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Segunda-feira, 26/3/2007
Auster no scriptorium
Jonas Lopes
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Paul Auster é um trabalhador prolífico, quase incansável. Além de escritor, é poeta, ensaísta, tradutor, vice-presidente do Pen Club norte-americano (uma associação de escritores), organizador da antologia de relatos alheios Achei que meu pai fosse Deus e de uma recente caixa com a obra completa de Samuel Beckett. Além da literatura, envolve-se com cinema: já roteirizou alguns filmes e até dirigiu outros. Seu próximo longa, A vida secreta de Martin Frost (partindo de um enredo incluído em um de seus romances, O livro das ilusões), foi rodado em Lisboa há poucos meses, e deve ser lançado em breve. Tanta ocupação pode fazer alguém imaginar que o "bardo do Brooklyn", como já foi apelidado, possui uma incrível facilidade para escrever.

Não é o caso, pelo que ele diz. Auster é um adepto da idéia do "artista da fome", como observou Bernardo Carvalho em um ensaio há alguns anos. Para ele, a escrita é uma doença, resultado de muito sofrimento e de sacrifícios diários. "A arte é uma enfermidade", afirmou em entrevista recente. "Todos os artistas, mesmo que não queiram enxergar, são pessoas que sofrem, pessoas que não se encaixam neste mundo e buscam outro". Em outra entrevista comentou que escreve como se rezasse. Com dificuldade e enfermidade ou não, Auster produz muito: em 2004 soltou nos EUA Noite do oráculo; em 2005, a comédia Desvarios no Brooklyn (que curiosamente saiu no mercado brasileiro antes do americano); veio então a novela Viagens no scriptorium, lançada na Inglaterra no final do ano passado e que agora está saindo em diversos países, inclusive o Brasil.

Noite do oráculo e Desvarios no Brooklyn, apesar de não serem ruins, davam sinais, talvez pela rapidez da produção, de que a ficção de Auster vinha decaindo e se repetindo cada vez mais. Viagens no scriptorium, por isso, a princípio merece ser comemorado, já que o autor aposta em um enredo mais alegórico e fabular, distante do realismo cansado daqueles dois livros. Uma comemoração que começa a definhar se lembrarmos que foi em território alegórico que Auster engendrou os títulos mais fracos de sua carreira, os péssimos Timbuktu e Mr. Vertigo. E a festa termina de vez quando lembramos que, mesmo mudando de geografia ficcional, Paul Auster nunca consegue escapar de seus defeitos mais graves (embora ele diga que detesta se repetir). Não importa se o personagem é um cachorro ou um detetive; as histórias sempre partirão de algum momento desesperador (um acidente, alguém largando tudo para viver outra vida), o narrador em primeira pessoa será sempre igual, as histórias dentro da história se acumularão e a dependência em relação ao acaso sempre norteará o desenvolvimento da obra. Às vezes funciona, e muito bem, caso da famosa Trilogia de Nova York, de Leviatã e de A invenção da solidão. Quando erra, entretanto, a literatura de Auster cai a níveis abissais.

Viagens no scriptorium repete a baixa qualidade de Timbuktu e Mr. Vertigo. Um homem idoso acorda em um quarto pequeno e não faz idéia de por que está ali. Não se lembra de nada, nem de quem é, nem de quem conhece. É completamente vigiado por câmeras e microfones. Em cada objeto, etiquetas indicam o nome daquilo - parede, luminária, cadeira. Em cima da mesa ele encontra fotografias e um manuscrito. Conforme o dia passa, o homem, chamado Mr. Blank (Senhor Vazio), recebe algumas visitas (aquelas das fotografias na mesa) e tenta descobrir, através delas, quem é e por que está ali trancado. Algumas conclusões: ele está sob um tipo de tratamento, dizem, mas não sabe qual e nem por que motivo; toma comprimidos estranhos que parecem afetar sua memória; ele sente culpa por algo que imagina ter feito com pessoas que enviou para missões, mas não sabe quais. Todos o tratam como a um doente, não explicando nada com exatidão, ou uma criança, vestindo-o e tratando dele.

Mr. Blank começa a ler o manuscrito. Nele, um homem feito prisioneiro por um coronel recebe papel e caneta para escrever alguma coisa (a história dentro da história dentro da história; recurso cansativo). Ficamos sabendo que ele é Sigmund Graf, agente de uma potência chamada apenas de Confederação, e que foi enviado a um território afastado para descobrir se um outro antigo agente, dado como morto, na verdade está vivo e agora aglutina um grupo de pioneiros isolados para se revoltar contra a metrópole. Nada muito diferente dos Estados Unidos, como Blank logo nota.

Para completar, Auster recheia a narrativa com personagens que já apareciam em livros anteriores. Diz que não é necessário que o leitor conheça esses outros romances, mas que a visão de quem os leu será diferente ao abordar Viagens no scriptorium. Aparecem na novela Daniel Quinn, Peter Stillman, Fanshawe, Sophie (todos da Trilogia de Nova York), Anna Blume (No país das últimas coisas), Benjamin Sachs (Leviatã), David Zimmer (O livro das ilusões), John Trause (Noite do oráculo) e Marco Fogg (Palácio da Lua). Não dá para afastar a sensação de que eles estão ali apenas por uma brincadeira literária desnecessária.

A alegoria é de fundo político. Por mais que Auster negue, é impossível não fazer relações com o momento atual da América. Blank, como Bush, enviou pessoas a lugares perigosos. Algumas morreram, outras não, mas tudo dá a entender que todas sofreram muito. Da mesma forma, podemos analisar o protagonista como o inverso, a pessoa que, sem saber direito por que, recebe dos outros uma ajuda que ele não se lembra de ter pedido (o imperialismo ianque?); ajuda estranha, já que ele parece estar preso no quarto. Mas está preso mesmo? Ele não sabe. Não tem coragem de tentar abrir a porta. Blank "se conforma em viver num estado de incerteza constante".

Não são exatamente idéias originais. E Auster ainda se prejudica por nunca ir a fundo no problema. É outro problema antigo que acomete sua ficção: a superficialidade de alguns trechos. Fora isso, a questão da vida controlada por entidades superiores já foi mais bem explorada em O show de Truman. Assim como o homem que perde a memória, passa por crises de identidade e faz anotações ganha muito mais relevância em outro filme, Amnésia, de Christopher Nolan, e até em outros livros de Auster.

A outra interpretação da novela é literária. Como o manuscrito está inconcluso, Mr. Blank tenta terminá-lo com idéias próprias, e as tramas parecem se confundir. Seria Blank o tal agente Graf? As tais missões estariam ligadas a um envolvimento do velho com a Confederação? Quando descobrimos que na verdade tudo - Blank, o quarto, o manuscrito - faz parte de mais uma camada de material ficcional, um livro de Fanshawe, personagem-escritor da Trilogia, não ficamos mais aliviados. De novo, os exemplos abundam: Ian McEwan explorou os limites da criação literária em Reparação sem precisar fugir da estética realista. E quanto às histórias que se constroem continuamente, bem, Borges e suas Ruínas circulares continuam imbatíveis.

É verdade que Viagens no scriptorium, caso raro na carreira de Auster, não se utiliza do artifício do acaso para interligar tramas ou funcionar como um desagradável Deus ex machina. Mas até isso tem explicação: o enredo alegórico não possui compromisso algum com a realidade. Se nos romances realistas o acaso muitas vezes solucionava um mistério e acabava deixando tudo com ar de inverossimilhança, uma fábula pode ser inverossímil à vontade. Por outro lado a maior qualidade do nova-iorquino - a fluidez do texto e o prazer em que somos envolvidos pela narração -, parece ausente. O livro é truncado, cansativo.

O espírito de Mr. Blank, insípido, apático e, impossível não dizer, vazio, acabou resumindo com perfeição a novela. Auster pode mais.

Para ir além






Jonas Lopes
São Paulo, 26/3/2007

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