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Sexta-feira,
3/7/2015
Relembrando Ibsen
Guilherme Carvalhal
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O teatro de Ibsen em muitos momentos mostra sua universalidade, principalmente quando problemas apontados por ele voltam à tona. Uma de suas obras mais marcantes, O Inimigo do Povo, sempre pode ser recordada diante dos fatos que presenciamos. Tanto é que é uma de suas peças mais interpretadas.
Uma das principais características de Ibsen foi seu senso crítico bastante apurado, muitas vezes estando bem à frente de seu tempo. Um exemplo é Casa de Bonecas, que discute de maneira bastante apurada a condição feminina.
O enredo de O Inimigo do Povo é a luta de Stockmann, um médico que detecta um problema grave em sua cidade e tenta denunciá-lo. Residente em um balneário turístico, Stockmann é uma figura de alta estima entre as pessoas. Seu irmão, prefeito, está realizando investimentos para ampliar o público turístico da cidade e recebe os aplausos de toda a sociedade.
Os choques começam quando o médico descobre que as águas do balneário estão contaminadas e passa a denunciar esse problema publicamente. Ele rompe com o pensamento corriqueiro e acaba sendo taxado como alguém contrário à cidade, querendo embargar o turismo que sustenta a economia local.
Aos poucos ele vai entrando em atrito com seu irmão, que consegue lançar a opinião pública contra ele, afirmando que suas acusações são falsas. O médico passa a ser atacado por todos os lados e ninguém presta atenção em suas observações, todas elas corretas.
A crítica ao ser humano e à forma como ele gera poder (esse sempre atrelado ao conceito de verdade) se dá de múltiplas formas. Por um lado, podemos ver o médico enquanto uma figura diminuta diante do estado e da sociedade. É o homem fragmentado, impotente diante do restante do mundo. Por outro, pode-se ver a figura do irmão, total dominador da verdade e assim da população, criando o conceito de certo o errado e conseguindo apontar o médico como alguém que planejava prejudicar toda a sociedade.
A própria população revoltada com o médico merece uma análise. A maneira bovina com que se comporta assemelha-se aos grupos populares que apoiaram regimes totalitários, ou então à passividade diante de uma cultura massificada e sem dialética. É essa a massa que oprime quem discorda sem maior senso crítico, remetendo a episódios em que a vontade da maioria se sobrepõe aos direitos da minoria. Ou de forma extremada a alguns casos não tão raros de linchamento.
Ibsen é o tipo de autor que infelizmente não perde a validade. As críticas feitas por ele há mais de um século continuam vivas, apesar de repaginadas. Se naquele tempo sua obra foi abraçado pelos movimentos anarquistas e sindicalistas, sua crítica se torna mais global mediante à falência dos grupos que alimentaram utopias e de uma sociedade mais fluída em suas posições e hierarquia.
Postado por Guilherme Carvalhal
Em
3/7/2015 às 12h53
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