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Segunda-feira, 7/8/2006
A voz de uma geração perdida e abandonada
Tatiana Cavalcanti
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Não sou fã da Legião Urbana, sinto muito. Sou quase uma exceção, eu sei. Não faço parte da Geração Coca-Cola. Por ser leiga no assunto e estar interessada em conhecer melhor o álbum, liguei para minha amiga, fanática pela banda, para pedir sua ajuda neste artigo. "Sharon, você tem um álbum da Legião Urbana, um tal de Dois?". A resposta dela foi imediata: "Um tal de Dois? Mas este é simplesmente o melhor álbum da Legião Urbana!". Bom, isso eu não sabia, queria a ajuda dela para conhecer melhor o segundo álbum da banda de Renato Russo, que comemora 20 anos desde seu lançamento.

A Legião Urbana tem um significado muito especial para a maioria dos adolescentes dos anos 1980. Era a voz de uma geração que nasceu em plena ditadura ferrenha, e que obtinha recentemente a tal liberdade de expressão. Pais que lutaram pela liberdade política eram, em grande parte, conservadores em casa, segundo Sharon Sevilha, minha amiga. "Minha mãe é jornalista, tinha participação ativa na política do país, mas era rígida comigo e com minha irmã dentro de casa. O Renato Russo soube traduzir esse sentimento através da música, e o Dois é um LP (porque foi lançado em long play) cheio de mensagens que tocavam a todos nós, jovens da época".

A primeira vez que o vocalista se referiu a homossexualidade não foi em Dois, entretanto uma música deste álbum deixava bem clara a sua opção sexual. "Daniel na Cova dos Leões" tem trechos provocativos e explícitos: "Aquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo, de amargo então salgado ficou doce..." e "teu corpo é meu espelho e em ti navego". Renato Russo até ai não havia assumido ser homossexual, simplesmente por não terem lhe perguntado. É uma música revolucionária e livre de preconceitos, numa época pós-ditadura e democracia recém conquistada.

"Tempo Perdido" era, segundo Sharon, o hino da geração dos anos 1980. A música descrevia o que o adolescente sentia naqueles tempos. Ouvindo o CD, eu achei a música meio parada, entretanto é inteligente e realista. Sempre pensamos que temos todo o tempo do mundo, mas não temos. Só que o vocalista e compositor mostrava que isso não era uma verdade absoluta, que devemos saber aproveitar a vida intensamente, por mais curta que ela seja. Que seja eterna enquanto dure. No caso dele, caiu como uma luva.

Renato morreria exatos 10 anos após o lançamento de Dois, em outubro de 1996, segundo alguns fãs, de depressão. Ele teria desistido de viver. A versão oficial anunciou que ele faleceu de AIDS, e reza a lenda que ele foi contaminado por Robert Scott, norte-americano que ele conheceu num pub em Nova Iorque, e que tinha o tipo físico daquele rapaz da propaganda de uma marca de cigarros, em que ele se vestia de cowboy.

Sharon relatou o que ela considera a melhor experiência de sua vida. Em turnê por São Paulo, a Legião Urbana se hospedou em um hotel, e lá estava ela na porta, chorando compulsivamente e perguntando por Renato Russo. Obviamente disseram que ela não poderia invadir sua privacidade. Inconformada, ela chamou a irmã, minha grande amiga Bárbara, que fingiu ser uma jornalista. Ela pediu para falar com Renato Manfredini Júnior, que atendeu ao telefone e mandou as duas subirem por cinco minutos apenas, para lhes dar um autógrafo. Ele mostrou os livros que estava lendo e também a foto de um belo homem que ele disse ser seu grande amor. O nome dele, Robert Scott.

Enquanto isso, minha amiga e eu prosseguíamos tomando uma coca-cola, conversando e ouvindo aquele álbum que era interessante, mas não mexia comigo, não no sentido musical. Até que uma música chamou a atenção, um blues que eu conhecia na voz de Cássia Eller. Música Urbana, que na verdade pertence ao Aborto Elétrico, banda de Renato Russo anterior à Legião Urbana, retrata a vida nas grandes metrópoles do país, mas para mim fala dos problemas da cidade que mais amo neste planeta, São Paulo. Ali eu senti que ele conversava comigo.

Sharon prosseguiu dizendo que Renato Russo sabia as respostas antes que se fizessem as perguntas. "Ele cantava pra cada um de nós, dizia o que a gente precisava ouvir, e sempre tinha a resposta. Ele indicava o caminho a seguir e era o único que me entendia do princípio ao fim, como em "'Índios'".

No dia da gravação do álbum Dois, perceberam que faltava um espaço no disco, na época não existiam os CDs. Renato Russo abaixou a cabeça e em alguns minutos escreveu "'Índios'", que veio a se tornar um dos maiores clássicos da banda. Tudo para cobrir o buraco no disco. Nos shows ele não gostava quando a platéia pulava nesta música, porque ele a considerava de uma letra inteligente, era uma conversa que ele queria ter, mas ninguém estaria prestando atenção, pois estavam ocupados pulando.

Não falarei de todas as faixas do disco porque não caberia neste artigo, só citarei mais duas. "Quase Sem Querer" transmite esperança de um dia melhor. "Tenho andado distraído, impaciente e indeciso, e ainda estou confuso, só que agora é diferente: Estou tão tranqüilo e tão contente". É o retrato sempre atual das nossas vidas. Outra música interessante é "Eduardo e Mônica", que narra a relação de um casal, que na verdade é a reunião de várias histórias de amigos do vocalista.

Honestamente, não me tornei fã da banda Legião Urbana. Apesar de o álbum Dois merecer todo o respeito pela qualidade musical e pela mensagem nas letras, é deprimente e chega a ser mais pop do que rock. A banda não fez parte da minha adolescência, apesar de todos os meus amigos da mesma faixa etária a idolatrarem, entretanto me tornei admiradora do vocalista, de Renato Russo, por ser uma pessoa inteligente, sensível, politizada e, essencialmente, bom de coração. Ele sabia traduzir as agonias e indecisões de milhares de jovens, conseguia tocar seus corações somente com o poder da música, uma pena que não viveu mais tempo. Talvez estivesse aqui trazendo esperança num mundo tão cheio de hipocrisia e desvalorização humana.

"O Renato representa o melhor e pior na minha vida: o melhor porque tive a oportunidade de conhecer um cara extraordinário, não só pessoalmente, mas especialmente sua alma; e foi o pior porque ele me abandonou muito cedo. Foi uma das maiores dores na minha vida. Até hoje penso nisso. Eu perdi um de meus entes mais queridos e mais próximos. O Dois é a história da minha vida", finaliza Sharon com pesar e tristeza.


Tatiana Cavalcanti
São Paulo, 7/8/2006

Quem leu este, também leu esse(s):
01. O romance do 'e se...' de Cassionei Niches Petry
02. História da leitura (IV): a ascensão do romance de Marcelo Spalding


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