de Cony, que se abre e se encerra com um dos mais bonitos parágrafos da literatura brasileira. Mas somos obrigados a analisar, na escola, calhamaços quase intragáveis, como O Guarani - que nos ensinam, se muito, que literatura pode não ensinar nada. E ainda há escolas, hoje em dia, que recomendam livros assinados por gente que simplesmente não sabe escrever, apenas porque retratam o submundo entediante e sangrento das favelas. Longe da água, de Michel Laub, porém, não se enquadra nas correntes literárias mais barulhentas, e se oferece, modestamente, como uma fina opção a quem busca um lançamento editorial de alta categoria.

Longe da água é um livro bonito - da capa ao conteúdo. E já começa bem: tem também a qualidade de ser curto. O erro de se escrever em quantidade precisa, hoje em dia, ser revisto. Os antigos leitores de folhetim agora assistem novelas. E quem procura novidades literárias e tem outras ocupações profissionais não pode se desgastar com descrições muito longas. Escritores precisam ser mais diretos. Sem, no entanto, dispensar o arranjo bonito das palavras - e, aliás, nesse ponto Michel Laub se destaca: seu livro é, do começo ao fim, composto por uma estrutura de frases agradáveis e criativas.

Os parágrafos de Michel Laub normalmente começam com uma frase rápida e sem vírgulas. E, em seguida, algumas palavras discretamente se repetem, conferindo ao livro um ritmo deliciosamente leve. Sobre as festinhas de adolescente: "No escuro você não pensa em nada. Você não pensa no dia seguinte, na hora em que vai acordar, numa obrigação que tem para cumprir. Você sabe apenas que está mais uma vez bêbado, que mais uma vez foi tudo igual, que mais uma vez você não deu um passo para mudar o que quer que seja."

O narrador encontra-se aos trinta anos, mais ou menos, e recorre a um antigo caso de amor adolescente para explicar sua atual situação sentimental. Um caso de amor breve e ingênuo: de seu amigo, Jaime, com Laura, na praia de Albatroz, no Rio Grande do Sul. Jaime morre num acidente banal - do qual o narrador não conseguiu salvá-lo. Não conseguiu ou, mais velho começa a suspeitar, não quis mesmo, apesar de simular uma tentativa. A estrutura do livro não segue reta, cronologicamente, mas nem por isso cansa ou distrai o leitor. Os detalhes e segredos dos relacionamentos entre Laura, Jaime e o narrador são agora passados a limpo, quando, mais velho, o escritor reencontra Laura - e, ao poucos, se apaixona por ela.

O livro de Laub, aproveitando esse contexto, narra situações pelas quais todos nós passamos, mais novos - mas acabamos esquecendo. A pressa de crescer nos força a dispensar alguns sonhos e idéias, que - se não exercitarmos a memória - nunca mais voltarão. Longe da água, nesse sentido, funciona como um aparelho de ginástica: e nos obriga a dedicar algumas horas, durante a leitura, àqueles momentos quando, aos quinze anos, não tínhamos a mínima idéia de o que faríamos - e o que seríamos - mais velhos.

Longe da água é também um relato de como pequenas coincidências vão, ao longo da vida, se acumulando, e como elas podem depois ser decisivas em situações inesperadas. Laura estava quase apagada da memória do narrador. Ao reaparecer por acaso, porém, transforma completamente a sua vida. E mostra como é fina a linha que separa o que programamos para o futuro e o que de fato acontece - apesar de todas as nossas forças e da nossa vontade: "por uma fração de segundo ficamos entregues à nossa sorte".

Como se fosse a primeira vez

É muito difícil selecionar filmes que estão no cinema confiando no que se escreve nos jornais. A maioria dos críticos é fanática por sacadas "intelectuais", e não consegue perceber o despreparo de diretores arrogantes e/ou a incompetência dos que se intitulam marginais. "Hollywoodiano" virou adjetivo depreciativo. Mas é exatamente nessa categoria em que eu enquadraria Como se fosse a primeira vez, que assisti recentemente no cinema.

É uma produção barata, apesar dos atores principais - Drew Barrymore e Adam Sandler. E a história não é assim muito criativa: uma menina - de, digamos, uns 25 anos - sofreu um acidente, e quando vai dormir se esquece de tudo que aconteceu durante o dia. É como se vivesse repetidamente o mesmo dia. Adam Sandler, ainda assim, se apaixona por ela - se apaixonaria se não fosse tão bonita? -, e diariamente busca soluções para reconquistá-la. É uma atividade que requer dedicação e invenção de malabarista - e que desemboca, muitas vezes, em casos cômicos.

Eu fui ao cinema, sozinho e doente, sem expectativa nenhuma, mas ainda assim: o principal mérito de Como se fosse a primeira vez é ser um filme que corresponde à nossa expectativa - o que já não é pouco.

Para ir além






Eduardo Carvalho
São Paulo, 2/7/2004

Mais Eduardo Carvalho
Mais Acessadas de Eduardo Carvalho em 2004
01. De uma volta ao Brasil - 23/7/2004
02. A melhor revista do mundo - 8/10/2004
03. Por que não estudo Literatura - 24/9/2004
04. Como mudar a sua vida - 21/5/2004
05. O chinês do yakissoba - 5/3/2004


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/7/2004
20h30min
Fico a me indagar se a necessidade de responder às expectativas do receptor termina por minar também a nossa própria criatividade... Por que sem ela, nos transformamos na figuração de ecos sem fim que ora se intercalam, ora se remodelam... O difícil está em saber ruminar o pensamento e digerí-lo de forma não cusar uma indigestão a nós mesmos...
[Leia outros Comentários de Flávia Pedrosa]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Os Antigos Contados
Maria Beatriz del Peloso Ramos
Scortecci
(2022)



Da Aurora ao Pôr do Sol
Luiz Airão
Novo Século
(2016)



História da Literatura Brasileira 2
Massaud Moisés
Cultrix
(2016)



Ética
Frei Betto e Jurandir Freire Costa e Eugenio B.
Garamond
(1998)



Mestres da musica classica 11 - Johannes brahms
Folha de S. Paulo
Folha de S. Paulo



O Mito Lampião
Roberto Tapioca
Roberto Tapioca
(2004)



Comunicacao e Expressao Atraves dos Textos
Silvia Ferreira Lima
Biblioteca 24 Horas
(2010)



Cidadão de Papel - A Infância, A Adolescência e os Direitos Humanos no Brasil
Gilberto Dimenstein
Ática
(2012)



Projecções Ortogonais I e II
Armando Cardoso
Lopes da Silva
(1942)



1968 o Ano Que Não Terminou
Zuenir Ventura
Nova Fronteira
(1988)





busca | avançada
112 mil/dia
2,5 milhões/mês