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Sexta-feira,
7/8/2015
A morte do leitor
Cassionei Niches Petry
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Sou dos poucos leitores que não veem com bons olhos os direitos do leitor escritos pelo Daniel Pennac. É um desserviço (não gosto muito dessa expressão, mas é a que me vem à mente no momento) à literatura.
Devido a uma preguiça macunaímica, me apoio em Pedro Eiras, no seu Substâncias perigosas, que comentei por aqui. Ele escreve, assim como que "o leitor não tem direitos nenhuns. A sua única soberania consiste em obedecer. E não é pouco. Não pode abandonar o livro, nem saltar páginas. A leitura é monacal: inventa um claustro, regras, votos. Exige ao leitor que morra para o mundo, que se emparede entre as páginas."
E continua: "Se fizer com o texto o que me apetecer, limito-me a cumprir o meu desejo. Não leio, só existo tal como eu sou. Mas ler deixar de existir."
"Sob o pretexto de libertar o leitor, Daniel Pennac, destrói-o, educando terroristas da leitura que vão apagando as descrições em Eça, saltando as digressões em Musil, simplificando o vocabulário em Aquilino, "corrigindo" a pontuação em Saramago. Pelo contrário, acredito que o texto pode quase tudo, o leitor quase nada. Ler é obedecer. Se Daniel Pennac mata o leitor, é porque, ao dar-lhe todas as liberdades, o condena ao tédio. Apenas vive o texto que nos contesta."
"Aonde quero chegar? Aqui: se soubermos ler, sabemos que a literatura pode tudo sobre nós. Incluindo matar-nos. Devemos tornar-nos dignos da ameaça", conclui o escritor português.
É comum hoje, com a pretensão de nivelar por baixo a literatura, vê-la apenas como mais uma fonte de entretenimento semelhante a outras como o cinema, a música. Para tanto, tornou-se moda criticar aqueles que cultivam algo mais sofisticado, taxando-os de pedantes, arrogantes, chatos, destruidores de leitores. Em artigo na Folha de São Paulo, Michel Laub chama isso de "populismo anti-intelectual". Mas assim como acontece com o cinema e com a música, há uma literatura mais elaborada, um trabalho acurado com a linguagem e com referências culturais as mais diversas, que fogem desse padrão de entretenimento. Não se pode destruí-la para dar lugar a outra mais simples, que até encanta, conquista leitores e blá, blá, blá, porém não exige muito de quem lê, não o desafia, mas sim o acomoda.
Julio Cortázar escreve no conto "Continuidad de los parques", publicado no volume Final del juego, a história de um leitor, sentado em uma poltrona de veludo verde e de costas para a porta, que lê um romance desses de best-seller, em que uma mulher planeja com seu amante a morte do marido. Quando o provável assassino se aproxima do provável assassinado, vemos que este também está sentado em uma poltrona de veludo verde e de costas para a porta, lendo um romance, provavelmente desses de best-seller, que uma mulher planeja...
É a morte do leitor ou eterno retorno do que nunca terminou?
Postado por Cassionei Niches Petry
Em
7/8/2015 às 11h42
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