Cioran e a arte da provocação | Pedro Maciel

busca | avançada
62914 visitas/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Instalação DE VER Cidade - Brasília Numa Caixa de Brincar celebra o aniversário da capital
>>> CCBB Brasília é palco para “Amazônia em Movimento”, com o Corpo de Dança do Amazonas
>>> Mentor de Líderes Lança Manual para Vencer a Ansiedade
>>> Festival Planeta Urbano abre inscrições para concurso de bandas
>>> Ribeirão Preto recebe a 2ª edição do Festival Planeta Urbano
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A vida, a morte e a burocracia
>>> O nome da Roza
>>> Dinamite Pura, vinil de Bernardo Pellegrini
>>> Do lumpemproletariado ao jet set almofadinha...
>>> A Espada da Justiça, de Kleiton Ferreira
>>> Left Lovers, de Pedro Castilho: poesia-melancolia
>>> Por que não perguntei antes ao CatPt?
>>> Marcelo Mirisola e o açougue virtual do Tinder
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
Colunistas
Últimos Posts
>>> Martin Escobari no Market Makers (2025)
>>> Val (2021)
>>> O MCP da Anthropic
>>> Lygia Maria sobre a liberdade de expressão (2025)
>>> Brasil atualmente é espécie de experimento social
>>> Filha de Elon Musk vem a público (2025)
>>> Pedro Doria sobre a pena da cabelereira
>>> William Waack sobre o recuo do STF
>>> O concerto para dois pianos de Poulenc
>>> Professor HOC sobre o cessar-fogo (2025)
Últimos Posts
>>> O Drama
>>> Encontro em Ipanema (e outras histórias)
>>> Jurado número 2, quando a incerteza é a lei
>>> Nosferatu, a sombra que não esconde mais
>>> Teatro: Jacó Timbau no Redemunho da Terra
>>> Teatro: O Pequeno Senhor do Tempo, em Campinas
>>> PoloAC lança campanha da Visibilidade Trans
>>> O Poeta do Cordel: comédia chega a Campinas
>>> Estágios da Solidão estreia em Campinas
>>> Transforme histórias em experiências lucrativas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Primeiro post:uma apresentação
>>> Uma conversa íntima
>>> Não era pra ser assim
>>> O receio de fisgar alguém submerso
>>> Caldeirão da História
>>> Entre mudanças e descartes
>>> Joss Whedon
>>> Giuseppe Ungaretti e a alegria do náufrago
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A vida, a morte e a burocracia
Mais Recentes
>>> Teologia da Libertação de Gustavo Gutierrez pela Vozes (1975)
>>> Para que todos tenham vida de Cnbb pela Cnbb (1984)
>>> Safra Vermelha de Dashiel Hammett pela Civilização Brasileira (1989)
>>> Ciência e Tecnologia - Introdução Metodológica e Crítica de J. F. Regis de Morais pela Cortez & Moraes (1978)
>>> Fundamentos da Usinagem dos Metais de Metais Dino Ferraresi pela Edgard Blücher (1977)
>>> Traçado Prático De Desenvolvimentos Em Caldeiraria de Antonio Olave Villanueva Ler Descrição pela Hemus (1990)
>>> Negras Raízes de Negras Raízes pela Record (1976)
>>> Terra de Deus Terra de Irmãos de Eraldo Fonseca pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB (1986)
>>> O Projeto Jari e os Capitais Estrangeiros na Amazônia de Irene garrido filha pela Vozes (1980)
>>> O Plebiscito o referendo e o exercício do poder de Marcos Anônio Striquer Soares pela Celso Bastos Editora (1998)
>>> Esboços Bíblicos de Pr. Josualdo Mendes Dreger pela Abral Gráfica Ltda. (1998)
>>> Logica 1 de Paola Teixeira pela Sas (2016)
>>> Entre os Monges do Tibete de Lobsang Rampa pela Record
>>> Identificação Humana. Identificação Médico-legal, Perícias Odontológicas, Identificação Pelo Dna de Unknown pela Millennium (2018)
>>> Retrato Falado E Desenho Para Criminalística de Albani Borges Dos Reis pela Millennium (2013)
>>> Punk de Antonio Bivar pela Barbatana,
>>> Logica 1 de Paola Teixeira pela Sas (2016)
>>> A Guerra Dos Tronos: As Crônicas De Gelo E Fogo - Livro 1 de George R. R. Martin pela Leya (2010)
>>> Livro Didáticos Lógica 2 Coleção Asas de Hyderland de Oliveira Mendes pela Sas (2016)
>>> Extraordinario de Palacio pela Intrinseca (2013)
>>> Matemática Para Economistas de Carl P. Simon pela Bookman - Grupo A (2004)
>>> Manual da Divisão de Células de Aluizio A. Silva pela Videira (2003)
>>> Aforismos Para A Sabedoria De Vida de Schopenhauer pela Folha de São Paulo (2015)
>>> Retórica de Aristóteles pela Folha De S. Paulo (2015)
>>> Jackaby de William Ritter pela Unica (2015)
ENSAIOS

Segunda-feira, 12/8/2002
Cioran e a arte da provocação
Pedro Maciel
+ de 9000 Acessos
+ 2 Comentário(s)

O tédio alimenta o pessimismo. Segundo Cioran "o pessimista deve inventar para si mesmo, a cada dia, outras razões para existir: é uma vítima do sentido da vida". Entedia-se diante da vida aquele que busca revelar o tempo. "Entediar-se é mascar tempo". A experiência do tédio nos leva a perambular através do tempo exasperado. A vida só é possível porque não temos consciência dos momentos que passam.

E.M. Cioran (1911-1995), o filósofo do tédio e do êxtase, mestre da desesperação, apresenta em Exercícios de Admiração, ensaios e perfis de escritores, filósofos e poetas. As divagações são "exercícios de aprofundamento do conhecimento de si", um auto-retrato, como no ensaio dedicado a Michaux: "Não tendo nem a sorte nem o azar de se fixar no absoluto, se inventa abismos, suscita sempre novos, mergulha neles e os descreve."

E prossegue: "Assim conseguiu, com suas inquietações metafísicas, com suas inquietações simplesmente, permanecer – pela obsessão do conhecimento – exterior a si mesmo. Enquanto nossas contradições e nossas incompatibilidades nos escravizam e nos paralisam com o tempo, ele conseguiu se tornar senhor das suas, sem escorregar para a sabedoria, sem se afundar nela."

Cioran herdou a descrença de Nietzsche e a forma de narrar de La Rochefoucauld e Pascal, inspirou-se nos filósofos místicos e foi guiado pelos poetas: "Embora freqüentasse os místicos, no meu foro íntimo estive sempre do lado do demônio: não podendo me igualar a ele pela força, tentei ser equivalente ao menos pela insolência, pela aspereza, pelo arbítrio e pelo capricho."

Em Exercícios de Admiração, o autor de aforismos, silogismos e breviários, desvenda o universo literário de Samuel Becket, autor de Malone Morre: "Muitas de suas páginas me soam como um monólogo após o fim de algum período cósmico. Sensação de entrar num universo póstumo, em alguma geografia imaginada por um demônio, livre de tudo, até mesmo de sua maldição". Uma das falas do protagonista Malone sintetiza o pensamento de Becket: "O tempo que temos para passar na terra não é tão longo para que o utilizemos em outra coisa além de nós mesmos".

Já no perfil de Jorge Luis Borges, Cioran descreve o autor argentino como um intelectual sem pátria, um aventureiro, um "monstro magnífico e condenado", alguém que poderia "tornar-se um símbolo de uma humanidade sem dogmas nem sistemas e, se existe uma utopia que subscreveria de bom grado, seria aquela em que cada um o tomasse como o modelo, um dos espíritos menos pesados que já existiram, o último dos delicados".

Há outros ensaios, exercícios, evocações que ajudam a traçar o percurso existencial de Cioran. O filósofo retrata o seu ídolo de juventude, Otto Weininger, analisa a obra de Joseph de Maistre, o reacionário que defendia a Inquisição, relembra a amizade com Benjamin Fiondane, o judeu romeno discípulo de Léon Chestov, entre outros retratos literários.

Cioran revela-se por inteiro através dos retratos dos seus interlocutores. O filósofo se revela ao desvendar os outros. Segundo Saint-Beuve, o portrait littéraire é uma forma utilizada "para produzir nossos próprios sentimentos sobre o mundo e sobre a vida, para exalar com subterfúgio uma certa poesia oculta."

A arte da provocação de Cioran encontra-se também em Baudelaire, poeta da "franqueza absoluta", dos Fusées e de Meu coração desnudado: "O que consideramos verdadeiro devemos dizê-lo e dizê-lo corajosamente. Gostaria de descobrir, mesmo se me custasse caro, uma verdade que chocasse todo o gênero humano. Eu a diria à queima-roupa".

Escrevo para me aliviar (trecho)
"Só tenho vontade de escrever num estado explosivo, na excitação ou na crispação, num estupor transformado em frenesi, num clima de ajuste de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes.(...) Escrevo para não passar ao ato, para evitar uma crise. A expressão é alívio, desforra indireta daquele que não consegue digerir uma vergonha e que se revolta em palavras contra os seus semelhantes e contra si mesmo. A indignação é menos um gesto moral que literário, é mesmo a mola da inspiração. E a sabedoria? É justamente o oposto. O sábio em nós arruina todos os nossos élans, é o sabotador que nos enfraquece e nos paralisa, que espreita em nós o louco para dominá-lo e comprometê-lo, para desonrá-lo. A inspiração? Um desequilíbrio súbito, volúpia inominável de se afirmar ou de se destruir. Não escrevi uma única linha na minha temperatura normal.(...) Escrever é uma provocação, uma visão infelizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante, algumas vezes odiosa. Nada mais miserável do que a palavra, e no entanto, é através dela que atingimos sensações de felicidade, uma dilatação última em que estamos completamente sós, sem o menor sentimento de opressão. O supremo alcançado pelo vocábulo, pelo próprio símbolo da fragilidade! Pode-se alcançá-lo também, curiosamente, através da ironia, com a condição de que esta, levando ao extremo sua obra de demolição, cause arrepios de um deus às avessas. As palavras como agente de um êxtase invertido... Tudo o que é realmente intenso participa do paraíso e do inferno, com a diferença de que o primeiro só podemos entrevê-lo, enquanto o segundo temos a sorte de percebê-lo e, mais ainda, de senti-lo. Existe uma vantagem ainda mais notável de que o escritor tem o monopólio: a de se livrar de seus perigos. Sem a faculdade de encher as páginas, me pergunto o que eu viria a ser. Escrever é desfazer-se de seus remorsos e rancores, vomitar seus segredos. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas ficções que são as palavras para se curar. Quantas angústias, quantas crises sinistras venci graças a esses remédios insubstanciais!"

Para ir além




Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no caderno "Idéias", do Jornal do Brasil, a 3 de março de 2001.


Pedro Maciel
Belo Horizonte, 12/8/2002
Quem leu este, também leu esse(s):
01. S.O.S. literatura no Brasil de A.P. Quartim de Moraes


Mais Pedro Maciel
Mais Acessados de Pedro Maciel
01. Italo Calvino: descobridor do fantástico no real - 8/9/2003
02. A arte como destino do ser - 20/5/2002
03. Antônio Cícero: música e poesia - 9/2/2004
04. Imagens do Grande Sertão de Guimarães Rosa - 14/7/2003
05. Nadja, o romance onírico surreal - 10/3/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
13/8/2002
09h41min
Caro Pedro, Fico feliz em encontrar um ensaio sobre Cioran, o grande mestre da provocação, da agudedza e da argúcia. Poucos o conhecem, lamentavelmente. Por isso, um ensaio como esse é sempre bem-vindo para incitar a curiosidade necessária para conhecer esse autor exuberante. E como sua fonte é inesgotável, espero encontrar mais Cioran no Digestivo. Abraço, Vanessa
[Leia outros Comentários de Vanessa Rosa]
30/5/2009
12h27min
A verdade tem importância inquestionável, porém, a minha dúvida está em saber o exato momento de dizê-la. Talvez no intervalo de tempo entre conhecer a verdade e dizê-la situa-se a mentira, ou, de outra forma, esta é a exata medida desse tempo, e assim tem lá sua importância.
[Leia outros Comentários de Irineu Tolentino]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Teoria Geral das Obrigações1
Emilio Betti
Bookseller
(2006)



Rita esta Acesa
Terezinha Alvarenga
Miguilim



Leaving the Fold: Testimonies of Former Fundamentalists
Edward T. Babinski
Prometheus Books
(2003)



A Última Confissão
Morris West
Record
(2001)



A Psicanálise dos Contos de Fadas-leit e Teoria Literária - 24
Bruno Bettelheim
Paz e Terra
(1979)



Os Grandes Pilotos de Todos os Tempos - Volumes 1 e 2
Diversos autores
Abril Cultural
(1972)



Cronica de uma comunidade cafeeira
Paulo Mercadante
Itatiaia
(1990)



Quem Vai pra Cozinha? - Série Espelhos
Telma Guimarães Castro Andrade
Ftd
(2001)



Stradtverkehr: Gestern, Heute, Morgen
Eine Dokumentation
Eine
(1965)



A Nova Ordem Mundial Em Questão
João Paulo dos Reis Velloso
José Olympio
(1994)





busca | avançada
62914 visitas/dia
2,5 milhões/mês