Para o Oscar deste ano de melhor ator, tenho certeza (me corrijam depois) que o vencedor será Fredric March, por sua atuação como Norman Maine em A Star is Born (Nasce uma Estrela). O quê? O quê? Estão me puxando pelo cotovelo. Com licença. (Pausa) Estão me dizendo que não estamos mais no ano de 1937. Caramba! Devo ter me distraído um pouquinho.
Correção
Não acertei nem na minha previsão para o Oscar de 1937. Fredric March não ganhou o prêmio pelo papel de Norman Maine na primeira versão de Nasce uma Estrela. (Mas merecia, se querem saber. Talvez seja um pouquinho tarde para começar essa polêmica, mas enfim...) Para piorar, é claro, estão me dizendo que o Oscar deste ano foi na semana passada. Meu Deus, quem ganhou?
Agora a sério
Este ano calhou de ser 2002; um ano que muito em breve será indistinguível de 2000 ou 2003 ou 2004. No futuro terei que explicar: este foi o ano em que Halle Berry e Denzel Washington ganharam os Oscares (sim, Oscares).
Fiquei acordado vendo o Oscar. O melhor da noite toda foram os 20 segundos em que Uma Thurman apareceu sentadinha lá na platéia. De modo geral gosto da festa, não acho brega (com exceção, claro, das danças) nem longa. E acho que a maioria das pessoas nunca entendeu o espírito da coisa. Quase sempre se julga que o prêmio de melhor ator e atriz é um prêmio técnico, por exemplo - como num concurso de vinhos. Mas não: o Oscar de melhor ator - e sobretudo o de melhor atriz- não é como um prêmio para o melhor vinho, mas para o vinho que mais nos embebedou. É por isso que achei justo que Fernanda Montenegro não ganhasse, uns anos atrás. E é por isso que achei injusto que a Mais Linda Mulher Azul do Mundo não ganhasse nada. Dois segundos de Nicole Kidman na tela são o suficiente para que as suas pernas fraquejem e a sua boca se abra e você se esqueça do nome da cidade em que vive. Se a ponta dos cabelos dela esbarrasse no seu ombro, você acordaria dois dias depois numa calçada qualquer, sem nenhuma lembrança de como foi parar lá. E eu não estou falando só de beleza. Estou falando de algo mais. Veja Moulin Rouge.
A Lei Alexandre de Gíria em Novelas
Sempre que um autor de novela descobrir uma gíria, ela já estará fora de uso há cinco anos. Conf. galera (em " e aí, galera?"), parada (" estou ligadão na sua parada, sacou?'), etc.
As Leis Secretas da Literatura Brasileira Contemporânea
1) Só há duas classes sociais permitidas na lit. brasileira contemporânea: baixa e média-baixa.
2) Só há um assunto permitido na lit. bras. cont.: Violência Urbana.
3) Conto é melhor que romance. Mas roteiro é melhor do que conto.
4) Só há um tempo verbal permitido: o presente. (O personagem não entrou no bar. O personagem entra no bar.)
5) Todas as orações subordinadas serão punidas.
6) O personagem principal de todos os romances será um homem de classe média-baixa, muito franco sexual e escatologicamente, e propenso a digressões sobre o mundo pop de classe baixa (Chaves, Chacrinha, Chapolin).
7) O enredo, se presente no romance, deve ser perfunctório e apenas para consumo. Qualquer enredo, se presente acima de certo ponto, será considerado tráfico e subsequentemente apreendido.
Seis Coisas Que Eu Queria
Pois bem, eu queria:
1) Ver pelo menos um artigo sobre Oscar Wilde sem nenhuma menção ao que ele fazia ou deixava de fazer com a porção final do seu trato digestivo. Que as comunidades gays parassem de encher o saco póstumo de Oscar Wilde e fossem ler um livro dele, só para variar;
2) Que todos parassem de chamar genericamente atores de "artistas";
3) Que ao menos um personagem de novela tivesse alguma ambição intelectual, e isso fosse a trama central da novela. Aldaísa, por exemplo, uma garota pobre do Méier, que é uma "idealista" (no sentido filosófico, técnico, do termo), e sua arquiinimiga Solange, uma filósofa realista maligna e inescrupulosa; a cena final é uma discussão em que os nomes de Locke e Hume são mencionados 105 vezes;
4) Que não houvesse socialites;
5) Que todos aqueles que entram para a política estudantil fossem automaticamente e obrigatoriamente alistados num exército internacional e em seguida jogados de pára-quedas em Kandahar, "onde os pássaros voam com uma só asa" (a outra estando ocupada os protegendo da prática sexual que tornou essa cidade famosa);
6) Que pelo menos uma vez um olheiro da Playboy levasse um tapa na cara ao fazer sua proposta a uma dama.
Alexandre SSilva
Sem duvida o Fredric March deve estar exultante pelo seu voto, embora dado após o fechamento das urnas, e até talvez, mais ainda por isso mesmo. Para ser mais preciso, não só mais por ser voto atrasado, mas por ser "TÃO" atrasado. Onde quer que ele esteja deve estar comemorando como se hoje, finalmente, estivesse recebendo o premio nunca dantes esperado por alguém por tempo tanto. Ao seu voto permita-me juntar o meu, tardio como o seu, e quanto.
Coisas que você não gosta.
Quanto ao Oscar Wilde, é minha opinião que a percentagem de gays que o leu deve ser mais alta do que a percentagem
dos não-gays que também o não leram. Será que estou errado ?
Quanto a atores e atrizes não serem artistas, acho que há aí uma generalização inaceitável. Ingrid Bergman não me perdoaria se eu não fizesse esse reparo. Ela até perdoaria, pois está muito acima desses pequenos detalhes.
Quanto à sua proposta número 5, concordo com a senteça dada, que sejam soltos em paraquedas sôbre Kandahar, embora eu nada tenha contra os habitantes dessa outrora linda cidade.
Obs: Os para-quedas são mesmo necessários?
Sobre o item 6, - Playboy - estou um pouco confuso. Acho que os encarregados de fazer as propostas, jamais as fizeram a uma dama. Porém, ocasiões há em que, contráriamente, acho que eles só convidam damas. "Penso eu de que". No mais, senhor Alexandre, estamos plenamente de acordo e apreciei muito o seu estilo, que aliás, é bem diferente, não melhor e nem pior, mas diferente, do que eu tinha já apreciado em "A Origem dos Irmãos Coyote"
Caro Alexandre, eu também queria as seis coisas que você menciona com tanta graça no seu texto -- mas gostaria de informá-lo que a terceira delas já aconteceu, uma vez, há quase trinta anos: a Globo (acredite se quiser!) levou ao ar uma novela chamada "Bravo!" centrada na vida de um maestro e seus dramas pessoais, profissionais e artísticos (pesquisando em sebos de discos, ainda se pode encontrar a trilha sonora, feita de clássicos mais ou menos populares, mas clássica mesmo assim): viu só, nem sempre o mundo nos desaponta...;-)))
Um abraço, escreva.
De secreto não tem mais nada. Mas são muito divertidas. Se ainda não são leis, merecem um aval de medida provisória, que já vem com pose de lei e muito mais...
Grande Alexandre, já sou leitor assíduo do sítio Digestivo Cultural, sendo discordante de algumas das suas opiniões, mas observo suas qualidades como Colunista.
Suas distrações, previsões, furos ... enriquecem o mais que digestivo espaço cultural
Caros Valentim, Ricardo, Daisy, e Sérgio- vocês são muito gentis. Obrigado. Concordo com o Valentim a respeito de Ingrid Bergman- mas ela lá no céu deve ter entendido o que eu quis dizer. Caso não tenha, peço que a filha me procure para que eu explique. Sobre a novela da qual o Ricardo fala- eu não conhecia. Não tenho a menor lembrança. Parece impossível...Daisy, essas leis, infelizmente, já existem, só que ninguém tinha percebido. Não é vero? Sérgio: é um prazer discordar com você. No bom sentido. Mais uma vez, obrigado.
Caro Alexandre,
Não concordo inteiramente contigo, embora entenda as tuas preocupacões. Falando em literatura, nas tais leis secretas. A propósito, acabei de ver um filme nacional (prefiro não comentar o Oscar). Suzana Amaral, a diretora, dá uma tapa (vamos usar assim, no feminino) num desses itens secretos dessa lei. "Uma vida em segredo" é um primor. Sou um amador de cinema, não sou crítico. Todavia, acho injusto com essa diretora se eu não contar isso aos outros. Não há nada de violência urbana. Algo despretencioso, simples, bem humorado, trágico, humano (há algumas coisas que quase chegaram a me incomadar, entretanto... Não, chegou uma hora que me entreguei. Eu me rendo! Eu me rendo, senhora Suzana Amaral! ) é belo! Belo! Belo!
E é mais que necessário e oportuno esse seu texto.
Paro por qui, se não vou acabar com o espaço. Aí este negócio fica longo e ninguém lê nada. Internet não dá pra ser extenso. Tem que ser breve. Embora tivesse muito mais pra dizer. É isso aí.
Cacá Mendes