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Terça-feira,
21/7/2015
Gosto de Cereja, de Kiarostami
Guilherme Carvalhal
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Uma das obras mais belas e complexas no cinema recente é o filme Gosto de Cereja, do iraniano Abbas Kiarostami. Ganhador da Palma de Ouro de 1997 (dividido com A Enguia, de Shôhei Imamura), esse filme é uma fina análise da condição humana, de seus medos, desejos e fraquezas.
O filme retrata a jornada de Badii, um homem que vai cometer suicídio e roda pelas ruas procurando alguém que o ajude. O impacto começa nas primeiras cenas: percorrendo pelas ruas ele passa por grupos de homens procurando emprego, mas não para com nenhum deles. Ele prefere abordar pessoas que andam solitariamente, uma indicação de intimidade, de como seu ato é algo discreto, até pelo nível de proibição moral envolvida nele.
Badii tem todo um esquema pronto para cometer suicídio. Ele vai ingerir uma série de remédios e depois se deitar em um buraco. O seu cúmplice deve chegar ao local combinado às seis da manhã. Se ele estiver morto, deve enterrá-lo, se estiver vivo, ajudá-lo a sair do buraco. Isso tudo envolve a insegurança dele em cometer suicídio, como se dentro dessa prática tivesse uma esperança em sobreviver.
Em suas andanças ele convida três pessoas diferentes para ajudá-lo, um militar, um religioso e um cientista, cada um de uma etnia diferente. Cada um contribui com sua visão, sendo que os dois primeiros recusam e o terceiro aceita. O primeiro é um jovem soldado, cheio de medos e incertezas, e o segundo pelo aspecto de sua profissão não aceita ajudá-lo. Apenas o terceiro, com uma visão fria de cientista, se compromete em auxiliá-lo.
Todas as abordagens são solitárias. Ele convida a pessoa para entrar em seu carro e os dois vão conversando. A câmera nunca enquadra dois personagens juntos e isso aumenta o envolvimento. Não há de fato uma relação entre as pessoas e a individualidade apenas se exerce através do isolamento.
O filme deixa muitas brechas para o espectador tirar suas próprias conclusões. A insistência dele em possuir alguém com ele é uma delas. Suicídio é um ato isolado, um pedido de socorro quando se chega ao extremo. A insistência do personagem principal em ter um acompanhante indica querer tornar isso menos individual, como se dividisse a experiência com outra pessoa e, de certa maneira, permanecer vivo na sua lembrança. Um contraponto à proposta do filme, que mostra sempre a fragmentação e não a coletividade.
O desejo dele em se matar é posto em cheque várias vezes. Por exemplo, ao ser convidado para comer uma omelete, ele recusa afirmando que isso o faria sentir-se mal. Mas se ele vai cometer suicídio, qual diferença faria? Da mesma forma quando, ao sair de casa, ele volta para apagar as luzes.
A fotografia colabora para todo esse aspecto humano. As imagens são áridas, secas, uma referência ao estado de espírito de Badii, tão sereno e aparentemente decidido quando prestes a morrer. As imagens da pedreira contribuem para essa sensação.
Gosto de Cereja é uma minuciosa análise sobre a condição humana. É um filme reflexivo e cheio de brechas para quem assiste pensar. Definitivamente uma das maiores obras da história do cinema.
Postado por Guilherme Carvalhal
Em
21/7/2015 às 14h18
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