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Quinta-feira, 6/10/2005 Festival do Rio 2005 (IV) Marcelo Miranda Parte I Parte II Parte III Voltando para a segunda parte da minha "segunda jornada" ao Festival do Rio. Depois de frisar a qualidade dos filmes brasileiros na mostra, agora parto para as grandes obras internacionais vistas ao longo dos dias 1 e 2 de outubro. Sem delongas, a elas, então: Van Sant faz um ensaio fictício e contemplativo dos últimos dias de Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana. Chamado no filme de Blake, é um roqueiro mergulhado nas drogas, no ócio, na melancolia e num estado de perturbação físico e mental que inadvertidamente o leva ao suicídio. Mas o que se vê, antes do desfecho, já é um homem morto: Blake vaga pela tela como um fantasma, alguém já desencarnado que parece buscar algo com que voltar à Terra, mas não encontra nada e decide ficar mesmo no céu (ou no inferno, que seja). Não é à toa que ele pergunta, em meio a uma canção e no melhor momento do filme, se será possível morrer novamente. Van Sant dá sua visão da morte pela terceira vez, de novo sem narrativa seqüenciada e com grande foco na sonoridade do ambiente. Elefante é mais impactante e crítico, mas Last Days guarda grandes achados na rotina daquela figura distante e sem rumo. A começar pelo foco: a escravidão e o racismo na América. Quando a personagem Grace chega a uma fazenda que, setenta anos após a abolição dos escravos, mantém negros no antigo regime, ela decide assumir o local e coloca gângsteres do pai para ajudar na imposição de sua própria visão do que é correto. A crítica mordaz à política norte-americana surge logo de cara: Grace não questiona a necessidade de seus atos. Ela acredita na visão pessoal e a leva até o fim, independente de opiniões alheias — exatamente, aliás, como o próprio Von Trier faz na posição de diretor. Só que, com o passar do tempo, a moça compreende que nem sempre o olhar particular é o correto. E aprende da forma mais dolorosa o quanto o "ajudado" pode deixar de ser vítima para se tornar algoz, num efeito inverso ao que acontecia na cidade de Dogville com a mesma Grace. Ao final (sem contar detalhes, para não estragar suspresas), o recado óbvio é de que, provavelmente, a América ainda não consegue lidar com as dores e chagas de seu passado, e pra isso tenta consertar as coisas no mundo à sua maneira. No fundo, o filme é sobre uma ditadura frustrada, tentativa mal sucedida de impor regras num universo que já as possui ao seu próprio modo. Percebe-se que a força de Manderlay é mais certeira. O filme não é apocalíptico como seu antecessor, nem tão utópico ou simplista na resolução dos conflitos. É mais pé-no-chão, preocupa-se em criar outros tipos de laços entre os personagens, desenvolve as relações com ênfase na desconfiança e descrença. Até Bryce Dallas Howard, que substitui Nicole Kidman no papel principal, interpreta de maneira mais comedida, minimalista, tornando difícil compará-la à atriz anterior. São dois trabalhos de criação distintos, apesar de serem da mesma personagem. E a julgar pelas provações às quais Grace volta a passar, provavelmente na última parte, Wasington, ela aparecerá de novo modificada. Perturbação esta que não se sabe de onde vem, representada no filme pelas misteriosas gravações recebidas pelo casal protagonista (Daniel Auteil e Juliette Binoche). Por mais que se suspeite de quem seja, nunca há certezas, e é exatamente isso que Haneke quer frisar: os problemas que nos norteiam nem sempre têm causas aparentes, mas suas resoluções podem estar mais próximas do que queremos enxergar. Sem usar grandes recursos estilísticos, Haneke cria um suspense pesadíssimo, em que a falta de ação e de resoluções aumenta a tensão. Sem música, poucos diálogos e poucos movimentos de câmera, o diretor tira de suas cenas o que elas têm de mais potente e autenticamente realista, nas seqüências de inspiração em Robert Bresson ou John Cassavetes — mas muito mais incômodas e intrigantes naquilo que a imagem parece não comportar em termos de solução narrativa. O controle e mão pesada são tamanhos que, num determinado momento de puro assombro (quando você vir o filme, vai saber qual é), torna-se impossível não haver choque imediato e perplexidade posterior. Se até ali o espectador ainda tinha dúvidas sobre o que Haneke falava, a partir de então o mergulho é total. E imergir no realismo estranho desse diretor é das coisas mais ricas e fundamentais que se pode ter atualmente em cinema — mas nem por isso das mais prazerosas. Só vendo. E é isso, por enquanto, o que tenho a dizer do Festival do Rio 2005. Agora é aguardar que estes filmes estréiem logo no circuito brasileiro (alguns já garantidos, como Manderlay em novembro). Até a próxima! Marcelo Miranda |
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