Ninguém é dono da (boa) história | Marta Barcellos | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 26/11/2010
Ninguém é dono da (boa) história
Marta Barcellos
+ de 3900 Acessos

Era uma boa história. Lúcia descrevia em detalhes, durante a entrevista, a dificuldade dos trabalhadores em domar as águas de um rio em pleno Planalto Central, meio século atrás. Eles sobreviveram à malária, abriram estradas, tudo para construir a usina hidrelétrica que iluminaria a nova capital federal. Os imensos blocos de concreto, porém, rolavam feito dados quando colocados pelo guindaste na pequena abertura do rio que teimava em continuar seu curso. Com exceção daqueles poucos metros, toda a barragem estava construída, e os operários exaustos contavam os dias para a época das cheias, que atrasaria em um ano todo o projeto. Entre os trabalhadores, estava o noivo da entrevistada: "Justo no dia do meu casamento, conseguimos fechar o rio", concluiu Lúcia, triunfante. "Foi inesquecível."

Como jornalista contratada para escrever a história da usina, eu estava diante de uma narrativa perfeita. Um começo para o livro. O problema é que as datas não coincidiam. O dia do casamento do funcionário, já aposentado, e sua dedicada esposa não batia com os registros da construção da barragem nos documentos sobre a hidrelétrica. Lúcia, no entanto, não mentira: na fabulação fixada em sua memória, casamento e fechamento do rio haviam sido comemorados juntos; ela vestida de noiva, ele, de terno, ambos felizes com a conclusão da barragem e o início de uma nova etapa em suas vidas.

Por se tratar de data importante para um livro jornalístico ― portanto, com a pretensão de controle sobre o que é "real" ―, eu não poderia reproduzir a fantástica história, embora reconhecesse a tentação, a mesma que enganou a memória da mulher. Mas, em outras passagens da saga, certamente lancei mão das fabulações que aparecem naturalmente em narrativas, minhas e de pessoas que entrevistei. O importante era que as personagens (termo da literatura também usado no jornalismo) se identificassem e se apropriassem daquela história, objetivo totalmente alcançado, a julgar pela emoção dos entrevistados durante o lançamento do livro.

Não é por acaso que esse artigo começa com uma narrativa pessoal ― no caso, a minha experiência de pesquisar um fato antigo. Como diz o cineasta Eduardo Coutinho, o ato de narrar a própria história é mágico, porque a pessoa utiliza uma sintaxe, um vocabulário e uma força expressiva extraordinária. "É um elemento ficcional, do imaginário, muito mais poderoso do que o real", afirmou o cineasta em entrevista à repórter Luciana Pessanha, em março deste ano. "Você conta a sua infância e é uma infância que está na sua memória, feita metade de esquecimento, metade de verdade. O que é verdade? Isso passa a ser totalmente desimportante." Por isso eu ficara tão frustrada por não utilizar, em minha narrativa, a história do casamento de Lúcia: se estava em sua memória, não importava que não fosse verdade.

Eduardo Coutinho levou às últimas consequências a sua reflexão sobre a desimportância da fronteira entre mentira e verdade, e promoveu uma instigante reflexão sobre a ideia da representação no filme Jogo de cena. Inicialmente, o espectador assume o papel que aprendeu, também ele, a representar, como provável conhecedor da obra de Coutinho, e acredita estar diante de pessoas que contam suas histórias de vida ao cineasta. Na medida em que os depoimentos se sucedem, porém, este mesmo espectador "ensaiado" experimenta a inquietação de ocupar um novo lugar: o do próprio cineasta que descobre o poder da fabulação e da representação.

O primeiro "jogo" proposto por Coutinho parece ser o do questionamento da mímese, ao confundir o espectador e induzi-lo a tentar identificar o que é falso e o que é verdadeiro. Em vão. É nesse momento que o espectador entra no "jogo pra valer" e percebe as outras camadas, mais profundas, oferecidas pelo filme e analisadas no livro Filmar o real ― Sobre o documentário brasileiro contemporâneo, de Consuelo Lins e Cláudia Mesquita. O cineasta faz articulações inesperadas entre depoimentos de mulheres colhidos a partir de um anúncio nos classificados de um jornal (com um convite para participar de um documentário) e a encenação de atrizes a partir desses mesmos depoimentos.

No caso das atrizes conhecidas do grande público, o espectador coloca-se na pele de quem enfrenta a angústia de representar um personagem real, e percebe a dimensão instável e insegura da arte da representação. Quando as personagens são desconhecidas, a emoção de acreditar no formato de narração de momentos íntimos, documental, é retomada. Mas novamente o conforto não dura. Coutinho quer fustigar, compartilhar o que já deve ter sido a sua própria angústia, e mostrar que também a arte do documentarista é instável e insegura. Pedaços de histórias já narradas começam a voltar, e não é mais possível identificar atrizes e personagens reais ― elas também representam suas próprias histórias a partir da autofabulação. O espectador afinal desiste de tentar descobrir quem é "o dono da história" para mergulhar na camada mais profunda, a da emoção das histórias de todo mundo.

"Acontece que ninguém é dono da sua história", resume Coutinho, na entrevista. "A dor da atriz é fingida, e é melhor do que a sua. Isso socializa a fala, que é de todo mundo e de ninguém." Uma vez que as narrativas ocupam o foco principal de interesse, o cineasta de certa forma pode abandonar as explicações que costumavam acompanhar suas entrevistas sobre documentários anteriores, nos quais sempre enfatizava o caráter de fabulação e "encenação de si" contido nos depoimentos de personagens reais.

Se o espectador de documentários (pelo menos aquele mais ingênuo, da era "pré-Jogo de cena") tem dificuldades para renunciar ao desejo de controle sobre o que é ou não real, o espectador do filme de ficção já chega à sala de cinema disposto a envolver-se com a história que será contada. No entanto, também na representação da ficção as fronteiras se mostram borradas.

A ascensão da preparadora de elenco Fátima Toledo a nome de destaque nos créditos do filme Tropa de elite 2 mostra a tendência no cinema nacional de se misturar pessoas do mundo real e atores em cena. É como se Fátima perseguisse a mesma força expressiva extraordinária da narração da própria história citada por Coutinho. Com sua técnica (considerada polêmica), ela transforma qualquer pessoa em um ator de si próprio. Mais uma vez, nos deparamos com a tênue fronteira entre ficção e realidade.

Seja com um ator profissional ou com alguém que nunca atuou antes, Fátima diz que é preciso, primeiro, destruir todos os instrumentos prévios de interpretação. Depois, ela busca as experiências profundas e os sentimentos verdadeiros nos quais é possível basear as cenas da personagem. A preferência é encontrar, para uma personagem com problemas de relacionamento com a mãe, um "ator" (profissional ou não) que também tenha vivido este tipo de conflito. Do ponto de vista do espectador, o resultado impressiona em Tropa de elite 2: atores e policiais de verdade se misturam na tela do cinema, inidentificáveis, num jogo de cenas que transpira realismo.

As narrativas que se apoiam neste entrelugar ― nem totalmente verdadeiro, nem totalmente falso; nem ficção, nem realidade ― tornaram-se alvo de grande interesse nos últimos tempos. Ao ligar a câmera e pedir para pessoas comuns contarem sua vida, Coutinho está dando uma chance para que elas possam finalmente dar um sentido para aquela personagem errática com a qual convivem diariamente, e preencher com pequenas doses de ficção a sua trajetória. Da mesma forma, nos reality shows, os participantes são incitados a representar personagens criados por eles próprios e induzidos a participar de uma trama conduzida por experientes diretores de TV. Não resta dúvida, hoje, de que o fenômeno dos reality shows tem por base os elementos da dramaturgia. Em uma instância pouco mais distanciada da realidade, mas ainda na mesma linha, estariam os "não atores" preparados por Fátima Toledo, capazes de seguir um roteiro prévio a partir de alguma matéria-prima de emoção verdadeira.

Como Lúcia, com seu imaginado casamento à beira das águas represadas do rio, somos todos capazes de criar uma personagem e acreditar nela. É na dimensão da arte que essas narrativas, lembradas ou fabuladas, podem ser representadas com toda a potencialidade de sua expressão.

Nota do Editor
Marta Barcellos mantém o blog Espuminha.


Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 26/11/2010

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