O Natal de Charles Dickens | Celso A. Uequed Pitol | Digestivo Cultural

busca | avançada
112 mil/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Mentor de Líderes Lança Manual para Vencer a Ansiedade
>>> Festival Planeta Urbano abre inscrições para concurso de bandas
>>> Ribeirão Preto recebe a 2ª edição do Festival Planeta Urbano
>>> Cia Truks comemora 35 anos com Serei Sereia?, peça inédita sobre inclusão e acessibilidade
>>> Lançamento do livro Escorreguei, mas não cai! Aprendi, traz 31 cases de comunicação intergeracional
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A vida, a morte e a burocracia
>>> O nome da Roza
>>> Dinamite Pura, vinil de Bernardo Pellegrini
>>> Do lumpemproletariado ao jet set almofadinha...
>>> A Espada da Justiça, de Kleiton Ferreira
>>> Left Lovers, de Pedro Castilho: poesia-melancolia
>>> Por que não perguntei antes ao CatPt?
>>> Marcelo Mirisola e o açougue virtual do Tinder
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
Colunistas
Últimos Posts
>>> Martin Escobari no Market Makers (2025)
>>> Val (2021)
>>> O MCP da Anthropic
>>> Lygia Maria sobre a liberdade de expressão (2025)
>>> Brasil atualmente é espécie de experimento social
>>> Filha de Elon Musk vem a público (2025)
>>> Pedro Doria sobre a pena da cabelereira
>>> William Waack sobre o recuo do STF
>>> O concerto para dois pianos de Poulenc
>>> Professor HOC sobre o cessar-fogo (2025)
Últimos Posts
>>> O Drama
>>> Encontro em Ipanema (e outras histórias)
>>> Jurado número 2, quando a incerteza é a lei
>>> Nosferatu, a sombra que não esconde mais
>>> Teatro: Jacó Timbau no Redemunho da Terra
>>> Teatro: O Pequeno Senhor do Tempo, em Campinas
>>> PoloAC lança campanha da Visibilidade Trans
>>> O Poeta do Cordel: comédia chega a Campinas
>>> Estágios da Solidão estreia em Campinas
>>> Transforme histórias em experiências lucrativas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Homenagem a Paulo Francis
>>> Meu suplemento inesquecível
>>> iPad o Leitor da Apple
>>> Um coral de 10 mil vozes
>>> Grande Sertão: Veredas (uma aventura)
>>> As novas estantes virtuais
>>> Dinamite Pura, vinil de Bernardo Pellegrini
>>> Paulo Guedes fala pela primeira vez (2023)
>>> Zastrozzi
>>> Desventuras Prosaicas
Mais Recentes
>>> O Que Comemos, Afinal? de Otto Wolff pela Antroposófica (2000)
>>> Aventuras Do Marujo Verde (Nova Ortográfia) de Gláucia Lemos pela Atual (2009)
>>> Manual terapeutica medicamentosa em ginecologia de Jose aristodemo pinotti pela Revinter (2002)
>>> Aventuras Do Marujo Verde (Nova Ortográfia) de Gláucia Lemos pela Atual (2010)
>>> O filho de zanoni de Francisco valdomiro lorenz pela Pensamento (1997)
>>> Os Direitos Das Crianças Segundo Ruth Rocha de Ruth Rocha pela Companhia Das Letrinhas (2011)
>>> Os Direitos Das Crianças Segundo Ruth Rocha de Ruth Rocha pela Companhia Das Letrinhas (2011)
>>> Mamão, Melancia, Tecido e Poesia de Fábio Sombra pela Moderna (2013)
>>> Cartas A Um Jovem Chef de Laurent Suaudeau pela Elsevier (2004)
>>> Diversidade de Tatiana Belinky pela Quinteto (1999)
>>> Viver a graça de Deus de Walter klaiber pela Cedro (1999)
>>> Os Libaneses de Murilo Meihy pela Contexto (2016)
>>> Diversidade de Tatiana Belinky pela Quinteto (1999)
>>> A Galinha Choca de Mary França; Eliardo França pela Ática (2009)
>>> Jogo Jogado de Regina Rennó pela Mercuryo Jovem (2009)
>>> Da responsabilidade de agentes publicos e privados dos processos administrativos de Jesse torres pereira junior pela Ndj (2012)
>>> Jogo Jogado de Regina Rennó pela Mercuryo Jovem (2009)
>>> O Livro Dos Grandes Direitos Das Crianças de Kawahara pela Panda Books (2025)
>>> Dostoiévski - As Sementes da Revolta 1821 a 1849 de Joseph Frank pela Edusp (1999)
>>> O Livro Dos Grandes Direitos Das Crianças de Hiro Kawahara pela Panda Books (2011)
>>> Direito Societário: Sociedades Anônimas de Maria Eugenia Reis Finkelstein pela Saraiva (2014)
>>> Eu Sou Muito Pequena Para A Escola - Coleção Charlie E Lola de Lauren Child pela Ática (2007)
>>> Terapia hoffman da quaternidade de Bob hoffman pela Papirus (1982)
>>> O Boom E A Bolha de Robert Brenner pela Record (2003)
>>> Caça Ao Tesouro: Uma Viagem Ecológica (Com a nova ortográfia) de Liliana Iacocca; Michele Iacocca pela Ática (2010)
COLUNAS

Terça-feira, 10/1/2017
O Natal de Charles Dickens
Celso A. Uequed Pitol
+ de 3800 Acessos

Os natais da infância de Charles Dickens não eram feitos de grandes comemorações. Filho de família de classe média baixa, conheceria a pobreza degradante das classes trabalhadoras aos doze anos, quando seus pais foram presos por dívidas. Foi então obrigado a trabalhar, e trabalhar duro, para poder sobreviver na Inglaterra dos começos da Revolução Industrial, quando leis trabalhistas, sindicatos, medidas de proteção social e outras coisas não eram sequer sonhadas pelos trabalhadores. Seus natais eram cheios de incertezas, dívidas não pagas, dinheiro faltando e perspectiva de um ano duro – os seus e os de todos os trabalhadores ingleses de sua geração.

O Natal das classes sociais mais abastadas era, é claro, muito mais luxuoso e tranquilo. Mas não necessariamente mais alegre: as regras estritas do cristianismo protestante dos séculos XVIII e XIX não via celebrações efusivas com bons olhos, e reunir a família e os amigos para comemorar ao som de música, boa comida e bebida tinha um intolerável ar pagão. Por essa razão, o duríssimo Oliver Cromwell chegou a proibir a sua celebração no século XVII. Na época de Dickens a proibição ja não vigorava, mas um escritor seu contemporâneo, Leigh Hunt, descrevia-o como um evento irrelevante, indigno de ser mencionado. Além disso, a grande burguesia britânica associava o Natal à rudeza das tradições rurais, que a racionalização do tempo da era industrial deveria passar por cima. Aos pobres, a frugalidade era imposta pelas condições econômicas; aos demais, pela rigidez dos costumes.

Quando Dickens decidiu ser escritor, já adulto, transformou as experiências de perda e desamparo em tema literário . Seus primeiros livros falam da situação degradante em que viviam os trabalhadores da Inglaterra, a indiferença para com o próximo em necessidade e o vale-tudo para subir na social, típico daquela época de intensa competição estimulada pelo governo. A Inglaterra em que ele viveu, e que retratou com maestria em seus romances, era um país de solitários, depressivos, cínicos, hipócritas, extenuados pelo trabalho e embrutecidos pelo individualismo atomizador. Era o mundo de “Oliver Twist”, de “As aventuras do sr. Pickwick” e de “Loja de antiguidades”; e era, também,o mundo de “Canção de Natal”, lançado em 1843.

Será difícil encontrar quem não conheça a história. O protagonista é o empresário Ebenezer Scrooge, que acha o Natal uma festa sem sentido e abomina as tentativas das instituições de caridade em obter donativos nesta data: “Não há mais prisões?”, pergunta ele. “Seria melhor que os pobres todos morressem. Assim, reduziriam a população excedente!”. Ao seu lado trabalha um caixeiro, Bob Cratchit, que lhe pede um dia de licença para poder celebrar o Natal com a família. Muito a contragosto, Scrooge permite – não sem resmungar, é claro, que se trata de perda de tempo. À noite, quando está sozinho, recebe a visita do espírito do seu falecido ex-sócio, Jacob Marley, que, em vida, compartilhava o mesmo ponto de vista de Scrooge. Condenado a vagar pela eternidade com uma cadeia de correntes, em punição por uma vida de egoísmo e materialismo, Marley diz ao sócio que ele receberá a visita de três espíritos de Natal, o do presente, o do passado e o do futuro, que tentarão fazê-lo mudar de vida. É o que acontece: Scrooge recebe os três espíritos e, atordoado pelas revelações que lhe fazem, passa a amar o Natal. Um homem novo nascia ali – justamente na celebração maior de um nascimento.

Canção de Natal teve nada menos do que trinta adaptações para o cinema, incontáveis versões em quadrinhos e figura na lista de qualquer biblioteca infantil que se preze. Foi traduzido para quase todas as línguas conhecidas. Sua força e influência ombreia com as parábolas bíblicas, com as quais tanto se parece. Em estudo sobre o impacto da obra, o sociólogo James Barnett aponta que “Canção de Natal” a combinava atitudes religiosas e não-religiosas de celebração de união dos homens: repudiava o egoísmo e o individualismo e exaltava as virtudes da fraternidade, compaixão e generosidade. Por isso, serve bem às diversas leituras: os socialistas viram em Dickens um companheiro de luta contra a exploração do trabalhadores pelos capitalistas, e os cristãos, um pregador contra o egoísmo e em favor da fraternidade, à maneira do “Sermão da Montanha”. Ninguém escapou ao impacto de “Canção de Natal”.

E nem mesmo os burgueses, representados tão negativamente no sr. Scrooge: uma reportagem de 1844 da “Gentleman’s Magazine”, revelou um aumento gigantesco no valor de doações para a caridade feita por milionários e atribuiu o fenômeno à imensa popularidade do romance. O feriado para o Natal foi instituído, as legislações do mundo todo incluíram o “indulto de Natal” em seus códigos e a gratificação de Natal (chamada, no Brasil, de “décimo-terceiro”) passou a ser um direito de todo trabalhador. O Natal, o dia do nascimento do Salvador da cristandade, passou a ser, também, o dia onde os Scrooges do mundo podem tentar a redenção – e nada representa melhor essa tentativa do que a peregrinação noturna do velho ranzinza e egoísta pelas ruas de uma Londres coberta pela neve, atormentado pelos pecados do passado e recebendo, na manhã de Natal, a chance de mudar de vida e redimir-se.

Por isso, e por muito mais, seguimos escutando, com atenção, à canção entoada por Dickens há 173 anos. O Natal de Dickens é, hoje, o nosso: hoje todos somos convidados a celebrar com alegria, junto dos amigos e familiares, com boa comida, boa bebida, canções e presentes. Mas o mundo de Dickens, o mundo dos Scrooges e Cratchits, dos meninos sem Natal e dos adultos que o desdenham, também é o nosso. Um mundo que precisa de redenção.


Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 10/1/2017

Mais Celso A. Uequed Pitol
Mais Acessadas de Celso A. Uequed Pitol em 2017
01. Oswald de Andrade e o homem cordial - 14/2/2017
02. Um caso de manipulação - 11/7/2017
03. Thoreau, Mariátegui e a experiência americana - 14/3/2017
04. O Wunderteam - 5/9/2017
05. O Natal de Charles Dickens - 10/1/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Caminhada da Igreja Com Cristo
Padre João Mellato Filho - Svd
Edições Loyola
(1979)



Cuba: a Revolução na América
Almir Matos
Vitória
(1961)



A rainha do castelo de ar
Stieg Larsson
Companhia das Letras
(2010)



A Batalha de Moscou
Andrew Nagorski
Contexto
(2013)



Homeopathie infantile-Tomo II
Vallentte
Maisonneuve



Livro Literatura Brasileira A Barca de Gleyre 2 Tomo
Monteiro Lobato
Brasiliense
(1950)



O Cortiço
Aluísio Azevedo
Ciranda Cultural
(2008)



By Ones e By Twos - Between
Jeannie Lockerbie Stephenson
Abwe Publishing
(2008)



A Primeira Escola do Bebê
Fanny Joly e Outro
Ática
(1991)



Uma Breve História do Brasil
Mary del Priore e Renato
Planeta
(2010)





busca | avançada
112 mil/dia
2,5 milhões/mês