Contra um Mundo Melhor, de Luiz Felipe Pondé | Marilia Mota Silva | Digestivo Cultural

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COLUNAS

Sexta-feira, 21/10/2011
Contra um Mundo Melhor, de Luiz Felipe Pondé
Marilia Mota Silva
+ de 15800 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Contra um Mundo Melhor, de Luiz Felipe Pondé. Produção caprichada da Editora Leya. Li o livro, instigada pelo título e uma resenha elogiosa.

São ensaios que falam da transitoriedade da vida, do envelhecimento e morte como fim sabido e irrecorrível; da agonia, do beco-sem-saída da condição humana:

Se serei derrotado ao final, pouco importa o que eu faça (pág. 137), lamenta-se o filófofo. E protesta contra a idiotice dos que lutam por um mundo melhor, a impostura da felicidade, dos que fingem ou tentam ser felizes:

Cético, conservador, niilista (pág. 141), o autor reflete sobre o momento em que vivemos: Não acredito em nenhum sistema de valores disponível. Ando como quem anda num deserto, sem direção e sem discernimento porque a paisagem é toda igual, feita da mesma matéria efêmera e sem forma"? . Caminhamos por ruínas.... Habitamos o abismo. :

Conheço um casal que se enquadra entre os idiotas descritos no livro: Os dois vivem com gosto, tentam e são felizes. Já percorreram a Europa de moto, viajaram de Ushuaia à Nova Zelandia, do Alaska ao Porto, ano passado foram de carro do Rio ao Pacífico, Deserto do Atacama, Salares bolivianos e Argentina. Quando ambos ainda estavam nos trinta, perderam um filho para a leucemia, depois de uma longa e sofridíssima batalha. Viram o abismo, viveram a tragédia minuto a minuto, por mais de um ano. Sem metafísica. Outro dia, esse amigo me dizia de seu espanto quando vê pessoas graves, que caminham taciturnas como se levassem nos ombros o peso de nossa miséria. Não as julga idiotas, mas acha graça das pessoas que se levam muito a sério.

Trágico ou tragicômico. Niilismo, existencialismo, epicurismo. São escolhas de cada um e, talvez, simples humores, química do cérebro. Mas não foi esse tema básico que me chamou a atenção no livro. Foi o ensaio que trata da frustração dos homens em relação ao que o autor chama de Mulheres Obsoletas. A velha guerra, a primeira e última da nossa espécie, provavelmente:

O problema é que sentimos que tudo o que queremos (atenção, cuidados, delicadeza, dedicação, 'a janta') é opressão para as mulheres, enquanto tudo que caracteriza o desejo da mulher (ser meio paranóica com tudo, exigir mil coisas, ou mais, para se sentir amada suficientemente, fazer-nos esperar por elas, sermos capazes de saber de antemão o que elas querem que saibamos, darmos presentes todos os dias) é direito da natureza feminina. Este é um nó que, com o tempo, desgasta a relação no cenário cotidiano.

Esse pequeno parágrafo contém tantos absurdos que se passa da estupefação ao riso. A janta! O homem fica indignado se não encontrar a janta na mesa. É direito natural do grande patriarca! E não apenas isso: Exige também mais atenção, cuidados, delicadeza, dedicação!

Quem não quer isso? Eu quero! Não. Para mim bastaria o jantar na mesa, o que pressupõe compras de supermercado, feira, preparação, limpeza - horas de trabalho. E pressupõe que a pessoa seja de toda a confiança. Além de minha gratidão, ela teria, é claro, o pagamento combinado.

Mas tem mais. O resto da frase é um disparate: O que caracteriza o desejo da mulher é ser meio paranóica etc, etc. Como assim? De onde ele tirou isso? Não sei como a revisão deixou passar esse trecho. Não faz sentido!

A mulher descrita acima não está com desejo. Está desesperada. Ela certamente acreditou que seria possível ter um relacionamento amigável, sensual, prazeroso com um homem adulto, maduro. E se deparou com um homem absorvido em si mesmo e que espera receber tudo dela.

Por quê? Porque sim. Porque antigamente era assim. Ele era rei e tinha todos os direitos, desde que sustentasse, mal ou bem, a mulher.

Se ficou alguma dúvida sobre o significado da "janta" (algum leitor de coração sensível talvez preferisse entender o termo como representação de um amor que nutre o ser amado) o autor, logo adiante, esclarece seu pensamento, de maneira inequívoca: quer a mulher na cozinha e na cama. (Pág. 37):

Essa realidade, essa sensação de injustiça cometida contra os homens, produz comportamentos de baixo investimento afetivo porque muitos de nós caímos na fobia. Medo de investir e receber de volta uma petição de direitos que vai do direito a deixar a cozinha vazia até o de deixar a cama desinteressante e o afeto desorientado, mas com a manutenção da exigência de alta renda por parte dos homens. Isso nos estimula à canalhice por razões sociopolíticas: 'hoje em dia a mulher tem não os mesmos direitos, mas mais direitos, logo, de mim, elas nao tirarão nada'. O cinismo, como sempre aparecerá na sua face profunda: ressentimento agressivo.

Petição de direitos!

Pois é! Os senhores de escravos também ficaram desorientados quando viram a cozinha vazia e a lavoura descuidada. Atendia-lhes bem a servidão do outro. Eles também se julgavam com todos os direitos. Sentiram-se traídos, exigiam ser indenizados! Afinal, compraram o escravo! E davam-lhe comida e teto. Escravos ingratos! Como ousavam não amar seus senhores? Mas não teve jeito. Tiveram que aceitar os novos tempos.

Um professor, especialmente de filosofia, não deveria se permitir o uso de estereótipos e sofismas com tanta desenvoltura: Mulher fala demais e se perde em detalhes, os homens são silenciosos e mantêm o foco. Só rindo. As mulheres são paranóicas e mercenárias e merecem homens canalhas porque a "injustiça" "gera comportamento de baixo investimento afetivo.

Baixo investimento acontece quando falta capital. É melhor admitir que se tem pouco ou nenhum capital afetivo e lidar com isso. Pouco a dar, pouco a receber. É coerente com o tema do livro e parte de uma visão mais realista.

Também não me parece lúcido justificar o comportamento canalha do homem, quando contrariado no que julga ser seus direitos. A pessoa é canalha por índole. O normal é ser inseguro, mentiroso, covarde, o autor afirma em outro ponto. É por aí. Encarar a realidade sem atirar a culpa em outros ombros é um primeiro passo para a maturidade.

O ensaio fala ainda da fragilidade feminina, que seria falsa; outra discussão comum nos anos 60. Diante do óbvio, acabou surgindo um consenso: Mulheres e homens são fortes e fracos, cada um de seu jeito. Agora, força física? Outro dia, estava jogando boliche, e minha filha me chamou a atenção para um dado no placar: a velocidade dos lançamentos das mulheres era, em média, um terço da velocidade dos lançamentos dos homens. Éramos quatro casais. Somos mais fracas fisicamente? É óbvio! Os hormônios exigem muito de nós em todas as fases da vida? Sim. A maternidade é uma carga tremenda que se prolonga por muitos anos e, muitas vezes, toda sua vida? Sim, de novo. Essas são razões para choramingar se a mulher não se submete ao grande patriarca? É razão para exigir mais cuidados, sexo interessante, mais dedicação, mais atenção e a janta?

E aqui a conclusão do ensaio: Talvez o resumo da ópera seja: o homem precisa aprender a dizer 'não', assim como a mulher aprendeu. Ela diz 'não' para a cozinha, para a maternidade, para a virgindade, para a fidelidade, sob as palmas da cultura pós-moderna. Como uma liberta das amarras do passado, ela caminha solta em meio aos escombros de seus velhos papéis sociais. O homem precisa aprender a dizer 'não' para a mulher que se oferece sexualmente, para a suspeita sobre ele lançada de que não seja capaz de sustentá-la (em todos os sentidos da palavra).

Esse texto, se tivesse sido escrito em meados do século passado, revelaria uma mente blindada pela absorção em si mesmo, limitada pelos conceitos e pressões de seu tempo e cultura, confuso, perdido, com pouca sensibilidade. Hoje, a tudo isso soma-se o anacronismo. Os homens dizem "sim" a toda mulher que se oferece sexualmente? Só se ainda estiverem na puberdade. E não é isso que os homens teriam que aprender! Não é nada disso, não é esse seu trunfo (a não ser para garotos-de- programa). Esse não é um jogo de dominação, de poder, de patrão e empregada.

Também não é verdade que a "liberta" recuse as amarras do passado e seus velhos papéis sociais, inclusive o de mães. As mulheres ainda dizem sim à maternidade. Crianças por toda a parte dão prova disso. Quando disserem "não" a humanidade acaba.

Se um homem procura uma mulher para formar uma família, na expectativa de estar adquirindo seus serviços sexuais e domésticos, além de sua dedicação, delicadeza, cuidados e carinho, melhor que pense antes no que tem a oferecer a ela. A moeda de troca é a mesma. Se não, só lhe resta mesmo o Ressentimento Agressivo contra as mulheres, de que sofre o autor. E nada mais corrosivo do que envelhecer com essa amargura: faz mal a si mesmo e a todos em volta, especialmente quando se trata de um filósofo e professor. Para ir além






Marilia Mota Silva
Rio de Janeiro, 21/10/2011

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
22/10/2011
17h50min
Maravilhosa essa critica! No ponto. Sem tirar nem por. Pura filosofia de real pensadora.
[Leia outros Comentários de Aline Brito]
7/11/2011
13h14min
Excelente resenha. O argumento dos senhores da escravaria parte ao meio a coluna do Pondé e expõe toda a sua (dele) cegueira, parcialidade, irresponsabilidade e leniência intelectual consigo mesmo.
[Leia outros Comentários de Jair F. dos Santos]
22/12/2011
07h37min
Muito bom. Pondé me atraiu, às vezes, pela coragem (aparente) de alguns de seus argumentos, até que percebi um ranço pessimista/comodista em seus artigos que começou a me afastar de sua leitura. A articulista aqui acertou em todos os alvos - esse machismo revestido de auto-indulgência filosófica parece ranço do pior Schopenhauer e prega o ressentimento, lamentando a servidão feminina perdida. Excelente.
[Leia outros Comentários de francisco lopes]
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