Digestivo nº 464 >>>
Talvez mais que um escritor, Borges fosse um leitor. Possivelmente, o maior leitor do século XX. A impressão, em seus escritos, é a de que leu tudo e que, embora vítima de cegueira progressiva, alcançou uma espécie de clarividência em vida. Como entregou sua existência à literatura, esta parece que escolheu-o como seu porta-voz. Ler Borges, ouvir Borges ou, ainda, ler as transcrições das falas de Borges é tomar contato com a melhor tradição da literatura. Borges conseguiu ser a literatura em pessoa. E seus contos podem ser tomados como verdadeiros ensaios literários. Não é diferente neste Prólogo, com um Prólogo dos Prólogos (1975), que a Companhia das Letras acaba de reeditar. Conforme sugere o título, o volume reúne prefácios que Borges escreveu para obras ou autores que conhecia intimamente, ou para alguns contemporâneos (ninguém é perfeito). Logo, Prólogo... é Borges no seu elemento, falando de literatura, como o leitor de maior autoridade do seu tempo. Nesta coleção de prólogos, estão naturalmente as obsessões, como Cervantes (obsessão comum a quase todos os autores de língua espanhola e à maioria dos romancistas em qualquer língua): "As frases truncadas do realismo de nosso tempo lhe teriam parecido uma grosseria indigna da arte literária". Carlyle — também uma leitura de Nietzsche —, ainda que seu gosto aristocrático chocasse a futura correção política: "A história do mundo é a biografia dos grandes homens" (alguém falou aí em povo?). Também Emerson (outro preferido de Nietzsche, e de Harold Bloom), Gibbon, e, para sempre, Kafka: "Sua mais indiscutível virtude é a invenção de situações intoleráveis(...) Preferia ter escrito uma obra feliz e serena, não a uniforme série de pesadelos que sua sinceridade lhe ditou". Somos brindados, ainda, com análises do Bartleby, de Melville, Folhas de Relva, do imenso Whitman, e até Valéry. Sem contar, a tentação de "obras de amigos" como Adolfo Bioy Casares. Quem ama a literatura, no nosso século, terá Borges para sempre como guia. E este Prólogos é mais uma oportunidade de retomar essa rica tradição.
>>> Prólogo, com um Prólogo dos Prólogos
Sobre a pergunta: "alguém falou aí em povo?", tratando-se de Borges é difícil falar de povo. Ele era um aristocrata das letras. Sua avó era inglesa, ele falava as duas línguas e era um leitor voraz. Borges não se identificava com o povo. Também o grande filósofo Heráclito desconfiava do povo. Escutei uma palestra de Borges no começo dos anos 70, abordou os paradoxos de Zenon de Eleía, assunto que o povo não gosta e não entende. Enfim, cada cabeça é um mundo. E quem pode entender a cabeça dos gênios da literatura?...