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Sábado, 9/5/2015
Blog de Cassionei Niches Petry
Cassionei Niches Petry
 
Armado e perigoso

Certa vez fui, esperar minha esposa na saída do seu trabalho. Eram em torno de 11 horas da noite. Não havia um horário certo para ela sair, dependia do fechamento do caixa. Esperava sentado em uma escadaria à frente do estabelecimento. Trazia comigo alguns livros, pois acabara de vir da biblioteca da universidade. Notei que ela demorava demais, mas, como via pela janela que os funcionários ainda estavam trabalhando, achei que ela estava lá dentro ainda. Aproveitei para ler um pouco.

Nesse meio tempo, chegaram dois caminhões. Os motoristas e os ajudantes aproveitariam o estacionamento vazio para passarem mercadorias de um caminhão para o outro. Por algum motivo, se incomodaram com minha presença. Ficaram me observando por algum tempo. Não demorou muito e chegou um carro da polícia. Os brigadianos (como chamamos aqui no sul os policiais militares) falaram com eles e depois se dirigiram a mim. Perguntaram-me o que eu estava fazendo ali naquela hora. Disse que esperava minha esposa. Para confirmar, fomos juntos até a porta de saída dos funcionários e o vigia, que me conhecia, me avisou que ela já tinha saído, aproveitando a carona de uma colega.

Liberado da situação constrangedora, fui para casa, imaginando o que havia se passado na mente de quem chamou a polícia. Vendo aquela pessoa ali parada, apenas lendo, pensaram que era um possível ladrão? Imaginaram que os grossos livros escondiam uma arma? Ou pensaram que os próprios livros seriam armas? Imagine, caro leitor, aqueles grossos volumes atingindo a cabeça de alguém! No outro dia, o jornal Gazeta do Sul traria a seguinte manchete: "Armado e perigoso: bandido rende funcionários de um supermercado com livros em punho".

Não deixa de ser uma metáfora interessante. Os livros de certa forma são armas. A munição são as palavras. Os alvos podem ser a mediocridade humana, as injustiças ou aqueles que detêm o poder. As bibliotecas e livrarias são os locais onde se encontram as quadrilhas, reunidas para uma conspiração visando destruir, entre outras coisas, as bases que sustentam o "festival de besteiras que assola o país", para usar das palavras de um antigo membro da quadrilha, um marginal que atendia pela alcunha de Stanislaw Ponte Preta.

Por isso, a Igreja Católica tinha (e ainda tem) seu "Índice dos Livros Proibidos" e os governos totalitários queimavam exemplares em praça pública. Essas instituições consideravam os livros perigosos. Elas tinham razão, porque esse objeto retangular e com uma porção de letras impressas nos faz pensar, e quem pensa não se deixa ser dominado por outros, tem suas próprias opiniões, critica, reivindica e "quebra o mar gelado dentro de si", parafraseando uma frase de Franz Kafka, outro marginal dessa quadrilha.

Confesso. Também faço parte do tráfico de livros. Como professor, escritor e crítico literário, minha função é dizer ao aluno ou ao leitor: adquira essa arma, aponte na sua própria cabeça e atire.

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Postado por Cassionei Niches Petry
9/5/2015 às 12h39

 
O silêncio, porque hoje é o dia dele

Já fui um indivíduo que fazia muito barulho. Para mim, música deveria ser sempre ouvida no volume máximo, por exemplo. Andava às vezes com meu "boombox" de pobre (leia-se "microsystem" do Paraguai) pelas ruas da cidade ouvindo rap daqueles com o bumbo bem pesado, como os do Run DMC ou LL Cool J. Também gostava de lugares barulhentos, como boates ou ensaios de escolas de samba.

O tempo foi passando, fui amadurecendo e comecei a prezar o silêncio. Silêncio para criar (escrever, compor), silêncio para ler, silêncio para ouvir música (em volume baixo), silêncio para ouvir meus próprios pensamentos. Em contrapartida, o mundo começou a ficar mais barulhento: carros, máquinas, música, risadas, TV ligada, fogos de artifício, cachorros, crentes em suas igrejas, escolas de samba, bailes e humanos em geral fazem questão de mostrar para todo mundo até aonde vai sua capacidade de fazer barulho.

O mundo ficou mais barulhento ou eu fiquei mais intolerante?

Contraditório que sou desde o nascimento, fui escolher uma profissão em cujo ambiente o silêncio deixou de imperar há algum tempo. Ser professor é aguentar não aguentando conversas, gritos, berros de alunos, tanto na sala de aula quanto no pátio. Aliás, para muitas pessoas gritar é sinal de que a criança está se divertindo, aproveitando sua época. Não são somente os alunos, mas também os professores. Rubem Alves uma vez chamou de "bosques das professoras cacarejantes" um grupo sempre presente em suas palestras que fala alto, grita.

"O silêncio foi a primeira coisa que existiu", cantou Arnaldo Antunes. Silêncio, diga-se, que ninguém ouviu. Qual teria sido o primeiro barulho, me pergunto. Um trovão, os raios, os pingos da chuva, um fruta caindo do pé, as vozes dos animais, a voz de um ser autodenominado superior quebrou o silêncio? Seria o Deus bíblico o primeiro filha da puta que incomodou os outros perturbando a paz?

Uma coisa é certa: o barulho do homem é sempre insuportável, ou melhor, o barulho que o outro faz, não o que eu faço.

E vamos ouvir agora o 4'33'' do John Cage.

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Postado por Cassionei Niches Petry
7/5/2015 às 14h20

 
A boa mentira em F for fake, de Orson Welles

Em A marca da maldade, de 1957, o policial Quinlan, vivido por Orson Welles (1915-1985), que também dirige o filme, forja provas para prender ladrões e assassinos. Segundo o personagem, eles eram realmente culpados. Falsificar para representar o real. Com essa premissa, pode-se comparar Quinlan com um documentarista que forja fatos para mostrar uma realidade que ele quer transmitir? Sim, responderia Welles, pois "é tudo verdade", conforme o título de seu primeiro documentário, gravado no Brasil, que pode representar uma grande ironia do autor, já que suas armas de documentarista são apresentadas em seu último filme lançado em vida: F for fake, de 1973, que na versão brasileira recebeu o nome Verdades e mentiras.

"Nossas fantasias e nossos desejos são estruturados como roteiros", escreveu o cineasta Jean-Lous Comolli. Esse poderia ser o lema de Orson Welles. Sua trajetória no cinema é a comprovação disso, mas bem antes, com seus trabalhos para o teatro e para o rádio, o diretor já trazia suas inquietações e, principalmente, suas tentativas de enganar o espectador. Mostrar a ficção como verdade, ou esconder a verdade por meio da ficção, eis os desejos que Welles estruturou como roteiro durante toda a vida.

"Tudo em Orson Welles passava pela mentira", afirmou o crítico de cinema Inácio Araújo. Para ele, a ruptura com o tradicional a partir dos anos 40, "isso o que se convencionou chamar modernidade em cinema, passa toda por aí: o falso o verdadeiro, o real e o irreal". Welles é um dos protagonistas dessa ruptura.

O falso está presente na sua obra desde a histórica transmissão radiofônica de de um drama teatral. Em 1938, Welles dirigia um programa semanal na rádio CBS, em que eram adaptados grandes clássicos da literatura. Uma das obras escolhidas foi o romance de ficção científica A guerra dos mundos, de H. G. Wells, que narra a invasão de marcianos em diversos lugares do mundo. Num tom de noticiário, a história foi ao ar no dia 30 de outubro daquele ano, causando pânico em boa parte da população dos EUA. Muitos ouvintes fugiram de suas casas e alguns chegaram a cometer suicídio, imaginando que tudo fosse real. Horas antes, Welles havia passado "a noite a remanejar a adaptação a fim de lhe infundir um caráter de autenticidade, situando a situação em diferentes partes dos Estados Unidos", conforme André Bazin. Essa aparente realidade construída e que depois é transmitida pelas ondas do rádio prova a genialidade do autor, já que conseguiu convencer milhares de pessoas de que tudo estava de fato acontecendo. André Bazin, no entanto, alerta: "embora o acontecimento tenha deixado vestígios objetivos e seja tema de verdadeiros estudos científicos, hoje é difícil acreditar em sua realização e, sobretudo, em sua amplitude. Esse extraordinário fenômeno de esquizofrenia coletiva na escala de uma nação parece-nos exageradamente inflado pela publicidade ou pela lenda wellesiana."

Portanto, ainda jovem, Orson Welles provou que podia falsificar e convencer de que tudo era real.

Seu primeiro filme — e primeira obra-prima —, Cidadão Kane, de 1941, foi uma criação ficcional, mas baseada na história verídica de um magnata da comunicação. Há cenas que aproximam o filme de um documentário. Segundo Eduardo Escorel, o diretor "não se acanhou em encenar cinejornais, supostamente documentais, para servirem de propósito de sua narrativa ficcional". O início do filme corresponde justamente a vários minutos de notícias que são transmitidas no cinema, dando conta da vida de Charles Foster Kane.

Mais tarde, começou a realizar no Brasil as gravações de cenas de It's all true, um dos tantos projetos do diretor que sofreu com as imposições do mercado e das discordâncias de Welles com os produtores. O filme permaneceu inédito até 1993, quando outros três diretores reuniram o material gravado para realizar um documentário.

Verdades e mentiras, por sua vez, foi seu último filme plenamente realizado. Vendido como um documentário, na verdade é um metadocumentário, pois aborda justamente a maneira como se realiza esse gênero. Ou melhor, não se pode exatamente dizer que o filme é do gênero documental, uma vez que, como frisa Fernão Pessoa Ramos, Orson Welles engana "de forma explícita (o narrador menciona claramente o fato) o espectador em uma narrativa em que asserções falsas e verídicas se sobrepõe."

Welles faz o espectador desconfiar do que vê na tela. O que se vê é um simulacro do que poderia ser real. O cineasta é um manipulador, que distrai quem assiste enquanto esconde os seus truques.

As cenas iniciais do filme são reveladoras nesse sentido, mostrando o próprio Welles no papel de um mágico, realizando uma apresentação para duas crianças, fazendo com que uma chave desapareça e depois apareça no bolso da criança. Seríamos nós espectadores comparados a esses seres inocentes que pouco sabem sobre o que estão vendo? Estaria Welles nos dando a chave para a interpretação do seu filme? "Ah, uma chave então. Ótimo Sr., levante-a sobre sua cabeça... E atente para qualquer sinal de truques da minha parte. Contemple, diante de seus olhos... uma transformação." Welles nos dá a pista de que haverá vários truques durante o documentário ou que o documentário é um truque. "Sou um charlatão", ele diz. Depois, afirma que o espectador será apresentado a "um filme sobre artimanha e fraude... sobre mentiras".

O tema revela o que há por trás do filme. A história de um dos maiores falsificadores de quadros, Elmir de Hory, que enganou durante anos compradores de arte de todo mundo, é dividida com a aparição de outros falsificadores. Clifford Irving, por exemplo, que teria escrito uma biografia de um magnata, Howard Hughes, na verdade falsa, e o próprio Welles, quando afirma que a história contada no documentário sobre Picasso e seu envolvimento com uma mulher — interpretada por Kodar, esposa do diretor na época — é falsa. "Será que os últimos vinte minutos de mentiras, em Verdades e mentiras, fazem com que o documentário deixe de ser um documentário? Mas... e se tivéssemos uma situação inversa? Vinte minutos de verdade e 78 de mentiras? E será que as verdades, no prazo que a narrativa se dá para contar verdades, são realmente verdades? Os quadros falsos são realmente os falsos? Não estaria Elmyr queimando na lareira um verdadeiro Picasso?", escreve Fernão Pessoa Ramos.

Estamos diante da grande questão do que é falso ou verdadeiro. A arte eleva a potencialidade da falsidade, afirmação corroborada pela frase de Picasso, citada no filme: "A arte é uma mentira. Uma mentira que nos faz ver a verdade."

Ramos discute esse filme justamente para falar sobre as fronteiras do gênero documentário: "Constatamos, ainda uma vez, a fragilidade dos conceitos de verdade, realidade, objetividade para lidar com o campo do documentário. Verdades e mentiras é simplesmente um documentário por sua forma de enunciação características dos documentários, embora estabeleça asserções ambíguas (algumas verdadeiras, outras falsas) sobre a vida de Elmy de Hory e sobre a fragilidade da dimensão autoral, (sua relatividade) nas artes pictóricas e em outras artes."

Pauline Kael, uma das maiores críticas de cinema dos Estados Unidos, afirmou que Orson Welles teria sido um farsante, ao se apropriar do roteiro de Cidadão Kane, sendo que o texto era de Herman J. Mankiewicz. Para Inácio Araújo, no entanto, Welles não era um farsante. "Era, sim, alguém que tomava a farsa como questão e a arte como uma espécie de farsa."

Como dissemos antes, Welles realizou seus desejos através de seus filmes. Fez de sua vida a sua própria obra. Ao estabelecer o falso como um dos seus temas, nada mais fez do que dizer que sua vida tinha muito de falso, de mentira, de ilusão. Transpor isso para a tela de cinema é transpor-se a si mesmo, e ele o fez tanto encarnando personagens quanto espelhando suas fantasias na tela grande. E o cinema nada mais é do que mostrar a ilusão na tela e, num documentário, vemos a ilusão de que aquilo se vê é real.

Para Truffaut, "Verdades e mentiras mostra que um chefe montador deve ser um chefe mentiroso." Welles é um mentiroso, mas é muito bom assistir às suas mentiras na tela.

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Postado por Cassionei Niches Petry
6/5/2015 às 14h48

 
Coceira crônica

Volta e meia, principalmente no verão, sou acometido por coceiras em determinados pontos da pele. Quem já sofreu desse mal sabe que, quanto mais se coça, mais o problema se agrava. A pele começa a ficar vermelha, a irritação se espalha, enfim... O mais sensato é procurar um dermatologista, especialista que deve ter a solução para o problema. Acontece que vivo distante dessas coisas práticas da vida, então vou adiando, adiando, não procuro o médico e, quando vejo, o problema está cada vez maior.

Não, não, meu dois leitores. Por favor! Continuem lendo, pois vocês são os poucos que me cabem ainda nesse latifúndio da blogosfera. Vou poupar-lhes de demais detalhes, digamos assim, nojentos. Porém, ah, porém, essas coisas banais do dia a dia nos fazem refletir sobre outras coisas não tão banais. Pois a coceira me lembra justamente a questão da busca pelo conhecimento.

Ora, volta e meia (ou melhor, sempre) sou acometido por uma coceira no cérebro. Quem já sofreu desse mal sabe que, quando mais se coça, mais o problema se agrava. O cérebro começa a inchar, a inquietação se espalha, enfim... O mais sensato seria procurar alguma coisa acomodável, como assistir à televisão ou escutar um breganejo, para solucionar o problema. Acontece que vivo distante (ou melhor, quero distância) dessas coisas rotineiras da vida, então vou adiando, adiando e, quando vejo, a inquietação está cada vez maior.

Ah, e é tão bom se coçar. Minha avó, que já se foi, adorava que coçássemos seus cabelos ou suas costas. Como neto dedicado, gostava de proporcionar esses momentos de prazer a ela e eu ficava feliz ao ver nos seu rosto um sorriso de satisfação.

Sim, coçar-se pode se tornar um vício. No caso da coceira do conhecimento, da curiosidade, da busca pelo saber, um vício que pode ser bom ou ruim, dependendo do que vamos fazer com o que ficamos sabendo.

Quando tenho essas coceiras, vasculho livros empoeirados das bibliotecas ou estantes esquecidas das locadoras, procuro anotações em folhas perdidas no meio da minha bagunça organizada, baixo álbuns e filmes antigos na internet, entro em fóruns de discussão, etc.

Mas, para aliviar mesmo a coceira, tenho que compartilhar os remédios que encontro, seja ensinando aos alunos na escola, seja conversando com alguém em um café ou no "skype" ou então escrevendo essas crônicas, artigos, resenhas, aforismos, contos, fragmentos e outras filosofices para serem lidos pelos raros leitores do blog (cassionei.blogspot.com, onde o texto foi originalmente publicado). Quando escrevo, no canto superior do blog, "espero que não fique à vontade", significa o desejo de que todos tenham essa mesma coceira ao lerem o que escrevo.

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Postado por Cassionei Niches Petry
4/5/2015 às 15h21

 
Crônica de uma literatura assassinada

Eu confesso: sou um assassino. Não premeditei esse crime, muito menos tentei justificá-lo com desculpas esfarrapadas tal qual Raskólnikov. Mas cometi, ou melhor, estou cometendo-o de forma consciente. Nenhum advogado, acredito, pegaria meu caso, afinal me declaro de antemão culpado. Sim, sou um dos responsáveis pela morte lenta e quase inevitável da literatura.

A paixão pela palavra escrita foi o que me levou a gostar da arte literária. Aliás, devo isso aos políticos, pois foi assistindo às propagandas eleitorais da campanha de 86 que aprendi a ler, juntando as letras dos nomes dos candidatos (e ficava bravo, já que, decifrando lentamente, não dava tempo para saber o cargo a que cada um concorria). Os escritos nas embalagens das balas, as quais adoçavam o chimarrão da família, também serviram. Porém, foram os gibis dos meus tios, depois os livros da estante dos meus avós (enciclopédias e dicionários) e mais adiante os da biblioteca da minha escola o passaporte para a viagem (analogia velha esta, hein?) a um mundo de fantasia que a literatura proporciona.

"Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca", escreveu o escritor argentino Jorge Luis Borges. Era como eu me sentia na pequena sala de livros do colégio Luiz Dourado, para onde a professora Maria Geci me mandava quando eu terminava as atividades e ficava debochando dos "atrasados" ("tirminei, tirminei, tirminei", eu cantava). Foi lá que conheci Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e, bem mais tarde, Fernando Sabino, Marcos Rey, As viagens de Gulliver e A ilha do tesouro. À minha primeira professora, portanto, devo a paixão pelos livros.

Por isso, decidi ser professor, para poder passar aos alunos a mesma emoção que sinto ao abrir um livro, semear novos leitores, mudar o mundo, enfim. No entanto, todos os sonhos escorrem pelas mãos quando o professor vê pela frente o conteúdo programático que deve ser seguido.

No 1º ano do Ensino Médio, por exemplo, é uma tortura, mesmo para os amantes da arte literária, ler as cantigas de amigo do Trovadorismo ou a Carta de Pero Vaz de Caminha. No 2º ano, José de Alencar é de doer, salvo um ou outro romance. No 3º ano, Os sertões, que é uma grande obra, cansa o aluno com sua linguagem rebuscada. São só alguns exemplos de obras as quais possuem qualidades, sem dúvida, mas cuja linguagem é diferente da linguagem vivenciada pelos jovens. Obrigá-los a ler, porque o vestibular pede ou porque a escola serve para ensinar o que o aluno não conhece, é afastá-los do prazer do texto. Esse prazer que é uma descoberta que acontece aos poucos, quando se descobre um autor, depois outro, que nos remete a outro, e assim por diante.

Como professor, tento seguir o que é estabelecido, cumpro ordens, sigo os conteúdos propostos. Por isso me sinto um assassino. E o pior, assassino daquilo que amo.

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Postado por Cassionei Niches Petry
3/5/2015 às 20h16

 
Somos ignorantes

A expressão ignorante, infelizmente, ganhou um tom pejorativo, ofensivo muitas vezes. Vai alguém chamar o outro de ignorante!

Todos, no entanto, somos ignorantes. Eu sou. Tu, que me lês, também és. Alguns são "ingnorantes" (sic), outros "igonorantes" (sic). Ah, tu não sabes o que significa sic? És um ignorante.

Pois é, até Sócrates (o filósofo, não o jogador de futebol, seu ignorante!) se dizia ignorante: "só sei que nada sei", afirmava ele. Ora, justamente por isso, o oráculo de Delfos confirmou ser ele o mais sábio dos homens. Quando assumimos que não sabemos tudo, somos sábios. Porém, é lógico que seremos sábios não apenas assumindo a ignorância, mas procurando o conhecimento.

Por isso, não concordo quando chamam o dicionário de "amansa burro". Ora, quem procura o Aurélio ou o Houaiss, entre tantos outros, busca o significado de alguma palavra que não conhece ou a forma correta de escrevê-la. O dicionário, na verdade, é o "Pai dos inteligentes".

Então, qual é a diferença entre o ignorante e o burro? É simples: o burro não sabe e prefere não ficar sabendo. O ignorante não sabe, mas busca saber, busca o conhecimento. Anota aí: todo burro é ignorante, mas nem todo ignorante é burro.

Mas voltando a Sócrates. O filósofo, cuja mãe era parteira, se dizia "parteiro de idéias", pois fazia com que seus discípulos trouxessem à luz o conhecimento escondido dentro de cada um. A luz, então, passou a ser sinônimo de conhecimento, saber. Lembram quando o Professor Pardal, das histórias em quadrinhos, tinha uma grande ideia? Aparecia sempre uma lâmpada logo acima de sua cabeça. Existem expressões como "uma luz no fim do túnel" e "me dá uma luz". Tivemos o Iluminismo no séc. XVII, chamado de "Século das Luzes", contrapondo à "Idade das Trevas" como ficou conhecida a Idade Média. Se a pessoa pensa racionalmente, dizemos que ela é lúcida. E quando vamos explicar alguma coisa, vamos esclarecer, deixar tudo claro.

Platão, que foi discípulo de Sócrates, criou o Mito da Caverna para expressar a questão do conhecimento. Dentro de uma caverna viviam várias pessoas acorrentadas. Tinham como luminosidade o reflexo do sol na parede ao fundo, na qual eram refletidas as sombras de tudo que passava na entrada. Como nunca viram outra coisa, essas pessoas imaginavam que as sombras vistas eram a realidade. Que aconteceria, se um deles conseguisse sair da caverna? Primeiro, veria as coisas refletidas na parede como elas são realmente, descobrindo que, durante toda sua vida, havia visto apenas sombras de imagens. Depois, voltaria à caverna e contaria aos outros o que viu, tentando libertá-los. A maioria, porém, não acreditaria nele. Outros, quem sabe, poderiam ouvi-lo e também sairiam da caverna procurando conhecer a realidade. Ora, a caverna seria o mundo em que vivemos. O homem que se liberta seria o filósofo ou qualquer pessoa que não quer permanecer nas trevas da ignorância. A luminosidade do sol seria a luz da verdade.

Devemos sempre seguir essa luz. E não vai aqui nenhuma conotação religiosa, tipo "luz divina", até porque sou ateu (ou à toa, como me chama minha esposa). Quando falo em luz, é a interior, o brilho que todos temos dentro de cada um de nós ("conhece-te a ti mesmo"), mas fica escondido justamente por questões externas (entre elas as religiosas ou políticas). Quantas pessoas deixam de expressar sua opinião, preocupadas com que os outros vão pensar!

Sejamos, pois, ignorantes, mas busquemos, sempre, conhecer o que não conhecemos, saber o que não sabemos.

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Postado por Cassionei Niches Petry
2/5/2015 às 11h34

 
Professor Stoner

Stoner, de John Williams, lançado por aqui pela novata editora Rádio Londres, com tradução de Marcos Maffei, ficou esquecido durante muito tempo. Publicado nos Estados Unidos em 1965, não teve muita repercussão. Quase vinte anos depois da morte do autor em 1994, a obra foi redescoberta a partir de uma edição francesa. Fico pensando na quantidade de boas obras literárias como essa que são desprezadas hoje e que não vão ter a mesma sorte de serem valorizadas.
Temos aqui a vida de William Stoner. Filho de camponeses muito pobres, seus pais o aconselham a estudar no curso de agricultura da universidade, a fim de tocar para frente o negócio da família. No entanto, como acontece com quase todo o jovem, a universidade, quando bem aproveitada, torna-se um fator de mudanças profundas na vida do indivíduo. Cursando uma disciplina obrigatória para todos os estudantes, literatura inglesa (que bom seria se por aqui fosse assim!), Stoner encontra Archer Sloane, exigente professor que lhe faz uma pergunta sobre um poema de Shakespeare. A questão o faz repensar sua existência ("Tomou consciência de si próprio como nunca antes lhe acontecera.") e os caminhos que estava seguindo. Resolve trocar de curso e estudar Literatura.
A paixão que acaba adquirindo pelos livros ("Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilhaçava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.") o faz terminar o curso e depois se doutorar, chegando, por fim, a ser professor na mesma universidade. A literatura torna-se o seu refúgio, companheira de sua solidão, mesmo depois de se casar com Edith, personagem contraditória, e ter uma filha, Grace, uma das personagens mais tristes do romance, povoado de gente assim. Nem mesmo a aventura com a amante, Katherine Driscoll, sua aluna de pós-graduação (sim, aquele cara meio bobo tinha o seu quê de safadinho também), tampouco as brigas com o colega, e depois chefe, Lomax e com o aluno brilhante, mas relapso, Walker (dois vilões em boa parte do enredo), o fazem se afastar da sua pacata vida de aulas, correções, apontamentos, orientações.
Logo nas primeiras linhas, o narrador nos revela a data em que Stoner irá morrer. A forma como são narrados seus últimos dias, no entanto, deixa o leitor travado, emocionado. É um pouco piegas, confesso, mas a tristeza que nos abate no final é inevitável. Dá para se dizer, portanto, que o romance pode agradar a leitores mais exigentes e aos nem tanto. Como sou exigente, diria que não é uma obra-prima, como muitos estão afirmando. Entretanto, vale a leitura.

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Postado por Cassionei Niches Petry
2/3/2015 às 16h59

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(2015)




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