Sem roupa e sem memória | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
65166 visitas/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Mentor de Líderes Lança Manual para Vencer a Ansiedade
>>> Festival Planeta Urbano abre inscrições para concurso de bandas
>>> Ribeirão Preto recebe a 2ª edição do Festival Planeta Urbano
>>> Cia Truks comemora 35 anos com Serei Sereia?, peça inédita sobre inclusão e acessibilidade
>>> Lançamento do livro Escorreguei, mas não cai! Aprendi, traz 31 cases de comunicação intergeracional
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A vida, a morte e a burocracia
>>> O nome da Roza
>>> Dinamite Pura, vinil de Bernardo Pellegrini
>>> Do lumpemproletariado ao jet set almofadinha...
>>> A Espada da Justiça, de Kleiton Ferreira
>>> Left Lovers, de Pedro Castilho: poesia-melancolia
>>> Por que não perguntei antes ao CatPt?
>>> Marcelo Mirisola e o açougue virtual do Tinder
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
Colunistas
Últimos Posts
>>> Martin Escobari no Market Makers (2025)
>>> Val (2021)
>>> O MCP da Anthropic
>>> Lygia Maria sobre a liberdade de expressão (2025)
>>> Brasil atualmente é espécie de experimento social
>>> Filha de Elon Musk vem a público (2025)
>>> Pedro Doria sobre a pena da cabelereira
>>> William Waack sobre o recuo do STF
>>> O concerto para dois pianos de Poulenc
>>> Professor HOC sobre o cessar-fogo (2025)
Últimos Posts
>>> O Drama
>>> Encontro em Ipanema (e outras histórias)
>>> Jurado número 2, quando a incerteza é a lei
>>> Nosferatu, a sombra que não esconde mais
>>> Teatro: Jacó Timbau no Redemunho da Terra
>>> Teatro: O Pequeno Senhor do Tempo, em Campinas
>>> PoloAC lança campanha da Visibilidade Trans
>>> O Poeta do Cordel: comédia chega a Campinas
>>> Estágios da Solidão estreia em Campinas
>>> Transforme histórias em experiências lucrativas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Xilogravura na Graphias
>>> Presente de grego?
>>> Para que serve a poesia?
>>> Conversando com Truman Capote
>>> Homenagem a Paulo Francis
>>> Meu suplemento inesquecível
>>> iPad o Leitor da Apple
>>> Um coral de 10 mil vozes
>>> Grande Sertão: Veredas (uma aventura)
>>> As novas estantes virtuais
Mais Recentes
>>> Tudo Depende De Como Você Vê As Coisas de Norton Juster pela Companhia Das Letras (1999)
>>> Branca De Neve de Vários Autores pela Ciranda Cultural (2011)
>>> Amiga Lata, Amigo Rio de Thiago Cascabulho pela Caraminholas (2017)
>>> Querido Mundo, Como Vai Voce? de Toby Little pela Fontanar (2017)
>>> O Menino Da Cidade de Sonia Meirelles A. Coutinho pela Rettec (2013)
>>> Aventuras De Uma Gota D´agua de Samuel Murgel Branco pela Moderna (1990)
>>> Romeo And Juliet de William Shakespeare pela Sparknotes (2003)
>>> Romeo And Juliet de William Shakespeare pela Sparknotes (2003)
>>> Michaelis: Moderno Dicionario Da Lingua Portuguesa de Michaelis pela Melhoramentos (1998)
>>> Viagens De Gulliver de Jonathan Swift pela Dcl (2003)
>>> Quanto Mais Eu Rezo, Mais Assombracao Aparece! de Lenice Gomes pela Cortez (2012)
>>> Explore Ocean World Encyclopedia de Dreamland pela Dreamland (2023)
>>> Explore Human Body Encyclopedia de Dreamland pela Dreamland (2023)
>>> Indivisivel: Uma Historia de Liberdade de Marilia Marz pela Conrad (2022)
>>> Branca De Neve s de Ciranda Cultural pela Ciranda Cultural (2013)
>>> O Incrível Batman ! Guardião Da Noite de Todolivro pela Todolivro (2017)
>>> Era Uma Vez: Cinderela de Varios Autores pela Magic Kids (2016)
>>> A Bela E A Fera de Vários Autores pela Ciranda Cultural (2011)
>>> O Mário Que Não É De Andrade de Luciana Sandroni pela Companhia Das Letrinhas (2001)
>>> O Real E O Futuro Da Economia de Joao Paulo Dos Reis Velloso pela J. Olympio Editora (1995)
>>> O Reizinho Mandão de Ruth Rocha pela Salamandra (2013)
>>> Antologia Poética de Manuel Bandeira pela Global Editora (2013)
>>> O Pequeno Grande Rio de Sonia Meirelles A. Coutinho pela Do Autor (2013)
>>> Bento vento Bia ventania de Danielle Fritzen; Nando Santos pela Imaginart (2016)
>>> Caderno De Artes Cênicas - Volume I de Varios Autores pela Sesi-sp (2012)
COLUNAS

Quarta-feira, 1/5/2002
Sem roupa e sem memória
Daniela Sandler
+ de 5100 Acessos

Levei um susto vendo as fotos das pessoas que posaram nuas para o fotógrafo Spencer Tunick, no Parque do Ibirapuera, publicadas na Folha Online na última segunda-feira. Boa parte das imagens é divertida, no mínimo curiosa. O clima é festivo. Algumas fotos mostram as formações idealizadas pelo fotógrafo, todo mundo deitado no chão, em composições interessantes, quase abstratas. Outras mostram as pessoas correndo de uma locação a outra, ou esperando instruções. Até que, no meio da série de fotos – na sétima foto, mais exatamente – o susto. E o nó na garganta.

A foto mostra as pessoas nuas alinhadas em fila, os corpos uns contra os outros, olhando para a mesma direção. O enquadramento é amplo, inclui dezenas de pessoas, o plano de chão à sua frente e a faixa de céu em cima. Por causa da distância, não é possível identificar com clareza as expressões faciais. E, por causa da luz, os contornos de cada corpo em perfil se destacam claramente do fundo ensombrecido composto pelos corpos da segunda fileira. Eu já vi essa imagem antes. Você talvez já tenha visto também.

A foto publicada em tom ligeiro e brincalhão repete as principais características de forma e composição de uma célebre fotografia de mulheres judias em fila momentos antes de sua execução por oficiais nazistas nas proximidades de Rovno, uma cidade ucraniana. A semelhança é perturbadora e, para quem conhece a imagem, imediata.

A intenção não é o que vale

Por certo o fotógrafo da Folha não teve esta intenção. Ele deve ter registrado dezenas de imagens tentando captar o melhor do momento, guiando sua câmera com o instinto rápido que vem do olhar e das mãos apuradas pela prática, guiado ele mesmo pelo chamado das formas à sua frente. Sem pensar, por assim dizer. Suponho que tenha sido seduzido pelo agrupamento linear, o ritmo do alinhamento em perfil, unindo os corpos na repetição de posição e ao mesmo tempo destacando as variações individuais. O editor que escolheu a imagem também deve ter admirado a composição, que tempera seu rigor formal com o inusitado da fila nua, uma espécie de gracejo.

Mas nada disso é desculpa para não fazer a lição de casa. Ignorância não isenta ninguém de culpa. Nosso repertório de imagens e de palavras não é ingênuo, não é neutro, não é atemporal. Pelo contrário: é histórico, enraizado em seu contexto, no modo como as pessoas usam, interpretam e reproduzem seus elementos (sejam figuras, sejam frases).

Em primeiro lugar, a história tem um peso social, ainda que alguns indivíduos acreditem estar livres dele. A menos que todos os historiadores esqueçam, que todos os arquivos e memoriais fechem suas portas, que os livros de história sejam queimados, que as hordas de visitantes dos museus do Holocausto desapareçam – a menos que tudo isso ocorra, haverá uma multidão de pessoas além de mim que irá identificar a similaridade formal descrita acima.

As linguagens são um contrato social

Se o argumento histórico não for suficiente, há uma razão intrínseca à fotografia e demais meios de expressão que derruba a idéia de que imagens são neutras em si mesmas, universais, a-históricas – em outras palavras, de que são “apenas” imagens, imagens “puras”. Essa razão é um pouco mais complexa e merece explicação mais vagarosa – perdoem, portanto, a digressão que aqui segue (e espero que vocês a sigam também). Prometo, ao final, retornar às idéias de partida.

Os meios de expressão em geral foram criados pelo homem por meio de interação social. Tomemos a linguagem verbal. Desvencilhando a história misteriosa e fascinante de sua formação, o lingüista Ferdinand de Saussure descreveu a linguagem como uma espécie de contrato social. Nós “concordamos” que determinadas combinações de sons são correspondentes a determinados significados. Não há nada intrínseco ou essencial ao som “sangue,” por exemplo, que indique necessariamente o líquido que corre em nossas veias. Se houvesse, todas as línguas do mundo – arábicas, germânicas, latinas, orientais, indígenas, etc. – fariam soar as mesmas sílabas, os mesmos tons, diante do fluido vermelho.

Obviamente, assim como as instituições, esse nosso “acordo” sobre a linguagem não se fez num dia. É um processo lento, milenar, histórico, pré-histórico. Não apenas demorou muito tempo, como também dependeu da interação de inúmeros seres humanos, incontáveis participantes.

Finalmente, esse contrato não é premeditado. Ninguém sentou para discutir e criar um sistema de comunicação (bem, algumas pessoas fizeram isso depois, criando códigos secretos ou novas línguas, como o esperanto; já as reformas gramaticais oficiais, discutidas por acadêmicos, são alterações limitadas e em geral baseadas na observação dos usos sociais). A significação das palavras (a semântica) e a sua organização sistemática (a gramática) se desenvolveram por meio de seu uso, de tentativa e erro, de prática.

Uso e contexto histórico

As palavras ganharam ou perderam significados conforme seu uso, que inclui os dois lados: a emissão do termo e a sua interpretação. Esse “uso” não é simplesmente o mundo etéreo dos livros, poemas e tratados teóricos. Tão ou mais importante é uso cotidiano da linguagem, enraizado na experiência material ou emocional dos membros de uma sociedade. Eventos concretos modificam o entendimento de certos termos. Um exemplo são as gírias. Às vezes, indivíduos excepcionais influenciam seu idioma – como Shakespeare, considerado o pai do inglês moderno, língua que injetou com neologismos e palavras inspiradas no latim.

Mas nem sempre essas transformações de significado são benignas. Certas palavras e expressões acabam sobrecarregadas por seu contexto social, político e ideológico. Por conta de seu uso, alguns de seus significados preponderam sobre os demais, e novos significados superam os originais. Além disso, um emaranhado de conceitos e fatos se agrega a essas palavras, como folhas e detritos presos num tronco à beira do rio. Seu uso, por conta dessa carga, carrega severas implicações políticas e éticas.

Na Alemanha, ninguém usa a palavra “Fuhrer”, que quer dizer líder, porque ela evoca Hitler. A não ser, talvez, grupos neo-nazistas e historiadores revisionistas. Segundo uma professora de alemão, “quando você lê a palavra “Endsieg” (vitória final) em um texto, pode ter certeza de que foi escrito ou traduzido por um não-alemão que desconhece essa convenção. Nenhum alemão escreveria “Endsieg”, mas usaria um sinônimo.” “Endsieg” era uma das palavras de ordem de Hitler, o objetivo de suas incursões militares.

O peso histórico é sentido em outras línguas. Aqui nos Estados Unidos, não se escreve “final solution” (solução final), a não ser que a expressão indique o plano de exterminar os judeus concebido pelo regime de Hitler. Se o contexto for outro, diz-se “solução definitiva”, por exemplo, ou “resposta final”.

Linguagens não são feitas só de palavras

Esse “contrato social” – e histórico – se aplica a formas de comunicação não-verbal também. A música, a pintura, a escultura, o drama, a dança, os gestos – ainda que essas linguagens sejam em parte, ou à primeira vista, intuitivas, elas também são resultado de um acordo coletivo desenvolvido por meio de sua prática ao longo do tempo. São regidas e produzidas por convenções, ainda que essas convenções sejam quebradas ou questionadas. Até mesmo a fotografia, ainda que, para muita gente, foto seja uma “janela” imediata para o mundo. Mas a janela só funciona porque nosso olhar sabe como usá-la.

A fotografia deve mais à pintura do que se imagina. O olhar ocidental está acostumado às regras da perspectiva, que dão ao registro pictórico a aparência “realista” e “natural” de reprodução da realidade. Mas a perspectiva é um recurso inventado. Antes de seu desenvolvimento (na Renascença), ou em culturas não-ocidentais, as pinturas, desenhos e gravuras não obedecem à proporção e alinhamento regidos pelos pontos-de-fuga.

É graças aos séculos de representação realista – durante os quais se aprimoraram, além da perspectiva, a reprodução da cor, da luz, da forma – que nossos olhos sabem ler imagens bidimensionais como representações do espaço. A fotografia aperfeiçoou essa técnica – e superou-a também. Mas a fotografia de que falo aqui, o fotojornalismo, se enquadra na tradição realista, ainda que muitos repórteres fotográficos brinquem com enquadramentos inesperados e poses inusitadas.

A fotografia, assim como a língua, assim como as outras artes, é resultado de um processo de construção e reconstituição social. Está sempre ancorada em seu passado e nos seus usos presentes. Está sujeita à memória, às associações de significado, à evocação de outros símbolos, de outros sinais similares. Está sujeita à interpretação de uma leitora como eu, e sujeita ao diálogo ou debate – nesta coluna, numa carta ao ombudsman, no boteco, num livro, numa sala de aula.

Responsabilidade – a deles e a nossa

Talvez daqui a duzentos anos as pessoas tenham voltado a usar a palavra “Fuhrer” de maneira benévola. Talvez daqui a duzentos anos o nazismo tenha se tornado suficientemente distante, assim como outros eventos traumáticos e brutais se tornaram; petrificados, inertes: a Inquisição, a escravatura. A maioria de nós visita os pelourinhos das cidades históricas e não sente calafrios. Mas essas especulações não vêm ao caso. Não só porque são hipotéticas, mas por estarmos inevitavelmente presos ao momento presente.

Sendo assim, qualquer editor fotográfico e qualquer fotógrafo de um meio de comunicação de massa tem a responsabilidade de fazer o dever de casa e conhecer a história de seu meio (bem, idealmente, de conhecer História, ponto). Não apenas de recitar os nomes de seus heróis, a história gloriosa de seu ofício ou de sua arte, aquela dos livros de centro-de-mesa. Falo também da história anônima; das imagens de grande circulação; da cultura e imaginário popular; de registros técnicos, áridos, policiais; das figuras documentais dos livros e dos arquivos dos jornais (destino, aliás, da maior parte das gloriosas imagens jornalísticas, que vai virar arquivo, e não livro).

A excelência técnica ou estética dos fotógrafos não os isenta de sua responsabilidade social – em especial num jornal de grande porte e circulação. Muita ênfase é colocada nesse tipo de talento ou competência, assim como muita ênfase é colocada no talento ou competência dos repórteres que caçam notícia, o heróico e combativo repórter “de rua”. Essas qualidades são importantes, sim, essenciais, mesmo; mas não são suficientes. Não se dá atenção ou valor a talentos menos bombásticos, ao conhecimento histórico, à consciência ética, às faculdades que vão além do registro imediato e pioneiro. E, já que não se dá atenção ou valor, também não se cobra nem se dá condições para que elas sejam cultivadas. Como esperar que alguém faça a lição de casa, se todo mundo está tão ocupado fazendo o jornal de amanhã? Enquanto for assim, eu, de minha casa, tenho pretexto e razão para fazer o meu dever. E você também.


Daniela Sandler
Rochester, 1/5/2002

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Eu, Marília de Marília Almeida


Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2002
01. Virtudes e pecados (lavoura arcaica) - 9/1/2002
02. Nas garras do Iluminismo fácil - 10/4/2002
03. Iris, ou por que precisamos da tristeza - 24/4/2002
04. Somos diferentes. E daí? - 30/1/2002
05. Crimes de guerra - 13/3/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Os Crimes do Mosaico
Giulio Leoni
Planeta do Brasil
(2006)



Igualmente Diferentes
Sérgio Danilo Junho Pena
Ufmg
(2009)



O Riso da Agonia
Plínio Cabral
Escrituras
(2002)



Minha Bola, Minha Vida
Nilton Santos
Gryphus
(1998)



Estórias Coladas
Marta de Faro Novis; Cláudia Sampaio
Do Autor



Baumgartner
Paul Auster
Companhia Das Letras
(2024)



Sou Filho, Logo Existo
José Roberto Marques
Ibc
(2018)



Jamar Monteiro - Coletânea
Jamar Monteiro
Intersubjetiva
(2007)



A Eletricidade e Suas Aplicações
Alberto Gaspar
Atica
(1996)



A Marca do Z
Paulo Roberto Pires
Zahar
(2017)





busca | avançada
65166 visitas/dia
2,5 milhões/mês