Não importa quão cheia de atividades seja a vida de uma mulher, mas ela lida, consciente ou inconscientemente, a cada mês, com a possibilidade de ser mãe. Está bem, excluo aqui as que fazem tratamento para suprimir a menstruação, mas a questão é que ser (ou não ser) mãe é uma decisão que se renova no mínimo mensalmente, junto com o útero.
E é numa destas voltas do ciclo da vida que você pode se ver exigindo uma resposta definitiva. Justamente o que aconteceu comigo. Casamento indo bem, vida com altos e baixos – mas se encaminhando, tempo passando e, discretamente, fui preparando o terreno para criar, conceber, engravidar, ou como acho lindo em uma das versões em inglês: ficar pregnant, que serve tanto para dizer que se está esperando um bebê quanto para indicar que se está repleta de idéias muito significativas.
Como é possível notar, eu escolho as palavras com cuidado. E se digo discretamente é porque camuflei os preparativos para esta nova fase até para mim mesma. Comecei tomando uma vitamina, só para manter a saúde. Como se não fosse nada a dosagem caprichada de ácido fólico. Aí decidi me vacinar contra rubéola, só para não deixar para depois. Comecei a me interessar em ler e ver tudo sobre gravidez e bebês. E logo estava no meio de uma conversa mais séria com o parceiro sobre ter filhos, papo que começou como brincadeira e se aprofundou em discussão acalorada.
Mas uma vez que o tema entra em pauta, o pior é encarar as suas próprias objeções. Do que você tem medo afinal? E a resposta a esta pergunta veio rápida: de tudo, mas principalmente de mim mesma. Fui tirando receio por receio, um de cima do outro, desvendando as múltiplas camadas desta grande questão. E lá no fundo encontrei algo assombroso. Estava logo embaixo do pânico de não amar meu bebê, ao lado do horror de imaginar as conseqüências de minhas neuroses na vida de uma criança e disfarçado em meio a um mosaico de apreensões (O que eu faço se ele chorar? E quando eu estiver cansada? O papel de mãe vai soterrar a minha personalidade?) Foi neste exato ponto que encontrei o maior dos meus temores: o de deixar de ser absolutamente sozinha.
É, isto mesmo. Com tanta gente com medo da solidão inerente ao ser humano, num mundo em que pessoas até resolvem ter filho para deixar de ser só, eu invento de me acovardar justamente de deixar de ser só. Porque afinal, a gente sai da casa dos pais, se distancia de amigos, troca de emprego ou profissão, transforma marido em ex, mas filho é para sempre. E imagine como a força desta relação aparece para alguém que vê como regra e com um certo alívio que na vida tudo é mutável.
Agora como eu supostamente devo lidar com isto? Sei por experiência de vários embates que agüento o tranco de muita coisa pesada. Mas minha coragem se vai quando imagino que meu filho poderia ter que passar pelas mesmas provas. Vergonhosamente, perco aí toda fé e confiança no divino. Minhas múltiplas cicatrizes passam de medalhas de honra a sinais dos perigos do mundo. É como, já escaldada pela vida, entregar o coração de bom grado para outro ser carregar e ficar assistindo de longe o portador subir na corda bamba pela primeira vez.
E isto me corrói, da mesma maneira que é corrosiva esta minha vontade de ver a minha história se expandir em uma outra vida e finalmente entender a intensidade dos sentimentos estampada no rosto das mães. Elas se juntam, desabafam, mas continuam. Quero entrar no clã! Será que agüento?
Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pela autora. Publicado originalmente no portal Desabafo de Mãe.
Gabi, não existe preparo para ser mãe. Quem diz isso está mentindo. A maternidade vem carregada de sentimentos que vc nem sabia que existiam! Por isso sou a favor de não ficar planejando muito, não. Deixa rolar. Quando a contecer vc me conta... hehehe... PS: A hora certa vai depender da vida de cada mulher. Mas acho bacana em torno dos 30. Quando vc já vivenciou toda a sua liberdade, mas ainda tem forças para abraçar o que vem pela frente.
Concordo com o comentário da Cristina: deixa rolar. Pode ser sim que seu filho passe, como você e acho que todo mundo, por muitos trancos. Mas também vai passar por tanta coisa boa! Tenho certeza que você vai curtir muito. Como eu, que sou a mãe mais babona do mundo.
Por incrível que pareça eu estava lendo a minha história e me emocionei com a leitura. Eu estou passando exatamente por este momento de dúvidas e incertezas mas o texto é excelente e me ajudou muito. E agora eu sei que não estou só...
Gabriela, gostei muito do seu texto. Acho que a maior parte das mulheres sente mais ou menos isso que você desabafou. Meu medo era de esquecer de alimentar o bebê, cheguei a sonhar (ou ter pesadelos) com isso. Entretanto tive meu primeiro filho quando estava numa crise conjugal, vivendo em casa separada, e com dois empregos precários, sem carteira assinada. E foi maravilhoso! Foi a melhor coisa da minha vida. Minha segunda gravidez também foi sem planejar e igualmente maravilhosa. Não viveria sem meu trabalho mas também não consigo imaginar uma vida feliz sem meus filhos, com todas as preocupações e alegrias que eles me dão. Desejo que sua experiência seja também muito gratificante e iluminada.
Pô, que texto bom! É tão difícil encontrar alguém que escreve sobre o que realmente interessa. A gente vê tanto lugar comum por aí. Vc falou sobre maternidade sem cair na banalidade, no lugar comum, na chatice. Parabéns! Abraço, Rbr
Se você tem dúvidas, este não é o momento. Aguarde até que a luz verde acenda; é mais seguro do que tentar uma maternidade fora do seu tempo. Hoje uma mulher pode esperar esse momento com mais tranquilidade. E lembre-se de que nem sempre o filho preenche a falta de companhia; isso representaria o perigo de se transferir ou escamotear um problema mais sério, ou - o que é pior - contaminar o ambiente familiar, gerando filhos depressivos e dependentes. É bom verificar o que realmente se tem em mente ao ter filhos, antes que descubramos tarde demais. Filho não cura solidão.
desejo muito ser mãe, mais o meu esposo não quer por agora e cada vez que entro nesse assunto fico triste demais... estou precisando e desejando ter o meu bebê.. o que devo fazer?
Talvez este tenha sido um dos meus maiores receios, ter filhos... Houve épocas em que eu pirava, achava que ia ter cinco, para que cada um fizesse companhia para outro, outras vezes achava que nunca iria engravidar por ser algo de enorme responsa (o que não deixa de ser)... Descobri que estou grávida aos 29 anos, mas é isso mesmo: retardar tanto para quê? Ainda há forças para viver mais emoções, sentimentos e abraçar a vida que está sendo gerada dentro de mim. As dúvidas sempre existirão, é inerente ao ser humano. Sempre achamos que poderia ser melhor, nos projetando para um futuro que deve ser vivido a cada dia que passa... Uma assídua leitora da filosofia alemã de Schopenhauer e Nietzsche, os quais enfatizam particularidades das mulheres e da espécie humana, não me fizeram desprezar a idéia de ser mãe, mas realmente tudo tem sua hora, seu artigo me faz caminhar para o bem, mesmo porque faço meus os versos de Fernando Pessoa que diz "Tudo vale a pena se a alma não é pequena".