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COLUNAS

Quarta-feira, 24/7/2002
A Nova Intimidade
Héber Sales
+ de 3500 Acessos

Ando pesquisando o tema para aguçar minha percepção da sociedade atual, algo que considero essencial para o trabalho do ficcionista. Nessa busca, tenho me deparado com alguns livros preciosos, cujos achados e idéias julgo merecerem atenção. Busco neles a resposta para a questão: o que há de típico na intimidade da sociedade pós-industrial?

Rotulo de intimidade o conjunto das paixões e atitudes pessoais. Refiro-me a sentimentos como coragem, medo, solidão, várias formas de amor, poder, gentileza, respeito, a responsabilidade paternal/maternal, a dúvida existencial. A respeito dessas experiências íntimas, questiono-me até que ponto a vivência atual que temos delas não seria ainda típica da sociedade patriarcal e dos contextos culturais, institucionais e políticos burgueses, e, em caso de resposta afirmativa, o que poderia acontecer de novo no território da intimidade se essas condições mudassem, como parece estar acontecendo nesta virada para o século XXI com o surgimento da sociedade da informação ou em rede.

Esclarecidos os termos em que coloquei a questão da "nova intimidade", convém tentar de pronto uma resposta. Socorre-me Manuel Castells com seu livro O Poder da Identidade. Trata-se do segundo volume de um livro nascido clássico, um estudo que pretende caracterizar uma nova era histórica, a era da informação, em suas dimensões econômicas, sociais e culturais - a propósito, o título do calhamaço é A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura. Pois bem, nesse segundo volume há um capítulo de umas cem páginas no qual Castells argumenta que a crise do patriarcalismo, causada pela interação entre o capitalismo informacional e os movimentos sociais feministas e de identidade sexual, gerará novas formas de família, de sexualidade e de personalidade.

Castells argumenta que na crise do patriarcalismo "o que está em jogo não é o desaparecimento das família mas sua profunda diversificação e a mudança do seu sistema de poder". Novos esquemas de família multiplicam-se transformando a vida dos filhos. Nos EUA, epicentro da revolução em curso, o modelo de família de núcleo patriarcal, aquele definido nos termos "legalmente casados com filhos" está estatisticamente superado, correspondendo a apenas um quarto dos lares. Tomam seu lugar as famílias recombinadas, famílias com apenas um dos pais, coabitação, famílias de pessoas do mesmo sexo e lares habitados por um só indivíduo. O quadro é de diversidade, de relacionamentos pessoais com fronteiras móveis, e de um número crescente de crianças criadas por tipos de lares antes marginais e até inconcebíveis.

É a partir dessas novas condições de socialização dos filhos que talvez possamos entrever aspectos distintivos da intimidade que emerge com a sociedade informacional. Castells assinala que a crise do patriarcalismo conduz à transformação do mecanismo fundamental de reprodução do gênero, e, portanto, da identidade, sexualidade e personalidade. Com os homens perdendo espaço enquanto provedores, e considerando que eles sempre tiveram um papel secundário como objeto de apoio emocional para as mulheres (que é obtido primeiramente junto a mãe e depois junto a outras mulheres), estas relegariam seus parceiros ao papel de mero objeto erótico, formando famílias constituídas por mães e filhos reunidas em "comunas de mulheres e crianças", onde os homens seriam recebidos de vez em quando. Em resposta a tal movimento, os homens escolheriam seu novo papel dentre um leque de opções que ignora o modelo de família patriarcal: fugir do compromisso, tornar-se gay ou renegociar o contrato da família heterossexual. Neste último caso, que parece mais próximo do estado atual de coisas, haveria uma subversão do gênero pela revolução da paternidade - ou seja, o compartilhamento total da responsabilidade pelos filhos. Isso seria crítico para a dominação masculina, pois alteraria radicalmente o modelo de formação das classes sexuais. As mulheres poderiam então ser produzidas não apenas como mães, mas como mulheres que desejam os homens, e os homens não só como amantes de mulheres, mas também como filhos.

O desmonte da família patriarcal ocorre em meio a uma verdadeira revolução sexual. Castells caracteriza-a pela desvinculação do casamento, da família, da heterossexualidade e da expressão sexual. A dissociação entre sexualidade e casamento, que de resto sempre existiu para as mulheres, está sendo escancarada pela sexualidade feminina, pela homossexualidade, pela sexualidade eletiva e pelas novas tecnologias de reprodução biológica; há uma crescente autonomia do desejo, principalmente entre os jovens; e a sexualidade consumista está em alta. Assistimos dessa forma a história da deserção do quarto conjugal e da procura de novas formas de expressão sexual. Castells prevê "que se, quando, e onde a epidemia da AIDS estiver sob controle, haverá uma, duas, três muitas Sodomas surgindo das fantasias liberadas pela crise do patriarcalismo e estimuladas pela cultura do narcisismo". E mais, "em tais condições como sugerido por Giddens, a sexualidade tornar-se-á propriedade do indivíduo", e processar-se-á "a luta entre o poder e a identidade nesse campo de batalha que é o corpo humano". Uma luta que pode facilmente descambar para a pura e simples transgressão, pois muitas vezes o desejo origina-se comportamento.

Nesse contexto, que acontece de novo à intimidade de mulheres e homens? A preponderância do erotismo nas relações entre os gêneros tradicionais; famílias e rede de famílias matriarcais; homens assumindo-se narcisisticamente como meros objetos sexuais das mulheres; expansão do amor homossexual; homens que se tornam co-donas de casa; indivíduos sexualmente transgressores ocupados em consumirem-se uns aos outros num autêntico supermercado de fantasias pessoais. E isso não é tudo. Há ainda dois cenários delineados por Castells que devo destacar.

O primeiro deles refere-se ao surgimento de personalidades mais flexíveis. Expostas desde a infância a necessidade de se adaptarem a ambientes estranhos e aos diferentes papéis exercidos pelos adultos, as crianças desenvolverão personalidades mais complexas, menos auto-confiantes, mas com capacidade superior de acomodação aos papéis em mudança constante dentro dos contextos sociais.

O segundo cenário, nada otimista, prevê uma tensão social extrema produzida pelo reconhecimento aberto do desejo pessoal (fora da família) e sua associação com a transgressão. "A fuga em direção a uma sociedade aberta e em rede levará à ansiedade individual e à violência social, até que novas formas de coexistência e responsabilidade compartilhada sejam encontradas, unindo homens, mulheres e crianças na família reconstruída, isto é, uma família formada em condições de igualdade, mais adequada a mulheres liberadas, crianças bem informadas e homens indecisos".

Depois de ler sobre tudo isso, fiquei chacoalhando meus neurônios por causa de duas lembranças, o Brasil e a ficção. Como o próprio Castells afirma, apesar de global, o fenômeno da crise do patriarcalismo varia em intensidade e em maturidade de acordo com a região e a classe que analisamos. No caso do Brasil, vejo indícios de que os valores, as instituições e os estilos de vida típicos da sociedade informacional são compartilhados por uma minoria, e mesmo assim, convivendo lado a lado, num mesmo indivíduo, numa mesma família, com atitudes e costumes tradicionais. Quanto à ficção, tento recordar-me apressadamente de obras que reflitam a nova intimidade.


Héber Sales
Salvador, 24/7/2002

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Os dilemas de uma sociedade em Escudo de Palha de Guilherme Carvalhal
02. Assange: efeitos da internet em nosso cotidiano de Humberto Pereira da Silva
03. Lei de Imprensa, Diploma e Questões Afins de Ricardo de Mattos


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