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Quarta-feira, 30/8/2023
AMULETO
Diana Guenzburger
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Waldir morava em um prédio velho de Botafogo, que dava para morro coberto por árvores frondosas. Essa vista para a natureza exuberante fora um dos principais motivos para a escolha do imóvel, quando finalmente teve condições financeiras favoráveis para comprar casa própria. A princípio, ele e sua mulher Durvalina ficaram extasiados com o que viam. Além de micos e macacos-prego, pássaros variados habitavam a mata, incluindo tucanos de bico preto e peito laranja. Entre as várias espécies, os bem-te-vis eram os favoritos do idoso casal. Amarelos e pretos, eram os primeiros a acordá-los pela manhã, com seus gritos estridentes desde o nascer do sol. Rolinhas, sabiás, pardais, andorinhas, maritacas e até ocasionais jacutingas, pretas e pesadonas, alegravam a paisagem. Muitos construíam ninhos nos galhos das árvores em frente, ouvindo-se os piados dos filhotes, saudando a aproximação dos pais trazendo alimento.

Recentemente, porém, as coisas começaram a mudar. Já não havia tantos pássaros e os ninhos escassearam. Em compensação, um novo habitante da floresta começou a surgir: o urubu. A princípio, eram poucos e voavam alto, em círculo, por cima do morro. Durvalina olhava pela janela, intrigada e apreensiva. O que será que atraía estas aves agourentas? Não gostava deles, e não entendia sua aproximação. Que soubesse, não havia lixo nem carniça naquele local. Chegou a imaginar teorias tenebrosas sobre corpos de pessoas assassinadas, jogados no alto do morro pelos bandidos que habitavam a favela próxima. Isso certamente atrairia as aves de rapina, que gostam de carniça. Mas, não: se fosse isso, o fato já teria sido descoberto pela polícia.

E o mistério continuava. O número de urubus foi aumentando, voando cada vez mais baixo. O casal morava no quinto andar, e as aves tiravam rasantes pela altura das janelas do apartamento. Pousavam em galhos próximos e abriam as grandes asas, para secar ao sol. Eram inteiramente negros, com exceção das beiras das asas, onde se viam penas brancas.

Durvalina começou a sentir-se inquieta, e ultimamente evitava olhar pela janela. O que era antes um grande prazer, agora estava assustando-a. Mostrou as aves para o marido, que deu de ombros. “É um pássaro como outro qualquer. Você anda vendo fantasmas.” Mas a velha senhora não acreditava. Desde criança, sua mãe lhe havia dito que urubu era uma ave de mau agouro. Quando apareciam perto, nada de bom poderia acontecer.

Insistiu com o marido sobre o assunto, mas Waldir rebateu, desta vez irritado. Pois não sabia ela que o urubu era considerado um benfeitor da natureza? Era um pássaro-lixeiro, que limpava o mundo do lixo e da carniça espalhados pelos humanos, principalmente nas grandes cidades. Li isso na internet, declarou ele, com certo desprezo pela ignorância da mulher. Mas ela não se convenceu.

Um domingo, Durvalina estava lendo o jornal numa poltrona da sala, de fronte para a janela. Ao olhar para a frente, viu que um grande urubu pousara em galho curvo de uma árvore próxima. Estava quieto, com as asas arriadas, e parecia olhar para ela. A mulher sentiu um arrepio pelo corpo, mas tentou continuar a leitura. No entanto, não conseguiu concentrar-se e olhou em frente outra vez. O animal não se movera e continuava a encará-la.

Levantou-se, interrompendo a leitura. Dias depois, a mesma cena repetiu-se, quando estava lendo um livro. Depois da terceira ou quarta vez, resolveu-se.

“Preciso tomar uma providência”, raciocinou Durvalina. “Ou vou esperar acontecer uma desgraça? Não, isso nunca.”

Foi para o quarto, e começou a abrir gavetas do seu guarda-roupas. Não era uma pessoa organizada, e anos de negligência haviam resultado em uma grande bagunça, papéis velhos acumulados, roupas gastas amarfanhadas misturadas com novas. Levou várias horas vasculhando as gavetas, até encontrar o que procurava.

Levantou-se, segurando nos dedos o cordão de ouro, com a cruz de pequenos brilhantes pendurada. Tinha pertencido à sua mãe, e, antes disso, à avó e à bisavó. A mãe lhe dera de presente quando fez quinze anos, com a recomendação:

“Guarde isso com cuidado, viu, minha filha? Vai lhe proteger, como protegeu a mim, sua avó, bisavó, e todas antes delas. Na verdade, ninguém sabe quem foi a primeira dona, nem quando foi fabricado. Toda vez que você se sentir ameaçada, use esse cordão. Ele vai te resguardar!”

Durvalina prendeu o cordão em volta do pescoço, e logo sentiu-se melhor. Quero ver o que o urubu vai fazer agora, pensou. De fato, quando se punha a ler na poltrona de frente à janela, não viu mais a ave agourenta. Além disso, parecia-lhe que, agora, havia menos desses pássaros rondando o prédio.

Suspirou aliviada, e voltou a olhar pela janela, admirando a mata. Pouca gente, nesta cidade poluída e congestionada, tem o privilégio que nós temos de viver tão próximos à natureza, ponderava. Quando tinha esses pensamentos, porém, lembrava-se dos urubus e automaticamente levava a mão ao pescoço, apertando a pequena cruz de brilhantes.

O tempo foi passando e nada de notável aconteceu. Os urubus haviam ficado cada vez mais escassos, e somente de vez em quando um ou outro aparecia em volta do morro. Durvalina podia ler tranquilamente em sua poltrona predileta em frente à janela, que nenhuma ave esdrúxula aparecia para espiá-la.

Um sábado, a velha senhora, como de hábito, foi à feira do bairro comprar peixe e verduras. Arrastava atrás de si o carrinho de lona colorido, que estava leve, mas ficaria bem mais pesado quando cheio com as compras. Era um dia bonito de sol, sem nuvens, e Durvalina sentia-se alegre e satisfeita. Percorreu vagarosamente toda a feira, que afinal não era muito grande, e decidiu-se por um robalo fresquinho, bananas e algumas folhagens para salada, como alface e agrião. Estava voltando para casa, abrindo caminho entre a multidão que a essas alturas bloqueava a rua das barracas, quando sentiu um empurrão de alguém, que batera com força em seu ombro. Virou-se para trás indignada e viu um adolescente, a cabeça coberta por um capuz que lhe escondia também boa parte do rosto. Pediu desculpas em voz baixa, parecendo envergonhado.

Continuou a caminhada para casa, esforçando-se para não dar maior importância ao incidente. Quando chegou, logo esqueceu-se do ocorrido, na faina de guardar as compras feitas. Tudo arrumado na geladeira, voltou-se para a área de serviço, onde a aguardava uma cesta cheia de roupa suja, para lavar na máquina. Ao olhar para a janela, porém, levou um tremendo susto e seu coração disparou.

Um grande urubu encontrava-se pousado no parapeito, as asas meio abertas mostrando as penas brancas nas pontas. Olhava para ela, balançando a cabeça de um lado para outro.

Apavorada, Durvalina levou automaticamente a mão ao pescoço, em busca do amuleto protetor. O cordão havia se rompido e a pequena cruz de brilhantes desaparecera.



Postado por Diana Guenzburger
Em 30/8/2023 às 13h35

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