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COLUNAS

Segunda-feira, 8/10/2012
A Virada, de Stephen Greenblatt
Ricardo de Mattos
+ de 6600 Acessos


Titus Lucretius

"Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser mudado de cela" (Fernando Pessoa).

Durante o período olímpico tivemos oportunidade de aprofundar-nos a respeito de disputa tão antiga quanto os próprios jogos, ou mais. Trata-se do velho embate entre imanentismo e transcendentalismo que torna à pauta em virtude do reforço dos movimentos laico e ateu. Por imanentismo compreendemos a concepção de que tudo o que existe encontra-se limitado ao mundo físico e regido pelas leis naturais. Por transcendentalismo, a concepção de que o mundo físico é a parcela de algo maior, regido por leis naturais elaboradas por uma inteligência superior. O imanentismo pretende trazer para suas bases o pensamento filosófico e o científico e escuda-se no materialismo, tanto aquele baseado nos fatos do mundo quanto o promissório. O transcendentalismo lida, sobretudo, com a religião. Mais com a religião que com o espiritualismo, lamentamos observar. Em meio aos dois extremos, a massa cinzenta de pessoas de existência indefinida vagando desprovida de sentido.

O imanentismo encontra sua sedução no que de concreto apresenta às pessoas. "Veja esta semente", diz, "colocando-a no solo e irrigando-a, depois de realizados tais e quais processos, nascerá uma planta". A semente é plantada, o tempo passa, os processos se realizam e a planta surge. "Esta é a vida e não espere nada além disso", concluem vitoriosos seus adeptos. A seu turno, os que se julgam donos de visão mais ampla fazem promessas vagas de outro local que eles mesmos não sabem nem definir nem descrever. Recorrem à Fé pela Fé, o que a cega e enfraquece. Não conseguem compreender a Fé como um ponto ao qual se dirige o espírito em sua evolução: ontem uma promessa, hoje um fato. Por isso nossa adesão a Kardec e à Doutrina por ele codificada, na qual se privilegia a Fé raciocinada. Creia; contudo, verifique continuamente quais as bases de sua crença.

No tempo em que predominam o consumismo, a ignorância calculada, a busca desenfreada pelo prazer e a esquiva total da responsabilidade, não é difícil verificar qual competidor está em vantagem. Si os imanentistas satisfazem o intelecto com respostas adequadas ao atual estado do conhecimento humano, em longo prazo não saciam sede humana de afeto e de sentido. Desprovidos de melhores respostas, tornam-se tão apelativos quanto os próprios religiosos que criticam. Si os religiosos transformam a obra divina numa fuzarca da qual se quer distância e não convivência, a se turno alguns descrentes encaram os mais legítimos sentimentos meramente como instintos. Todos olham para todas as direções, menos para cima. Entretanto, ainda que de forma capenga, o Amor ainda é um trunfo dos transcendentalistas.

Aceite quem quiser: há autor espiritual contemporâneo - Inácio Ferreira - observando que no grande plano da Natureza é difícil afirmar categoricamente onde termina o mundo físico e onde começa o que se convencionou chamar "plano espiritual" - ou extrafísico, ou outra dimensão, etc. Desenvolvemos nossa existência naquela parcela da Natureza que acessamos mediante cinco portas, e esta parcela não sofre uma solução de continuidade quando o instrumento do qual nos utilizamos perde suas forças e desfaz-se. Daí a possibilidade de mútua interferência. Há, portanto, A Natureza, algo muito maior e mais abrangente do que querem uns e outros, e quem consegue vislumbrar isto não se conforma mais com qualquer tipo de reducionismo, seja de ordem pretensamente filosófica ou científica, seja de ordem pretensamente religiosa. Há harmonia na Natureza e há uma Inteligência que a rege.

A impressão que nos ficou da leitura d'A Virada, do celebrado estudioso norte-americano Stephen Greenblatt é a de que imanentistas querem definir seus profetas e livros sagrados. Os cristãos têm a Bíblia Sagrada, os cristãos espíritas O Livro dos Espíritos - embora não o leiam -, os fiéis muçulmanos o Corão, os hindus os Vedas e o Baghavad Gita, etc. Caso os imanentistas endossem a tese de Greenblatt, encontrarão no poeta romano Lucretius, e em seu poema De rerum natura os fundamentos de suas ideias. Logo, clero e ritos. Não fazemos aqui qualquer crítica às manifestações da descrença, mas reparamos na sutileza dos fatos, ao notarmos que o crítico, e uma forma ou outra, acaba por adotar as práticas do criticado.


Poggio Bracciolini

O que temos a respeito de Lucretius? Seus dados biográficos, além de reconhecidamente escassos, têm sua origem e exatidão questionadas por Greenblatt. Quem forneceu para a posteridade algumas linhas sobre o poeta foi Jerônimo - depois São Jerônimo -, erudito responsável pela tradução mais fiel dos textos bíblicos para o latim. Segundo este, Lucretius teria nascido em 94 A.C. e "depois que uma poção do amor o deixou louco, e ele escreveu, nos intervalos de sua insanidade, diversos livros que Cícero revisou, ele se matou por suas próprias mãos no quadragésimo quarto ano de sua vida". É tudo. Deixou um longo poema intitulado Da Natureza das Coisas - De Natura Rerum - que não é obra inaugural, mas pode ser compreendido como a síntese latina do pensamento do filósofo Epicuro de Samos. Possuímos um livro que traz fragmentos da obra do filósofo e o poema lucreciano completo. A tradução em prosa é do filosofo português Agostinho Silva e receamos que seja a única disponível no idioma e no mercado.

A Virada é um livro cuja leitura flui prazerosamente. Greenblatt faz um amplo painel da cultura latina e medieval. Investiga as bases do pensamento grego, latino e cristão, apontando onde há contradição e em que aspectos uma corrente desenvolvia suas ideias dialogando com as escolas anteriores. Contudo, em certos aspectos é tendencioso ou mesmo exagerado. Acerca do poema, o autor afirma: "...o poema de Lucrécio restaurou os átomos em seu contexto perdido, e as implicações - para a moralidade, a política, a ética e a teologia - eram perturbadoras". Antes, Greenblatt já havia dito: "Ao contrário da gigantesca cúpula de Brunelleschi, o maior domo construído desde a Antiguidade clássica, o grande poema de Lucrécio não se ergue contra o céu. Mas sua recuperação mudou para sempre a paisagem do mundo".

Em todo o oitavo capítulo da obra, Greenblatt aponta conclusões que acredita derivadas do poema: tudo é composto de partículas invisíveis, as partículas elementares da matéria são eternas, o Universo não tem um criador ou projetista, a alma morre, não há vida após a morte, etc. Aqui notamo-lo tendencioso e até reducionista, pois a aceitação da composição atômica da matéria não elenca o indivíduo, só por isso, entre ateus. Alguns alegarão uma inconciliável contradição entre o pensamento filosófico e o ensinamento bíblico. Neste caso, a discussão fica limitada aos fundamentalistas de ambos os partidos.

O fato é que o poema de Lucretius passou séculos perdido em bibliotecas monásticas. Esquecido e desconhecido. Foi localizado no século XV pelo humanista italiano e secretário papal Poggio Bracciolini, curiosa figura que Greenblatt nos apresenta. Estudioso esmerado das obras da antiguidade clássica, Poggio pôde ter acesso a diversas bibliotecas de seu tempo e sabia o que procurar nelas. Descoberto um livro excepcional, o florentino punha-se a copiá-lo à mão, ou pagava quem o fizesse. A Virada trata de uma época em que a imprensa ainda estava por chegar.

Stephen Greenblatt é considerado o pai do novo historicismo, linha de estudos que, em síntese, debruça-se na verificação do contexto de produção de uma obra, nas influências sofridas pelo autor e nas relações entre literatura e vida pessoal. Isto justifica a longa digressão que ele fez n'A Virada, partindo do mundo contemporâneo de Lucretius e chegando ao século de Poggio. No que se refere ao conteúdo desta digressão, a certa altura, perguntamo-nos si o objetivo da obra era tratar do poema ou expor as mazelas da Igreja Católica, instituição que ocupa mais espaço que o dedicado a Lucretius e Poggio juntos.


Sully de Prudhomme

Outro ponto que julgamos digno de nota: Greenblatt indica diversas personalidades como adeptas do pensamento derivado da obra de Lucretius, e atribui a conjecturas o status de confirmação. Para ele, Montaigne, Shakespeare e Thomas Jefferson seriam propagadores das ideias contidas em Da Natureza das Coisas. Verificando seus argumentos, contudo notamos que a certeza pretendida não é assim tão presente. No que diz respeito a Shakespeare, Greenblatt escreve: "Fosse como fosse, ele deve ter conhecido pessoalmente John Florio, amigo e Bruno, e pode também ter discutido Lucrécio com seu colega, o dramaturgo Ben Jonson..." (grifamos). Quanto a Montaigne, Greenblatt limita a amplidão de seu pensamento, enxergando entre o filosofo francês e o poeta latino "uma afinidade que vai além de qualquer passagem em particular". Por menos que isso, muita gente boa já foi acusada de superficial. Já o poeta francês Sully de Prudhomme, primeiro ganhador do prêmio Nobel de literatura, discípulo declarado do estilo e do pensamento de Lucretius mas muito menos vistoso, sequer é mencionado.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 8/10/2012

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