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Quinta-feira, 25/6/2015
Blog do Carvalhal
Guilherme Carvalhal
 
Oriente Médio, de Bernard Lewis

O Oriente Médio é uma região do mundo que exerce fascínio sobre nós. Antigamente remetia aos mistérios do Oriente, uma idealização de odaliscas, sultões, palácios e suas cúpulas, lâmpadas mágicas, cimitarras, beduínos, o deserto. Edward Said em sua obra Orientalismo alertou que o mundo islâmico não se representa, e sim é representado pelos outros povos, principalmente o ocidental.

O inglês de ascendência judaica Bernard Lewis é um dos principais estudiosos do Oriente Médio e quem melhor consegue levar ao mundo ocidental o conhecimento dessa zona geográfica. Com os muitos conflitos que surgiram nos últimos anos envolvendo o Oriente Médio, sua obra se tornou muito relevante para se entender a formação dessa região em seus muitos âmbitos, como político, social, econômico e cultural.

Em O Oriente Médio - do Advento do Cristianismo aos Dias de Hoje o leitor vai se encontrar com um vasto apanhado referente a essa área, em uma explicação cronológica vinda desde a antiguidade até os tempos atuais. É um livro repleto de informação, mas muito acessível ao público leigo.

A obra pode ser dividida em duas partes. A primeira retrata a ascensão e o apogeu, vindo desde os primeiros povos a ocuparem a região, tendo como ponto alto o surgimento de Maomé, de onde se inicia a expansão do islamismo. A formação estatal e jurídica, a relação com cristão, judeus e zoroastrianos e a nova construção social são alguns dos principais temas.

A segunda parte é mais contemporânea e se foca na retração do Império Otomano com seu final esfacelamento, juntamente à criação dos novos estados no século XX. Esse ponto é um dos mais complexos do livro e o próprio autor não aponta com certeza algum motivo ou conjunto de motivos que tenham causado essa estagnação. Várias hipóteses são apresentadas, como a invasão dos mongóis, questões fundiárias e administrativas, entre diversas outras. Como marco histórico, ele apresenta a derrota dos otomanos diante da Áustria ao final do século XVIII como o ponto final da expansão.

Uma das principais abordagens de Lewis está nos comparativos entre oriente e ocidente, uma questão metodológica que indica seu foco em leitores ocidentais. A ideia geral é responder à pergunta: como o Oriente Médio, antigamente uma região bem mais avançado, ficou para trás e foi ultrapassado pelos ocidentais?

Essa propósito conduz boa parte do livro, pensando o Oriente Médio sob essa ótica. É uma tentativa do autor em dar respostas referentes ao presente, assunto ainda mais relevante após os atentados de 11 de setembro. Na apresentação histórica, Lewis aborda desde as cruzadas, passando pelas rotas marítimas da Europa à Ásia, o processo de ocidentalização que se inicia em tempos modernos e a nova configuração regional que se deu no século XX.

Esse trabalho de Lewis ajuda a quebrar muitos paradigmas reinantes a respeito do Oriente Médio. Em tempos de Primavera Árabe e dos conflitos do Estado Islâmico, sua leitura é fundamental para entender melhor a intrincada rede de poderes que permeia essa região.

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Postado por Guilherme Carvalhal
25/6/2015 às 16h08

 
Passageiro do Fim do Dia



A premissa utilizada por Rubens Figueiredo para construir seu romance Passageiro do Fim do Dia é bastante simplória: um rapaz indo para a casa da namorada de ônibus após o término de seu expediente de trabalho. E dentro desse enredo supostamente simples se constrói uma história grandiosa, envolta em percepções variadas do personagem principal durante esse trajeto.

Pedro é um personagem de profundidade não muito explorada. Pelo menos não o seu eu, sendo o seu entorno a construção da trama. Dono de uma pequena loja de livros situada em zona pobre frequentada por figuras poucos usuais à região, como juízes cheios de segurança, sua viagem para o bairro do Tirol, onde mora sua namorada Rosane, é desafogada do marasmo com o livro de Darwin sobre suas andanças pelo Rio de Janeiro. Ao ler e imaginar a passagem do cientista pelo Brasil e tentando imaginar os muitos contrastes entre o hoje e o atual, sua leitura vai sendo cortada pelas conversas ao redor, pelas diferentes pessoas embarcando e pelas suas muitas realidades.

Aqui já temos um bom caldo da imensidão da narrativa de Figueiredo. Os conflitos de Pedro com o mundo antigo exposto no livro, juntamente à percepção do Rio de Janeiro contemporâneo, quebram a linha narrativa da mera viagem. É uma trama paralela, um ir e vir na história constantes, evidenciando um dos principais pontos do livro, que é a literatura com fins de crítica social, ou então como narrativa a respeito de problemas sociais.

Em um trecho, Pedro lê sobre o comentário de Darwin a respeito de ser servido pelas negras, o que ele considera negativo pela condição da escravidão, mas ao mesmo tempo é aprazível essa regalia. Esse comentário ecoa ao longo dos tempos e serve como uma reflexão contemporânea.

A relação de Pedro com Rosane é outro gancho para essas narrativas paralelas. Aqui as diferenças sociais são bem explícitas. Pedro é classe média, Rosane é classe baixa. A mãe dele detesta seu relacionamento enquanto o pai dela o adora. O rapaz acaba precisando ajudar na casa dela devido à baixa renda familiar, sendo seu pai um operário aposentado devido a alergia a cimento.

O núcleo familiar dela é um dos pontos centrais da história, servindo para ilustrar com maiores detalhes as diferenças sociais. A realidade dela é mais profunda ainda do que a de Pedro. O bairro do Tirol onde ela vive é minuciosamente descrito, juntamente à jornada de sua família até ir residir no local. As muitas realidades históricas e sociais se juntam para tornar o cotidiano de Rosane mais explicitado ao leitor.

Rubens Figueiredo explora em Passageiro do Fim do Dia várias temáticas atuais. É o caos do trânsito, os conflitos que surgem em uma cidade marcada pelas muitas diferenças sociais, as expectativas de pessoas esmagadas por um mundo excludente. Isso é exposto em uma narrativa não linear, em que a memória e o pensamento servem de constantemente de gancho para narrativas paralelas. E com isso ele forma um dos maiores livros brasileiros da atualidade, ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura como melhor livro de 2011.

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Postado por Guilherme Carvalhal
22/6/2015 às 14h25

 
Eterna gratidão a Pixinguinha



O panorama da música brasileira hoje é bastante vasto. O país conseguiu produzir grandes nomes musicais dos mais variados estilos, constituindo um caldeirão cultural de muitos ingredientes. São nomes como Noel Rosa e Cartola no samba, Tom Jobim na bossa nova, Rita Lee e Herbet Vianna no rock, Luís Gonzaga no baião e uma variedade de nomes que formam uma extensa lista. Os aspectos de hibridismo cultural deram origens a misturas variadas, como a tropicália, o samba rock e o mangue beat, e até o heavy metal pesado do Sepultura incorporou a musicalidade genuinamente nacional em seu álbum Roots.

Um dos principais nomes dentro da musicalidade brasileira e que foi significativo para levar a música do país muitos passos adiantes foi o de Pixinguinha. Ele conseguiu absorver todos os estilos musicais em voga na primeira metade do século XX e deixou um legado de suma importância para a formação de uma identidade cultural para o Brasil.

Compreender seu impacto passa por entender a efervescência do país naqueles tempos. As primeiras décadas do século XX foram de muitos choques pela tentativa de identificar, criar e reproduzir uma identidade artística e cultural para o país. Nesse aspecto, a Semana de Arte Moderna foi singular ao sacudir as bases daquilo que se entende enquanto arte no país. Seu impacto se deu nas artes plásticas e na literatura, atingindo também a música, tendo como seu principal expoente Heitor Villa-Lobos.

A Semana de Artes Modernas tentou trazer o popular para dentro do erudito (como no quadro Abapuru, de Tarsila do Amaral), sendo porta de entrada para tapar o abismo entre os dois mundos. A literatura se valeu cada vez mais dos aspectos populares e do linguajar popular, sendo que na música cada vez mais se absorveu as musicalidade do dia a dia.

Pixinguinha participou de um estilo que não esteve diretamente ligado ao movimento modernista (apesar da amizade com Mário de Andrade e Villa-Lobos), realizando o movimento contrário, de levar o estilo erudito para o popular, sem com isso tornar a música elitista ou distante da população (o sucesso de seu trabalho é prova cabal disso). Porém, nessa época de formação - ou invenção - de uma identidade do país, suas composições participaram da consolidação dos pilares sobre a qual essa se ergueria.

O músico trabalhou durante sua vida com vários estilos musicais e suas composições perpassam variadas influências. Modinhas, samba, choro, maxixe, polca, suas composições passavam por todas elas, mas sempre com seu toque a mais, cheio de contratempos e criações musicais muito à frente de seu tempo, destacando-o como um dos maiores gênios artísticos do país. Músicas imortalizadas no Brasil como Carinhoso, Um a Zero e Descendo a Serra serviram de inspiração para gerações futuras da música brasileira até a consagração da mesma fora do país (como na ida de Carmen Miranda para os Estados Unidos).

Um dos principais aspectos de suas composições são os contratempos e a dualidade sonora utilizando a flauta e o sax tenor, seus dois instrumentos principais. Suas composições são de uma riqueza rara, primando não apenas pela melodia consagrada dos estilos pelos quais passou, como também pela riqueza técnica e harmônica em sua produção. O ouvinte de sua obra absorve desde a beleza musical propriamente dita até um imergir mais profundo em uma estrutura musical muito bem trabalhada em cima de tradições legitimamente nacionais. Pixinguinha ajudou na consolidação musical do país e deu um pontapé para sua multiplicidade de variedades.

A importância de Pixinguinha para o Brasil é inestimável. Ele mostrou a inexistência de barreiras entre erudito e popular e produziu uma das maiores obras musicais individuais do país. A cultura brasileira e nós todos devemos a ele eterna gratidão.

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Postado por Guilherme Carvalhal
17/6/2015 às 15h22

 
Violência sexual no cinema

A série Game of Thrones recentemente foi alvo de uma série de críticas devido às cenas de violência sexual. As críticas pontuam o problema moral de apresentar em um veículo tão disseminado entre as pessoas o estupro justificado como arte, seja por questões estéticas, seja por reproduzir um comportamento que é comum em tempos de guerra, principalmente quando se fala em uma sociedade em que os valores são diferentes dos atuais.
Mostrar mulheres violadas não é uma novidade no cinema. Das cenas assim, duas são bastantes emblemáticas, uma no filme Sob o Domínio do Medo e outra em Irreversível. São dois filmes polêmicos produzidos por cineastas que costumam abordar temas pouco palatáveis em seus trabalho e que foram alvos de muitas críticas.

Sob o Domínio do Medo é uma obra de Sam Peckinpah. Esse diretor tem como característica uma espécie de aversão ao ser humano, mostrando-o sempre em seu pior lado, no qual a violência é sempre um aspecto principal. A trama do filme retrata o casal David (Dustin Hoffman) e Amy (Susan George), que está se mudando para a cidade natal dela. Chegando ao local, o casal se depara com os amigos de Amy, incluindo um ex-namorado, e começa a ser vítima de atos de violência que vão crescendo até a total agressão. E nesse meio Amy acaba sendo violentada pelos moradores da cidade.

Essa cena provoca muita revolta por aparentemente Amy gostar do ataque, expressando cara de prazer em determinados momentos. David é mostrado sempre como um homem fraco e dúbio, nunca se defendendo das pequenas violências que recebe. Já os moradores locais representam esteriótipos mais brutos. Então Amy encontraria prazer no contraponto ao marido que possui. A maneira como o casal é mostrado tem por intuito gerar tal impressão no espectador.

Sob o Domínio do Medo não é um filme especificamente sobre a violência sexual e nem sobre Amy. O personagem principal é David, que de pessoa frágil vai se insuflando até confrontar todos os moradores, em uma longa cena de violência ao final. Amy então é exposta como histérica e incapaz de suportar pressão emocional, o que aumenta ainda mais o coro de críticas contra o filme. Afinal de contas, para demonstrar a escalada de David de pessoa comum até uma espécie de herói foi realmente preciso mostrar sua esposa sendo violentada e reduzida ao mais patético estágio?

Em Irreversível, obra de Gaspar Noé, a premissa tem sua semelhanças. A obra, contada de traz para frente e com uma fotografia espetacular, mostra o triângulo amoroso entre Alex (Monica Bellucci), Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel). Os dois disputam o amor de Alex, mostrado em pequenas cenas do cotidiano, com predileção dela por Marcus. O ápice do filme é a longa cena de estupro (cerca de 15 minutos) com direito a muito espancamento e xingamentos em um beco escuro. Os dois descobrem o que houve e partem em uma busca no submundo atrás do bandido.

Gaspar Noé é um diretor sem medos e sem papas. Ele mostra violência com realismo e sem maiores preocupações, tanto é que Irreversível foi vaiado no Festival de Cannes. Novamente a mulher violada faz parte da escalada de violência por parte do homem, esse representado como seu protetor. A diferença é que enquanto em Sob o Domínio do Medo o estupro é um detalhe, em Irreversível ele é parte indispensável da obra, sendo o ponto de ruptura dos outros dois personagens com sua tranquilidade e vida pacata. Tanto é que Pierre, mostrado como mais contido e tímido, destrói a cabeça de um cara com um extintor de incêndio (e o diretor mostra a cena com detalhes).

Além esses dois filmes mais fortes e polêmicos, em muitos outros se pode notar o estupro como parte da história. Em Ensaio Sobre a Cegueira há a cena em que as mulheres precisam se deitar com homens em troca de comida. A cena faz parte de um todo maior, que é a barbárie em que o mundo entra após a epidemia de cegueira surgir. Os valores sociais se perdem e assim a violência sexual acaba acontecendo. Nesse caso o estupro não tende a ser encarado como mera exposição ou evento simplório, mas como parte integrante da história.

Um outro filme que também aborda a questão da violência sexual é o filme Duas Mulheres, de Vittorio De Sica, adaptado do livro homônimo de Alberto Moravia. Essa obra retrata mãe e filha fugindo dos bombardeios na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Um dos pontos nessa fuga é quando são encontradas por soldados marroquinos e estupradas por eles. O filme não mostra cenas, mas deixa bem claro o que aconteceu.

Nesse caso, existem outras abordagens além da violência sexual em si. Existe um clima de guerra reinante, no qual as ordens sociais vigentes não valem mais, o que abre espaço para que aconteçam agressões de todo tipo. Um ponto crucial é o fato de uma criança ser violentada. Outro, é a especificação de serem soldados marroquinos os autores da violência. Dificilmente alguém encontra referências em algum filme de soldados desse país participando da Segunda Guerra Mundial, e quando ela ocorre é justamente em uma cena de estupro coletivo. Isso pode sugerir algum tipo de preconceito colonial, mostrando no marroquino a figura do bárbaro (se é que isso seria válido diante das tragédias do nazismo).

A lista de outros filmes é enorme. Para lembrar alguns pode-se citar Meninos não choram, Preciosa, e até Laranja Mecânica, no qual o estupro faz parte da personalidade extremamente violenta do personagem principal.

Olhando na outra ponta, é preciso pensar também nos filmes nos quais homens são vítimas de violência sexual. Alguns que vem à memória são A Outra História Americana, Um Sonho de Liberdade e Toda Nudez Será Castigada. Em duas séries de TV aparecem situações desse tipo de violência, Oz e Sons of Anarchy. Em todos esses casos a violência sexual acontece dentro de prisões. Ou seja, as regras são outras e as relações sexuais não seguem a mesma orientação heterossexual do ambiente externo. Além disso há o fator punição, como se passar por esse tipo de agressão fosse parte da tragédia pessoal vivida por cada um dos personagens.

Em Má Educação, Pedro Almodóvar aborda a história de um garoto violentado por um padre dentro de uma escola religiosa. O filme pega o gancho das muitas denúncias de pedofilia contra parte do clero católico e acaba sendo uma certa denúncia social, mesmo com as cores que o diretor espanhol dá para seus filmes. Em semelhança com os filmes já citados, existe o fator da instituição repressora (nesse caso, a escola) que deixa a vítima cerceada de ferramentas de defesa e não há alternativa exceto submeter-se.

Amargo Pesadelo aborda o homem sendo violentado sexualmente de maneira diversa, apesar de manter semelhanças com os demais filmes. Sua trama mostra um grupo de amigos que viaja para a zona rural dos Estados Unidos para praticar canoagem. Em meio aos conflitos com os moradores locais, um deles é violentado. Aqui, as vítimas se encontram fora de seu reduto (como na prisão e na escola) e o ataque tem caráter de alteridade (como em Duas Mulheres). É o outro incivilizado quem comete a agressão. O adendo é o caráter punitivo contra o estuprador, que é morto por um dos viajantes, o que não ocorreria tão facilmente no ambiente repressor.

É emblemático também o filme Saló ou Os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini. Esse filme é bizarro e extremamente polêmico, chegando a ser proibido em alguns lugares na época de seu lançamento. Aqui a violência sexual é plenamente descontrolada, atingindo a todo sem distinção de sexo. A história mostra uma Itália controlada pelos nazista onde quatro senhores forçam 16 jovens de ambos os sexos a passar por uma série de práticas sexuais pouco apropriadas a serem vistas por quem tem estômago fraco.

Pasolini é um dos cineastas mais livres que já existiram, não tendo nenhum receio em jogar o lado negativo do ser humano da maneira mais crua. Esse filme não é uma mera demonstração de violência, mas um refletir sobre a maldade sem nenhum tipo de pudor. É escrachado e forte, mas seu choque visa algum tipo de reflexão.

Violência sempre fez parte das artes. O cânone da literatura ocidental, a Ilíada, é uma história de violência. O cinema, com seu impacto visual, leva a abordagem a um outro patamar. Ele envolve as pessoas de uma forma diferente e justamente por isso se questiona qual impacto causado ao mostrar cenas assim.

A violência sexual é um crime grave e é válido pensar seu uso em caráter estético. Da mesma maneira, arte é o espaço para a livre criação, então não pode haver barreiras ao que se mostra. É um debate importante e que aos poucos precisa ser mais e mais amadurecido, por um lado para que a violência sexual não seja encarada como algo banal e por outro para evitar qualquer medida de censura contra a arte.

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Postado por Guilherme Carvalhal
13/6/2015 às 17h09

 
A mudez do interior

As múltiplas faces culturais do Brasil nunca foram novidade nenhuma. Este é um país de dimensões continentais e sua mistura de povos e etnias deu origem a um caldeirão efervescente com os mais variados ingredientes, criando uma amplitude de diferentes expressões. Entretanto, o fato de haver uma enorme variedade traz à tona um questionamento, que é a valorização e a capacidade do país em incentivar a produção cultural e ao mesmo tempo disseminar a mesma entre a população.

Analisando o modelo cultural do Brasil, pode-se perceber que existe um trabalho desse tipo sendo realizado, seja através de incentivos do Estado, seja através da própria sociedade e seus canais de comunicação. O mangue beat atingiu todos os cantos do país, principalmente por conta da figura de Chico Science, o festival de Parintins foi transmitido pela TV, a bossa nova chegou a ser gravada por Frank Sinatra, Glauber Rocha e Anselmo Duarte foram aclamados em outros países. O Brasil conseguiu concluir um processo de desenvolvimento artístico e cultural de modo geral, tendo uma identidade bem definida e um histórico já considerável de produção e registros, além de conseguir extrapolar suas fronteiras e conseguir reconhecimento internacional.

Esse fortalecimento se dá também pela criação de uma maior capacidade receptiva pela própria sociedade. No caso específico da literatura, o século XX assistiu ao surgimento de movimentos modernistas e de nomes já eternizados, mas também houve um processo de alfabetização formando novos leitores e o de criação de novas editoras. O momento atual com o ápice da internet possibilita o contato com novas músicas, processo que seria mais vagaroso em épocas anteriores. E o cinema nacional, após sua revitalização nos últimos anos, tem obtido um sucesso bastante considerável, tanto com comédias quanto com obras com maior impacto social, como Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Tudo parece muito bem com a produção nacional de cultura, mas ainda existe um enorme gargalo a ser ultrapassado. O grande problema nessa relação ainda se dá por um seguinte ponto, que são as desigualdades regionais ainda reinantes, não havendo um equilíbrio na capacidade de muitos agentes culturais existentes em darem a sua cara e se fazerem percebidos.

Quando fazemos um retrato da cultura do país, levando ao nível daquilo que temos enquanto uma absorção nacional das produções, podemos ver que a maior parte do que é realizado vem de grandes centros ou então os grandes centros acabam polarizando de alguma forma a cultura interiorana. Aquilo que entendemos como cultura nacional vem desses pontos espalhados pelo país inteiro.

O samba nasceu na cidade do Rio de Janeiro, assim como a eclosão o funk. Em São Paulo capital se deu nos anos 1990 a ascensão do rap, basicamente oriundo da periferia. As principais bandas de rock do país se formaram pelas capitais, como as duas já citadas anteriormente, mais Porto Alegre, Salvador, Brasília e Belo Horizonte.

Ao falarmos do maracatu, temos um caso de uma manifestação originada do período canavieiro por todo estado de Pernambuco. Mas o destaque nacional para o ritmo se deu pelas formas com que ele se apresenta em cidades como Olinda e Recife. O mesmo caso se dá no baião, que foi uma manifestação bastante regionalizada que precisou da figura de Luís Gonzaga para se expandir.

No caso da literatura, existe um fenômeno parecido. Os escritores originados de cidades de interior (Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, por exemplo), acabaram se mudando e tendo sua carreira situada em grandes centros. Roberto Carlos nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, interior do Espírito Santo, e sua obra não faz referências às suas raízes.

Este fenômeno não é nem um pouco absurdo, pois por fatores econômicos os grandes centros acabam aglutinando os maiores fatores produtivos, e entre eles citamos museus, universidades, gravadoras, editoras, jornais, emissoras de rádio e TV, juntamente a variadas entidades, como a Academia Brasileira de Letras, Biblioteca Nacional, etc. Então nesses centros que acontecem os principais fomentos culturais e é natural que ocorra assim.

O que se questiona é o processo de exclusão reinante dentro desse modelo. Como os grandes centros ditam os modelos estéticos existentes na sociedade, a cultura interiorana acaba se restringindo ao seu local de origem, ou então necessariamente precisará se enquadrar nos padrões vigentes.

Como seria possível ao brasileiro ter contato com o maneiro pau do Ceará (que na região sudeste se chama mineiro pau) sendo que essa é uma manifestação restrita? Como poetas e demais escritores que retratam realidades locais podem vir a mostrar suas regionalidades de maneira global? Como os trabalhos plásticos e fotográficos podem montar um painel maior do que é o Brasil? São perguntas pertinentes quando a estrutura de divulgação cultural é centralizadora e excludente.

É preciso saber se esta produção consegue chegar a nível nacional ou receber outras formas de incentivo para poder interagir com pessoas distantes e assim valorizar também o patrimônio no interior. Ou então devemos concluir que existe uma segregação cultural muito bem definida, e que aqueles fora da órbita dos grandes centros continuamente ficarão na mansarda.

A ideia que fica então é a existência de um grande abismo cultural no país. Existe uma aglutinação de produção em grandes centros, com uma periferia restringida a si mesma e sem poder dar a sua cara. Ao mesmo tempo, as políticas culturais não favorecem a criação e divulgação destes mesmos projetos, estando extremamente arcaicas tendo em vista a dinâmica do mundo atual. Levando esta ideia país afora, fica a preocupação da existência de inúmeras possibilidades que talvez estejam morrendo ou ficando restrita em seus redutos. O resultado disso é um país pobre culturalmente e incapaz de reconhecer sua própria identidade.

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Postado por Guilherme Carvalhal
10/6/2015 às 15h53

 
Frazen e seus retratos da realidade



O legado de boa parte da literatura mundial foi deixar à posteridade o registro do funcionamento de suas sociedades através da perspectiva do autor, senhor ou senhora de seu tempo. Grandes nome como Balzac e Jane Austen são referenciais, deixando não apenas uma obra artística, mas uma maneira de se enxergar o passado pelo viés da literatura.

Duas obras de Jonathan Franzen, As Correções e Liberdade, são exemplos contemporâneos de registros sociais que ao longo do tempo servirão para entender o funcionamento do Estados Unidos na virada entre o século XX e XXI. E como a cultura desse país, principalmente seus gostos em uma sociedade de consumo, serve de espelho para um entendimento geral do mundo ocidental nesse período, Frazen acaba retratando a cultura geral em muitos aspectos.

Os dois livros são calhamaços extremamente realistas, com doses altas de drama familiar e um fino senso irônico. O autor nessas obras apresenta uma ficção que serve de suporte para uma densa descrição social de seu país. O peso do realismo é imenso, com descrições excessivamente detalhadas de muitas minúcias.

As características comuns às duas obras são o adentrar em uma família e o expor de suas desventuras como eixo da história. Em As Correções, a história gira em torno da família Lambert. O patriarca encarna um velho turrão e ex-funcionário de uma companhia ferroviária que coloca um senso moral próprio acima do próprio bom senso. Ele e sua esposa Enid tem três filhos, Gary, Chip e Denise. Gary é o que se enquadra no american way of life, bem sucedido, casado, pai. Denise vive em meio a instabilidades em sua vida e Chip é sonhador, permeado pela ideia de conseguir que um roteiro escrito por ele seja transformado em filme.

Em Liberdade, o foco está na família Berglund, através do casal Walter e Patty, junto a seus dois filhos Joey e Jessica. Junta-se ao grupo a figura de Richard Katz, amigo do casal de juventude que acaba se tornando personagem central tanto pela sua personalidade singular quanto pelo envolvimento junto ao casal desde quando universitários.

Walter é um advogado cheio de sonhos envolvendo meio ambiente. Sua esposa é uma ex-jogadora de basquete, vítima de estupro durante a juventude e compensando suas frustrações pessoais na bebida. Katz é um ex-músico de punk que migrou para o country e consegue certo sucesso, sendo próximo do casal, e acaba se envolvendo com Patty, colocando abaixo as estruturas familiares.

As duas obras são bastante parecidas, mas em Liberdade as nuances individuais vem mais à tona do que em As Correções. A história de Walter, Patyy e Katz é construída desde a juventude, mostrando o desenho social e cultura dos Estados unidos ao longo do passar dos anos, mostrando a formação de todo o envolvimento dos três que culmina na fase adulta. Além disso, a literatura enquanto um retrato social é mais abrangente em Liberdade.

Isso não coloca demérito nenhum em As Correções, que facilmente algum outro leitor pode considerar superior a Liberdade. Frazen tem um estilo singular e conseguiu mantê-lo nas duas obras. Apenas pequenas sutilezas levam uma obra a ser melhor que a outra, sendo mais fácil listar suas semelhanças do que as suas diferenças.

A presença dos indivíduos diante da estrutura social de seu país é um ponto convergente. Todos vivem envolvidos com trabalho e com as questões financeiras do dia a dia, como os estudos, a construção da carreira ou a aposentadoria (tente lembrar-se dos livros em que essas agruras cotidianas sejam tão relevantes dentro da trama). O filho rebelde que viaja para outro país é algo presente nas duas obras: em As Correções, Chip viaja para a Lituânia e em Liberdade Joey viaja à Argentina em busca de peças de automóvel da época da Guerra Fria. Em ambos os casos, a busca pela estabilidade financeira sustenta as aventuras, diferente de um On The Road, em que a viagem tem mais valor simbólico do que pragmático.

A figura feminina também é destacada nas obras. Em Liberdade, Patty consegue abarcar muitos pontos da existência feminina, como estudos, trabalho, construção familiar, sonhos juvenis, sem contar todo o mergulhar de pensamentos e sentimentos que tornam o trabalho de Frazen singular. Igual modelo acontece em As Correções, como as relações de trabalho de Denise e as constantes perguntas sobre com quem ela estava saindo.

O que tende a diferenciar a narrativa de Frazen do puro descrever de cotidianos é a maneira como ele consegue se aprofundar em cada um de seus personagens. O autor insere singularidade extrema a cada um de seus personagens principais, enchendo-os dos pequenos detalhes que dão individualidade aos seres humanos. É uma dor nas costas, um filho pedindo churrasco, um problema no emprego, uma tatuagem no braço o que torna cada um único, mesmo sem maiores feitos, sendo simplesmente normais. E é esse um dos principais pontos da literatura atual, a de personagens comuns tendo seu cotidiano alçado ao nível de feitos dignos dos livros.

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Postado por Guilherme Carvalhal
7/6/2015 às 19h07

 
Comentaristas de livros na internet

Os amplo espaço para emissão de opiniões pela internet dá a possibilidade de nossas interações do usuários com todo tipo de produto. No que diz respeito a literatura, é interessante notar como a possibilidade de deixar comentários e dar notas a livros permite uma análise do posicionamento dos leitores com as obras.

Se pensarmos na maioria dos produtos, os comentários tendem a obedecer critérios objetivos. Suponhamos uma panela elétrica. Se ela promete fazer a comida em 5 minutos e ela cumpre o prometido, provavelmente o usuário dará cinco estrelas e um comentário elogioso. Porém, se ao comprar não vier o fio ou se o mesmo não estiver adequado à voltagem especificada, provavelmente o usuário dará menos estrelas e comentará negativamente.

No caso das artes, e mais especificamente a literatura, o funcionamento é diferente. As artes estão no universo do subjetivo e a experiência de cada indivíduo com um livro sempre será única. A história recente ajuda a entender isso: o movimento modernista rompeu com o academicismo reinante e, consequentemente, com o objetivismo artístico. Daí em diante a apreciação artística não obedeceu mais a regras prontas e passou a ser ditada pela subjetividade.

Um dos comentários mais típicos em sites de vendas de livros é sobre o livro ser de leitura fácil. E normalmente são comentários positivos, com notas mais altas para a obra. O que esse posicionamento dá a entender é que o leitor encarou o livro como algo de entretenimento, que precise ser prazeroso e não trabalhoso. Para um outro tipo de leitor, que prefira uma obra mais densa e exigente, a leitura fácil poderia render uma avaliação negativa. O mesmo se enquadra nos comentários afirmando que o livro tem leitura rápida, dando a entender que a obra possui estrutura linear (começo, meio e fim nessa ordem) e não dá muitas brechas para a imaginação do leitor, mostrando novamente a divisão de bom para uns, ruim para outros.

No caso das críticas negativas, o leque de comentários é mais vasto (o que por si já gera um questionamento fantástico, por ser mais fácil desagradar do que agradar). Entre alguns comentários estão o fato do livro não prender o leitor, de não instigar, da história não ter pé nem cabeça, final que não faz jus ao restante da obra, etc. Novamente, uma mostra da expectativa dos leitores: o livro precisa de coerência, de um bom final, ou seja, de todas as características de uma obra linear.

A maioria dos comentários referidos aqui foram constatados em obras de autores desconhecidos, já que o modelo da autopublicação permite aos mais variados escritores publicarem seu trabalho. A própria Amazon tem esse modelo para venda de ebooks. Porém, ao mudarmos o foco para autores consagrados, o estilo dos comentários tende a mudar.

Nesse caso específico, os comentários costumam sempre avaliar positivamente as obras. Possivelmente duas coisas movem isso: o fato de realmente serem livros de altíssima qualidade e também o receio em postar publicamente uma opinião negativa ao clássico. É pouco provável que alguém venha seriamente a público dizer que Shakespeare ou Machado de Assis sejam ruins, precisando ter muito peito para sustentar uma opinião assim (e é o tipo de opinião que tende a explicar mais sobre o comentarista do que sobre o comentado).

Há um grupo de comentários objetivos que diz respeito a questões técnicas do livro. Normalmente negativos, eles se referem aos erros de português, falhas na tradução, má diagramação, entre outros aspectos, algo que pode ser recorrente em um mercado que conta com vários autores que publicam por conta própria, sem editores, diagramadores ou editores. Ver uma nota baixa a Moby Dick é estranho, mas costuma ser uma opinião sobre má editoração e não sobre insuficiência técnica da escrita.

Ver comentários sobre livros pela internet nos ajuda a compreender a relação dos leitores com livros. A leitura como entretenimento é um dos principais fatores, o que não é novidade, bastando ver as listas de best sellers. Ao mesmo tempo, indica também que chegar a uma linearidade de perfil é uma tarefa impossível, havendo gostos e posicionamentos diversos, o que também se nota pela pulverização de estilos que se encontra pelas livrarias físicas e online.

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Postado por Guilherme Carvalhal
3/6/2015 às 13h40

 
Tijolos, Polônia e Comunismo



A construção de mitos é uma das principais formas de controle ideológico político, principalmente em regimes autoritários e ditatoriais. Essa ferramenta intensificou-se durante o século XX devido ao desenvolvimento dos meios de comunicação em massa. A Alemanha nazista contou com o talento de Leni Riefenstahl, a cineasta que conseguiu dar exuberância visual ao regime de Hitler. No Brasil a seleção de 1970 serviu como fomentador de um eufemismo simpático ao governo militar. Sobra até para democracias, como as denúncias de controle ideológico subliminar expostas na pérola cinematográfica alternativa Zeitgeist.

O talento cinematográfico do diretor polonês Andrzej Wajda é voltado para as críticas ao regime comunista em seu país. E em sua obra O Homem de Mármore ele mostra justamente a formação de um mito popular, de bom uso para a sustentação do modelo político vigente.

O enredo de filme mostra Agnieszka, uma estudante de cinema que precisa realizar um trabalho em seu curso. Ela se interessa pela história de Mateusz Birkut, um herói nacional esquecido, cuja estátua feita em mármore (que dá nome ao filme) está guardada em um porão de velharias públicas.

Aos poucos Agnieszka vai juntando os pedaços da vida de Birkut. Ele era um pedreiro na década de 1950 de grande habilidade e seus talentos serviram ao regime comunista. Ele acreditava de fato no governo e que seu trabalho servia para oferecer casas à população, em uma dedicação infinita pelas suas atividades profissionais. Em comparação, ele se assemelha ao cavalo do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, aquele que trabalha imensamente crente que poderia oferecer muito aos demais, quando na verdade era uma peça no tabuleiro do jogo dos governantes.

O ápice da conversão de Birkut em mito foi quando ele bateu o recorde da construção civil, levantando mais de 30 mil tijolos em uma única jornada de trabalho. Esse feito foi acompanhado pelo cineasta Jerzy Burski, que produz filmes oficiais do estado. O mesmo tratou de caprichar no trabalho, mostrando Birkut bem barbeado e sempre exigindo dele uma feição sorridente e vitoriosa. Daí em diante ele se torna um ícone nacional e exemplo a ser seguido.

O brilho da narrativa de Andrzej Wajda nesse filme é mostrá-lo de maneira fragmentada, não contando a trajetória de Birkut diretamente, mas pouco a pouco, através das pesquisas de Agnieszka. Sua busca por informação conta com diferentes fontes, desde a estátua no porão, os filmes oficiais já realizados e os testemunhos de pessoas que com ele conviveram. As idas no tempo (Agnieszka está em 1976 pesquisando uma história do começo da década de 1950) são bem delimitadas, seja na fotografia em preto e branco dos documentários antigos, seja no próprio visual, mostrando uma Polônia mais atrasada. A estátua de Birkut esquecida a um canto de velharias e o momento em que seu estandarte de herói é removido de local público traçam uma singela observação acerca do ser humano, do quanto seu valor se move pela utilidade e de como ele pode ser substituído e até mesmo ter seu passado esquecido e desvalorizado.

Esse filme tem continuidade em O Homem de Ferro (1981), no qual uma repórter chamada Winkel vai cobrir um princípio de greve no porto, encontrando-se com Agnieszka presa e com o filho de Birkut, Tomczyk (pai e filho interpretados pelo mesmo ator), onde se reconstrói o destino de Birkut, esse como um fantasma ao redor do rapaz O foco do filme também é o regime comunista do país, dessa vez apresentado através do contraste de uma greve. Fica a contradição da Polônia se colocar como um país regulado pelos trabalhadores e esses mesmos trabalhadores iniciarem um amplo protesto para derrubar o governo.

Se em O Homem de Mármore o foco de Wajda estava na construção do mito e no poderio do estado de esmagar o indivíduo, em O Homem de Ferro a dinâmica está na própria organização sindical contra o governo, uma alusão aos fatos históricos da Polônia, onde o Solidariedade teve papel fundamental na queda do comunismo. O Homem de Ferro recebeu a Palma de Ouro de 1981.

O cinema de Wajda é um cinema politizado e histórico, e isso com talento artístico de sobra para colocá-lo no rol dos maiores cineastas da história. Ele joga muita luz no entendimento da Guerra Fria, um tema que ainda é envolto em muitas incertezas e crenças sem embasamento.

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Postado por Guilherme Carvalhal
31/5/2015 às 06h59

 
O novo mundo após a Guerra Fria



Conflitos entre Israel e Palestina. Ataques do Boko Haram na Nigéria e do Anti-Balaka na República Centro-Africana. Choque entre ucranianos nacionalistas e pró-russos. Fim do embargo de décadas sobre Cuba. Morte dentro do Charlie Hebdo. Revoltas populares no Iêmen, Egito e Síria, sob o título de Primavera Árabe.

Essas notícias recentes mostram como o mundo permanece em movimento. O fim da Guerra Fria mudou o panorama das relações, levando o mundo a ver pela TV (com destaque então à CNN) à Guerra do Golfo, à Guerra nos Balcãs, à independência de Timor Leste, entre muitos outros fatos. É justamente tentando entender esse mundo que se ergueu após a queda do muro de Berlim que Samuel Huntington publicou O Choque de Civilizações em 1996, uma busca pela compreensão das novas relações que se construíam.

A argumentação do autor refere-se que nesse mundo pós-Guerra Fria as relações que se baseavam na dicotomia entre capitalismo e socialismo deram espaço a um novo modelo, no qual as relações culturais (questão de civilização) contam mais do que as convenções políticas. E esse novo modelo tem dado espaço para novas alianças e também para a formação de novos conflitos.

Durante o período da Guerra Fria, o mundo percebeu relações um tanto quanto inusitadas. Cuba aliou-se à União Soviética, os Estados Unidos se enfiaram em uma guerra no Vietnã, guerra esse de interesses pouco pragmáticos e de caráter idealista, Che Guevara quis se meter com guerrilha no Congo. No Brasil, o PC do B manteve relações com China e Albânia, locais de formação cultural que destoam bastante da nossa.

Com a queda do Muro de Berlim, a formação de grupos de interesse deixou de lado esse aspecto ideológico e assumiu um outro, o de proximidades culturais. Dessa forma, começaram a se formar blocos regionais (MercoSul e Nafta, por exemplo), da mesma maneira como conflitos locais se tornaram mais acirrados. Dos conflitos nos balcãs à Primavera Árabe, o que se vê são choques devido à questão cultural mundo afora.

O autor apresenta uma profunda análise para sustentar seus argumentos. Ele divide o mundo em civilizações, como a ocidental, a islâmica, a hindu, e diversas outras, que geram as relações atuais. Mesmo sendo um consultor da presidência dos Estados Unidos, cujas posições podem colocar em cheque seus estudos, o livro é bastante isento, mostrando sem idealismos uma nova realidade ainda difícil de se absorver.

A leitura de O Choque de Civilizações não é interessante apenas para se entender de geopolítica. O livro também é uma imensa aula das diversas disciplinas humanas (sociologia, antropologia, história, economia) e sua leitura é bastante enriquecedora.

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Postado por Guilherme Carvalhal
26/5/2015 às 17h09

 
Satanique Samba Trio

O Satanique Samba Trio é uma das sonoridades de mais difícil compreensão atualmente no Brasil. Seus discos parecem jazz, mas são cheios de samba. Parecem samba, mas são cheios de jazz. E são tão cheios de elementos distintos que não dá para dizer nem que sejam samba, nem que sejam jazz. As contradições começam pelo nome. O suposto trio é composto por seis integrantes. O samba também nem é tão samba assim. E, à parte o nome, nada nas músicas tem referência a religião, à exceção dos títulos, com nomes memoráveis do nível Auto-Retrato Em Tripas De Cachorro, Lambada Post Mortem e Pipocalipse.

A maneira mais simples de definir seu estilo é sua tentativa muito bem sucedida de ir além de tudo que normalmente se ouve no Brasil. Enquanto a música brasileira em sua imensa maioria repete a si mesma em seu mais variados estilos (rock, pagode, sertanejo, MPB, etc), o Satanique Samba Trio segue na contramão, com níveis de inovação e experimentação que a mesmice enraizada não consegue conceber.

Ouvir seus discos é uma experiência diferenciada. O álbum Sangrou, de 2007, por exemplo. Há pegadas que remetem claramente ao jazz fusion, como a faixa Kit de Amputação Asasulista. Porém, há bandolins, pandeiro, percussões de samba, um pouco de gafieira. Ou então em Estilo Ricky Ramirez, com um clima um pouco minimalista (tendo em vista a orquestração de suas faixas). Tudo na banda foge do lugar comum, podendo até afugentar ouvintes mal acostumados.

A estreia do grupo nos estúdios foi em 2004, com o Misantropicalia. O nome do disco já diz uma de suas intenções, que é debochar das convenções musicais existentes no Brasil. Nesse disco, o samba de gafieira e o samba rock são algumas das influências, além de uns momentos um quanto tenebrosos para afugentar incautos. Apesar da grande qualidade musical, ainda não é o ponto alto do grupo.

Em Sangrou, de 2007, já se encontra uma qualidade melhor. Há mais influências musicais e as transgressões musicais das quais a banda se vale soam mais coerentes, sendo menos provocativo do que o primeiro pretendeu e mais musical. Esse disco atinge extremos sonoros, sendo tantas as quebras de tempo e a pegada atonal que chega ao ponto da total confusão.

Já em Bad Trip Simulator #2 (2010; a contagem da série é fora de ordem) há maiores influências, como da música nordestina, e a exasperação através do excesso de arritmia é menor. Ou seja, é um disco mais palatável e menos exagerado, sendo o mais recomendável para novos ouvintes. É um disco que preza pela beleza (dentro do que se pode buscar de beleza na sonoridade da banda), sendo bem equilibrado entre os diversos estilos e menos agressivo. Seguem-se a esses trabalhos da série mais dois da série Bad Trip Simulator que mantém o mesmo nível.

Ouvir o Satanique Samba Trio é receber um alento por algo diferente no mais do mesmo que a música brasileira se tornou. O som busca inspirações em modelos musicais complexos e que fogem do que se tem por convencional, com doses de zombaria e genialidade.

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Postado por Guilherme Carvalhal
24/5/2015 às 21h32

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