Carne Viva e Paulo Francis | Michel Laub

busca | avançada
65166 visitas/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Mentor de Líderes Lança Manual para Vencer a Ansiedade
>>> Festival Planeta Urbano abre inscrições para concurso de bandas
>>> Ribeirão Preto recebe a 2ª edição do Festival Planeta Urbano
>>> Cia Truks comemora 35 anos com Serei Sereia?, peça inédita sobre inclusão e acessibilidade
>>> Lançamento do livro Escorreguei, mas não cai! Aprendi, traz 31 cases de comunicação intergeracional
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A vida, a morte e a burocracia
>>> O nome da Roza
>>> Dinamite Pura, vinil de Bernardo Pellegrini
>>> Do lumpemproletariado ao jet set almofadinha...
>>> A Espada da Justiça, de Kleiton Ferreira
>>> Left Lovers, de Pedro Castilho: poesia-melancolia
>>> Por que não perguntei antes ao CatPt?
>>> Marcelo Mirisola e o açougue virtual do Tinder
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
Colunistas
Últimos Posts
>>> Martin Escobari no Market Makers (2025)
>>> Val (2021)
>>> O MCP da Anthropic
>>> Lygia Maria sobre a liberdade de expressão (2025)
>>> Brasil atualmente é espécie de experimento social
>>> Filha de Elon Musk vem a público (2025)
>>> Pedro Doria sobre a pena da cabelereira
>>> William Waack sobre o recuo do STF
>>> O concerto para dois pianos de Poulenc
>>> Professor HOC sobre o cessar-fogo (2025)
Últimos Posts
>>> O Drama
>>> Encontro em Ipanema (e outras histórias)
>>> Jurado número 2, quando a incerteza é a lei
>>> Nosferatu, a sombra que não esconde mais
>>> Teatro: Jacó Timbau no Redemunho da Terra
>>> Teatro: O Pequeno Senhor do Tempo, em Campinas
>>> PoloAC lança campanha da Visibilidade Trans
>>> O Poeta do Cordel: comédia chega a Campinas
>>> Estágios da Solidão estreia em Campinas
>>> Transforme histórias em experiências lucrativas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Xilogravura na Graphias
>>> Presente de grego?
>>> Para que serve a poesia?
>>> Conversando com Truman Capote
>>> Homenagem a Paulo Francis
>>> Meu suplemento inesquecível
>>> iPad o Leitor da Apple
>>> Um coral de 10 mil vozes
>>> Grande Sertão: Veredas (uma aventura)
>>> As novas estantes virtuais
Mais Recentes
>>> Amor E Fogo de Nora Ephron pela Rocco (1983)
>>> Apelido Não Tem Cola Otero de Regina Rennó pela Editora do Brasil (2023)
>>> Atlas Mundial - o atlas para o século XXI de Vários Autores pela Dk (2000)
>>> Egito - deuses, pirâmides, faraós de Dimitri Casali pela Larousse (2005)
>>> Vamos Salvar A Baleia de Thomas Brezina pela Ática (1999)
>>> O Barco da Noite de José Ernesto Kappel pela Komedi (2006)
>>> O Melhor das Comédias da Vida Privada de Luis Fernando Verissimo pela Objetiva (2004)
>>> A Febre Do Ouro James de James Rickards pela Empiricus (2016)
>>> O Caminho da Tranqüilidade de Dalai-Lama pela Sextante (2000)
>>> Spqr: Uma História Da Roma Antiga de Mary Beard pela Crítica (2020)
>>> Cultura Do Medo de Barry Glassner pela Francis (2003)
>>> Interpretation Of Dreams (wordsworth Classics Of World Literature) de Sigmund Freud pela Wordsworth Editions Ltd (2000)
>>> Livro O Eneagrama No Amor E No Trabalho de Helen Palmer pela Paulinas (1999)
>>> O Enigma De Espinoza de Irvin Yalom pela Nova Fronteira (2013)
>>> Segredos Do Zohar de Berg Michael pela Kabbalah (2011)
>>> Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão de Arthur Schopenhauer pela Topbooks (1997)
>>> A Cama De Procusto - Aforismos Filosoficos E Praticos de Nassim Nicholas Taleb pela Objetiva (2022)
>>> Vavá, entre o medo e a coragem de Jair Vitória pela Moderna (1983)
>>> Fique Por Dentro Da Evolução de David Burnie pela Cosac & Naify (2001)
>>> Manual Prático Do Espírita de Ney Prieto Peres pela Pensamento (2006)
>>> Simply Sane: The Spirituality Of Mental Health de Gerald May Md pela Crossroad (1993)
>>> Regulação Direito e Democracia de José Eduardo Faria (Org.) pela Fundação Perseu Abramo (2002)
>>> Short History Of Ethics de Macintyre pela Scribner Paper Fiction (1966)
>>> Ver-de-ver-meu-pai de Celso Sisto pela Nova Fronteira (1996)
>>> Livro O Pequeno Principe Antoine De Saint Exupery de Antoine De Saint-exupéry pela Pe Da Letra (2016)
ENSAIOS

Segunda-feira, 5/5/2008
Carne Viva e Paulo Francis
Michel Laub
+ de 8400 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Não lembro quem disse que para escrever um romance é preciso ser um pouco burro. É uma boa frase, para além de seus efeitos publicitários: construir personagens e dramas que tenham o mínimo de vida demanda, antes de mais nada, não ter vergonha de deixá-los entregues ao ridículo que, em maior ou menor grau, está presente em qualquer trajetória humana. Se o autor fica o tempo todo mostrando que não faz parte desse ridículo, ou seja, que não é capaz de rir, chorar ou se maravilhar com os encantos mesquinhos e corruptos da vida, a tendência é que o leitor, também ele uma alma corrupta e mesquinha, não se identifique com nada do que encontra nessas histórias.

Isso é verdade na maioria dos casos, mas não em todos. Não dá para dissociar o romance satírico, por exemplo, do bem-vindo sentimento de superioridade de quem o escreve. Ou o romance de idéias, que abdica da narrativa e da empatia em favor de teses postas na boca dos personagens, de um tipo de prazer estético muito mais ligado à inteligência do que às emoções.

Tudo isso para dizer que o fracasso do só agora publicado Carne Viva (Francis, 2008, 264 págs.), de Paulo Francis, não se deve apenas à sensação de artificialidade da trama, que parece engendrada tão-somente para veicular as opiniões de seu autor sobre o Brasil, o mundo, o homem, os tempos. Embora seja um defeito bastante incômodo, que faz com que alguns diálogos soem constrangedores em seu esquematismo e inadequação, o problema maior são as idéias mesmo.

Daria para falar de várias delas. A visão dos conflitos de classe na sociedade brasileira, por exemplo, é ruim menos por motivos ideológicos ― e seria ridículo fazer uma análise do livro a partir desse parâmetro ― do que por soar anacrônica, afetada, como uma conversa entre homens de terno, em pleno calor, num Country Club decadente de um Rio que não existe mais. Também surpreende que as relações entre homens e mulheres sejam descritas por Francis, sabidamente um sujeito do mundo, cujo charme pessoal sempre transpareceu em seus inesquecíveis comentários, críticas, ensaios e memórias, de forma tão reducionista, quase ingênua.

Mas o que incomoda mesmo em Carne Viva, algo presente nas entrelinhas da parte mais importante do livro, os discursos diretos e indiretos dos personagens masculinos, é a idéia de que o mundo caminha para a barbárie ― política, moral, de costumes. No que se refere à cultura, o fenômeno se manifestaria pela dissolução dos parâmetros, pelo fim dos debates inteligentes, pela tragédia que é a estética de massas.

É um argumento um pouco cansativo, não só por sua reiterada popularidade num tipo de crônica que, por algum motivo insondável, parece ser o preferido do público brasileiro há coisa de 50 anos, mas também por estar errado em seu prognóstico: dez anos depois da morte de Paulo Francis, nunca se teve tanto acesso a produtos culturais, nunca os artistas tiveram tanta facilidade de publicar, gravar um disco, fazer seus filmes, nunca o público pareceu tão interessado em se manifestar a respeito de tudo isso. Como em qualquer tempo, as obras de qualidade superior são raras, mas existem. E se os debates na Internet na maioria das vezes são estúpidos, é porque a humanidade sempre foi em sua maioria estúpida. Nenhuma mudança de grau no processo. Pelo contrário: a prática de se expressar por escrito e ouvir o contraditório, se pensarmos com um pouco de otimismo, quem sabe até melhore o nível geral da audiência com o tempo.

De certa maneira, a queixa de Francis era um lamento pessoal pela perda do próprio poder. Não estou dizendo nada de novo: com o Google, por exemplo, muito do charme de textos que se apóiam apenas em informações horizontais, abdicando de qualquer densidade analítica, foi por água abaixo. Da mesma forma, a influência que uma crítica publicada num grande jornal, anteriormente um dos três ou quatro julgamentos que o leitor iria conhecer sobre um romance, disco ou filme, hoje se dilui entre centenas de fontes igualmente lidas e comentadas. Para quem construiu a carreira como intelectual público, o humanista que incorporava o filtro pelo qual passava tudo o que fosse relevante na cultura, ajudando a criar no público e em si mesmo a ilusão de que era possível apreender a súmula de algo tão grandioso e fragmentado, não devia ser confortável viver com a perspectiva dos novos tempos ― já visíveis nos anos 1990, quando Carne Viva foi escrito.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no seu blog michellaub.wordpress.com.


Michel Laub
São Paulo, 5/5/2008
Mais Michel Laub
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
5/5/2008
14h19min
Não sei se concordo, ainda não li o livro, apenas trechos. Me deu a impressão nítida de um romance ainda em fase de construção, idéias anotadas, story board literário, uma coisa desse tipo. Se for isso mesmo, essa crítica parece justa. Mas a tese do advento da barbárie já foi defendida pelo Francis, e com brilho, antes desse romance. É uma tese recorrente, sim, mas, nas mãos do Francis, não é totalmente descartável. Esse Carne Viva pode ser apenas um embrião de romance, ao contrário dos outros dois, não sei. É uma coisa pra se verificar. De qualquer forma, no caso específico do Francis e da crítica negativa e generalizada aos seus dois outros romances, pode-se inverter a frase que abre esse texto e dizer que, para se ler um romance, é preciso ser um pouco menos burro. Quanto ao medo da perda do próprio poder, é provável que Francis o sentisse, mas isso é um problema mais de jornalistas do que de escritores. E Francis gostaria de ser lembrado como escritor, se possível...
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Planeta Química Volume Único
Ciscato & Pereira
Atica
(2008)



Fabulosos Vingadores: Ragnarok
Remender McNiven Larroca Acuña
Panini Comics
(2016)



Ciência e Saúde Coletiva-vol 15-suplemento 1
Abrasco
Abrasco



Ensinando a Nadar
João Lutufo
Cia Brasil



Vida Assistida
Tess Gerritsen
Record
(2016)



As linguas do mundo
Charles Berlitz
Nova Fronteira
(1988)



Reading Explorer 4: Student Book And Online Workbook Sticker
Nancy, Bohlke, David Douglas
Cengage Elt
(2019)



Saramago - Biografia
João Marques Lopes
Leya
(2010)



No Avesso Do Paraiso - Vida Clandestina No Tempos Dos Generais
Lucília Atas Medeiros
Livraria Da Física
(2010)



Jen Ai Assez de Mon Physique ! (english and French Edition)
Philippe Eliakim
La Martinire Jeunesse
(2003)





busca | avançada
65166 visitas/dia
2,5 milhões/mês