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Terça-feira, 18/7/2006 Teerã Fashion Week Luis Eduardo Matta As diferenças começam pelos organizadores que, no caso da república islamita, são as forças policiais. Com duração de dez dias, a feira tem o apoio de autoridades religiosas, do ministério do comércio e da corporação estatal de transmissão para a TV. A lista de exigências do casting também deve ser outra, bem mais relaxada, já que o único traço humano visto no palco é o rosto das modelos. De algumas, só os olhos. Além disso, na fashion week iraniana não há nenhum Reinaldo Lourenço, e homens não desfilam. Por baixo da hijab, a vestimenta que cobre todo o corpo e a cabeça, as modelos iranianas são mais livres que as brasileiras que desfilam em São Paulo. Estrias, celulites e os quilinhos extras que as nossas tops tiveram que queimar nas últimas semanas passam despercebidos embalados em tanto tecido. A iniciativa, segundo a organização, surgiu da necessidade de combater a influência ocidental nas vestimentas das mulheres - principalmente as mais jovens - e mostrar que elas podem se vestir com estilo sem desrespeitar "os bons costumes e a modéstia". A tendência de usar roupas cada vez mais justas e véus que deixam à mostra os cabelos, agora com penteados mais ousados, vem assustando o governo. A lei iraniana obriga as mulheres a vestir a hijab, incluindo o véu que cobre a cabeça, deixando só o rosto à mostra. Segundo o Corão, mais importante fonte de jurisprudência do Islã, é recomendável que homens e mulheres se vistam com modéstia, para não serem vistos como objetos sexuais. Mas cada país define o que a mulher pode ou não usar, e qual é a punição para quem descumprir a ordem. Com um desfile de moda, a polícia do Irã tenta contra-atacar a invasão da cultura européia, que chega ao país pela televisão, e manter os costumes islâmicos em alta entre os jovens. Para decorar, uma exposição paralela de citações exaltando as virtudes da hijab. Uma delas é atribuída ao próprio profeta Maomé: "Qualquer mulher com fé em Alá e no dia da ressurreição não exporá seus adornos para qualquer homem que não seu marido. Qualquer mulher que faça essas coisas para alguém que não seu marido traiu sua fé e provocou a ira de Deus." A estratégia, porém, parece que ainda precisa de muito mais recursos para convencer as jovens. A estudante Shakoofeh, de 19 anos, estava na platéia apenas como curiosa, e não como consumidora. Para ela, pouco importa o modelo ou a cor da vestimenta. "Eu nem usaria a hijab se não fosse pela lei." Texto publicado por Bob Fernandes no Terra Magazine (Créditos da imagem: Caren Firouz/Reuters) Luis Eduardo Matta |
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