Depois de quatro anos, aqui estou eu, de novo, falando sobre casamentos no Digestivo. Da primeira vez, participei de uma cerimônia tão bela, tão simples, que me inspirei a refletir sobre o assunto. Fiquei contente porque o texto acabou contribuindo com as aspirações de uma moça casadoira, que tirou idéias para a decoração do seu casamento pela descrição que fiz aqui. Mesmo gostando bastante do ritual, de lá para cá fui apenas a outras duas cerimônias. Muito pouco, se considerarmos que eu e minhas amigas estamos por volta dos 30 anos e, teoricamente, bem na época de casar.
Essa realidade reflete o que dizem as estatísticas do IBGE. As pessoas casam cada vez menos e mais tarde. De 1991 para 2002, foram 4% a menos os casamentos realizados. No começo da década passada, as mulheres casavam por volta dos 23 anos. Hoje, estão esperando até os 26. Lá pelos 35, elas se divorciam. A maior participação no mercado de trabalho e a flexibilização das convenções sociais liberaram as mulheres para o divórcio, contribuindo para um aumento de 55,9% nos casamentos oficiais desfeitos em relação a 1991. No entanto, o matrimônio continua sendo um dos principais temas que a indústria cultural trabalha para o público feminino.
Parte desse público, formado por mulheres na faixa dos 30, parece ter sido "redescoberto". Elas não estão mais só em casa cuidando dos filhos, mas também se estressando no trabalho e ainda em busca de um companheiro para dividir e comemorar as novas conquistas. A indústria desistiu de oferecer livros de receitas e passou a vender revistas com guias de conquista e manutenção de relacionamentos e seriados de TV com pretensas abordagens dessa nova realidade. Apenas trocaram um estereótipo por outro.
Refletindo essa mulher atual, surgiram livros e filmes que contam histórias de moças inteligentes e irônicas que, no fundo, só querem mesmo é o tal do príncipe encantado. São títulos como Bridget Jones e Melancia, cujas capas lembram mais uma agenda de adolescente do que livros adultos. O que pensar de um volume com um visual assim e que ainda traz uma cinta promocional onde se faz referência a esses títulos?
No mínimo, que é mais do mesmo. Talvez o pessoal do marketing da Nova Fronteira tenha ficado com medo que Temporada de casamento (2004, 340 págs.) não vendesse por ser um pouco mais profundo que seus parentes do mesmo segmento. A cinta promocional nivela-o aos outros. Porém, ele é um pouco diferente.
O começo do livro de Darcy Cosper é um típico roteiro de sitcom americano: cheio de piadinhas. Os diálogos são repletos de tiradas engraçadinhas e os personagens não têm conversas de verdade. A profusão de descrições torna óbvio o que informa a orelha do livro: Temporada, o filme, já está em produção e terá Nicole Kidman no papel de Joy Silverman, a heroína da história. Só quero ver como resolver em imagens o momento em que a personagem passa a pensar mais do que falar. A certa altura, as tiradas dão lugar a reflexões e o leitor começa a entender os motivos de Joy para permanecer oficialmente solteira.
Sim, por incrível que pareça, ela não quer casar. Na verdade, Joy vive com o namorado, um verdadeiro sonho de consumo: alto, bonito, fotógrafo, rico, adora ela e ainda ajuda a fazer faxina no apartamento. Os dois se conheceram em um casamento e descobriram que tinham a mesma opinião sobre o ritual: hipócrita e dispensável. Porém, enquanto Gabe tem apenas restrições, Joy é radicalmente contra, a ponto de se tornar uma chata quando tem que enfrentar 17 cerimônias em seis meses.
É uma maratona de casamentos de todos os tipos, dos mais tradicionais, em igrejas chiques, aos hipermodernos, com transmissão via internet. Entre os nubentes estão amigos e familiares de Joy, incluindo sua mãe (terceiro casamento), seu pai (segundo casamento) e a estréia do irmão mais novo. Até a tia, uma mulher chiquérrima e profissionalmente bem-sucedida, acaba se rendendo ao matrimônio e abandonando Joy na sua convicção de que existem aquelas que não desejam casar.
No decorrer dos meses e das cerimônias, Gabe acaba pedindo Joy em casamento. Ela releva sua opinião anterior e aceita? Claro que sim. Quem quer perder um homem como Gabe? Mas a história não termina aí. Entre o noivado e o altar existe um longo caminho, que para Joy terá muitos obstáculos e lições de vida. Nesse momento do livro, o foco muda da irritação da personagem com os casamentos e passa a destacar suas refelxões sobre ética e princípios.
A esperança de que a indústria cultural talvez esteja vendo as "balzaquianas" de uma forma um pouco diferente está no desfecho não-previsível de Temporada de casamento. Outro exemplo desta tendência é Avassaladoras, de 2002, um filme bobinho em que Giovana Antonelli faz mais uma dessas indefectíveis mulheres bem-sucedidas de 30 anos em busca de marido. Apesar dos clichês, tem alguns pontos bem interessantes e um final que é feliz sem passar, necessariamente, pelo casamento.
Não penso que a maioria das mulheres ainda pensa em casamento como tábua de salvação. A vida está dura. O mundo, vertiginoso. Temos que pensar no mercado de trabalho e em ganhar dinheiro, para garantir o nosso futuro. Foi-se o tempo de "Marina", personagem de "Angústia", de Graciliano Ramos, que ficava esperando "uns trastes" do noivo, para fazer o enxoval. Hoje, primeiro o trabalho, segundo o trabalho, terceiro o trabaho.
Carolina, e a felicidade? Companheirismo? Carinho? Amor? Será que só em quarto ou quinto lugar? Não sei... Talvez haja espaço para tudo, nesse mundo meio louco e corrido, mas para isso, precisamos dar uma parada. Olhar para cima, para baixo, pros lados, respirar, e descobrir o que se quer, porque hoje, mais do que nunca, o universo de opções e a pressão aumentam a responsabilidade de cada um, e confundem tb! Eu ando vendo que as pessoas cada vez mais se preocupam em se tornar um Gauss, ao inves de buscar o prazer que Gauss sentiu enquanto fazia o seu trabalho... Fazer o que deixa cada um feliz, sem se ater a modelinhos e regrinhas modernosas ou antiquadas, é o único caminho para felicidade. É necessário ter paciência e, crime dos crimes, um pouco de humildade. A atitude, "eu posso estar errado", é a cura para muita úlcera. Conselho de quem já correu muito na corrida de ratos.
Ram, já nem sei se carinho, amor, companheirismo fazem parte da vida atual. Tudo isso é muito lindo e todos fazem a pessoa feliz, mas vejo-os como raridade. Infelizmente, as pessoas viraram seres descartáveis. Um horror, mas é verdade.
Talvez eu seja ingênua ou otimista demais, mas acredito que ainda existe amor e companheirismo no mundo. Sofri por amor como quase todo mundo, mas meus amores eram pessoas bacanas, que me deram carinho e foram grandes companheiros durante o tempo em que o relacionamento durou. Como as pessoas não são perfeitas, eles também erraram, assim como eu errei. No final, porém, o saldo foi positivo. Um dos problemas que a gente enfrenta para levar adiante um relacionamento é a idealização. As pessoas não são perfeitas e as pessoas também não mudam. Aceitar a imperfeição não é aguentar tudo só para estar com alguém, mas é entender que não existe amor de folhetim na realidade. Sim, eu acredito no casamento. Eu também gosto dos rituais, acho-os importantes. Mas não penso que eles sejam relevantes para a felicidade de um casal. O que importa é o que foi combinado entre eles. Ainda creio nessa instituição, seja ela oficial ou não. E mesmo que o atual não dê certo, vou continuar tentando.
Outro dia assisti a uma entrevista com o Flavio Gikovate cujo tema era o amor. Foi curioso ouvir que o amor é só um sentimento de tranqüilidade e segurança que acompanha os casais. Só? Pois! Mas será que é isso mesmo o que as pessoas procuram? Tranqüilidade e segurança? Ou será que existe um culto à intensidade que também passa pelo afeto? Um culto à paixão, talvez. E não necessariamente existe amor onde está a paixão. Ou vice-versa. Quanto ao casamento, talvez as pessoas, principalmente as mulheres, estejam tentando redefinir esse, vamos dizer, contrato. Mulheres separadas hoje não pensam em se casar de novo, não nos moldes do casamento que já conhecem, que já viveram. De 200 em 200 anos a humanidade passa por mudanças radicais, estruturais, e estamos numa dessas épocas. As estruturas estão falindo e ainda não há nada muito definido para ser colocado no lugar. O casamento é uma delas. O problema não é o casamento em si, mas o casamento como o conhecemos hoje.
...ainda não acabou, pq as pessoas –a "ssociedaadi"– ainda não inventou um outro padrão médio de comportamento para reproduzir e conservar a prole... nem para diminuir o stress e o gasto (de tempo e dinheiro) na busca pelo sexo.
O casamento não acabou porque é uma opção voluntária. Não é lei. E tem muita gente boa feliz no casamento... Perguntem a um tal de Sir. Paul McCartney.
o casamento não acabou e não vai acabar. Pode mudar um pouco os modos e a moda, mas sempre vai existir alguém querendo uma união mais duradoura com outra pessoa e investindo neste projeto. Depois de quase 30 anos de casada, com a mesma pessoa, eu digo que acredito, sim, em casamento. Tem valido à pena! (Acho que não temos almas pequenas... Será?)
Casamento, e por que não? Casar o coração, mudar a alma de casa... Aventurar-se: essa sim a maior e mais feliz missão a ser cumprida. Rituais, pompa, receitas de bolo? Não, obrigada.
Apesar de estar um mês "atrasada" p/ postar comentários... Não pude deixar passar: toda essa discussão remete ao próprio conceito de amor. É preciso "ler" nosso conceito de "amor" situando-o dentro do contexto pós-moderno e capitalista... Há um livro chamado "A Arte de Amar" que, ao meu ver, monta um excelente mosaico sobre a questão. O autor é Erich Fromm.