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Quinta-feira,
23/7/2015
O humor de Monicelli
Guilherme Carvalhal
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A ideia de humor inteligente no cinema abre brecha para várias interpretações. Muitas vezes ele é referido para o jeito de Woody Allen, em que suas piadas ocorrem em meio a uma classe média alta intelectualizada. Então rolam piadas como sátira a articulistas de jornais falando sobre nazismo (em Manhatten) ou então a maravilhosa cena do cantor de ópera dentro de um boxe de banheiro em pleno palco (em Para Roma Com Amor). Humor inteligente talvez seja o complexo nível de elaboração de Monty Python, que muitas vezes esbarra em Allen, como na esquete do futebol filosófico, mas sem deixar o pastelão puro e simples de lado.
Um dos maiores entusiastas do cinema inteligente foi o italiano Mario Monicelli. Seu humor é inteligente não por eferências a alta cultura, mas pelas belas sacadas do roteiro, criando alguns dos maiores clássicos desse estilo. Suas obras expressam alto nível de criatividade, sendo muito inovadoras. Duas obras suas merecem destaque, O Incrível Exército de Brancaleone e Quinteto Irreverente.
O Incrível Exército de Brancaleone é uma sátira sobre as histórias de cavaleiros medievais. A história é sobre o cavaleiro Brancaleone da Norcia (interpretado por Vittorio Gassman, um dos maiores atores italianos, célebre pelo filme Nós Que Nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola), uma figura valente apesar da estupidez e da capacidade limitada em combate que é procurada por um grupo de pessoas que conseguiu roubar um documento garantindo a posse de um castelo. Juntos eles seguem em viagem para tomar a fortificação e assim Brancaleone se definir enquanto cavaleiro.
Nessa viagem eles se deparam com inúmeras situações típicas da idade média, encontrando motivo para debochar de todas elas. Eles chegam a uma cidade tomada pela peste negra e Brancaleone entende o abandono como medo das pessoas diante da sua presença; salvam uma princesa que ele pretende levar em segurança ao seu reino, sendo traído por ela; culpam o judeu do grupo pela série de desventuras e o batizam à força em um rio; e o desfecho final é igualmente cômico.
Brancaleone é uma obra brilhante em vários aspectos. É um humor bem sacado, baseando-se nas situações que temos como corriqueiros da época dos cavaleiros andantes. A religião, a nobreza, o heroísmo, são todos os valores que Monicelli resolve avacalhar. O filme tem uma continuação, Brancaleone nas Cruzadas, no qual o cavaleiro viaja rumo ao Oriente.
Já em Quinteto Irreverente o escracho é simplesmente total. Não tem roteiro nem nada disso. É simplesmente uma sequência de atos envolvendo cinco personagens com um único objetivo na vida, o de causar o máximo de confusão e rir ao limite.
Essa obra mostra um grupo de amigos que nunca perde a oportunidade de gargalhar diante de cada situação. E mostra episódios que beiram o bizarro, como convencer um viúvo diante do túmulo da esposa de que ela o traía ou então enganar um membro da máfia de que possuía problemas intestinais. As cenas são hilárias e não há nenhum valor moral que seja respeitado. Não há maiores preocupações com sequência, há apenas um humor muito bem elaborado e criativo.
Monicelli é um dos mais influentes cineastas que existiram. Sua longevidade (começou a trabalhar com cinema aos 19 anos e manteve-se produtivo até falecer em 2010 aos 95 anos) fez com que ele participasse de várias etapas do cinema, desde o humor mais ingênuo da década de 1940 até o estilo mais escrachado dos tempos atuais. Sua obra é um dos maiores marcos da história do cinema.
Postado por Guilherme Carvalhal
Em
23/7/2015 às 20h53
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