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Segunda-feira, 22/9/2003 A fotografia cínica de Maurícius Farina Jardel Dias Cavalcanti A Galeria de Arte da Unicamp, em Campinas, mostra desde o dia 9 de setembro a corrosiva exposição "Fotografia Cínica", com os trabalhos do fotógrafo e jornalista Maurícius Farina. A Exposição poderá ser vista até o dia 3 de outubro. Trata-se de um conjunto de 22 fotografias coloridas que serviram como objeto da tese de doutorado do artista, na ECA-USP, defendida início deste ano. A última exposição individual de Farina foi realizada no Paço das Artes, em abril, em São Paulo. Com esta nova exposição Farina se propõe a criticar o sistema ideológico onde imperam os fetiches pelas mercadorias e pelo consumo, já tão entranhados em nossa cultura que parecem naturais. Três fotos chamam a atenção para desvelar a aparente e/ou falsa naturalidade destes empreendimentos ideológicos: "Cristo no saco", "Conhecida por todos" e "A Bola". Mas "Cristo no saco" vai mais além na sua crítica. A obra avança nos falando da sacralização do consumo e do êxtase por ele produzido em pessoas que têm uma vida absurdamente vazia e que encontram apenas no ato de consumir uma satisfação existêncial e espiritual. A bola, como todos sabemos, é um dos principais elementos do jogo de futebol. E o futebol, como também sabemos, constitui o mais importante e tipicamente “esporte nacional”. Toda criança brasileira, diz-se por aqui, “já nasce com a bola no pé”. Se nós temos alguma realeza, ela se deve ao “Rei Pelé”, que é o maior jogador de futebol do mundo. Quando a seleção brasileira joga, o país todo se une “em uma só voz”. Durante o Regime Militar o toque épico das imagens do futebol brasileiro apresentadas pela imprensa colocava este esporte como um dos traços da grandeza brasileira. Como dizia o general Ernesto Geisel (1975), o futebol é a “expressão deste povo generoso e ordeiro, compreensivo, tranqüilo e bom”. A bola de futebol representa o anseio que temos do Brasil ser um país vencedor. Um país que, apesar da miséria, consegue com o futebol derrotar as nações mais avançadas do mundo. Por trás dessa idéia vende-se a ilusão da Potência Emergente, que consegue ser a primeira no futebol, apesar de ser uma das últimas em justiça social. É notável a importância que os criadores da opinião pública atribuem ao futebol, criando um consenso popular sobre a suposta habilidade do brasileiro com a bola. Chegando a encontrar nessa “nossa ginga” e “nossa arte” (o jeitinho brasileiro), em oposição à “técnica” dos jogadores do primeiro mundo, uma qualidade e/ou característica generalista da definição da figura do “brasileiro”. A preocupação com esse tipo de “identidade” e a busca dessa “singularidade” através do futebol é, portanto, visível e tornou-se signo de nossa suprema virtude e originalidade, quando na verdade revela nossa incapacidade para lidar com o profissionalismo. Mesmo assim, nos achamos um “povo heróico” e especial, formado por “três raças irmãs”, ainda que uma delas tenha escravizado e barbarizado as outras duas. Existe um sumário clássico das razões para esse otimismo brasileiro: clima ameno, ausência de calamidades, tamanho do território, beleza e riquezas naturais, harmonia racial. Essas características nos fazem pensar também na inevitabilidade do nosso sucesso no futebol. A força desta crença, no entanto, configura-se como um imaginário difícil de ser abalado. Por isso, talvez, seja tão doloroso contemplar esta bola murcha apresentada por Farina, que esmigalha nosso símbolo mais importante, o futebol, que é uma das razões pelo qual devemos sentir forte sentimento de orgulho patriótico pelo Brasil. O futebol aparece para os brasileiros como valor ou símbolo da singularidade da “cultura nacional” ou, para ser mais certeiro, a própria “alma da nação”. Por isso, com sua bola Farina faz alusão a duas imagens que remetem ao Brasil: seu mapa, que quase se desenha com a bola sendo amassada no lado esquerdo e a bandeira nacional, um pano verde com um círculo ao centro. A Bola de Farina é um objeto cínico-icônico que revela e destroça a imagem da nação brasileira como presente de Deus (secas nordestinas, endemias, fome, miséria e prostituição infantil), como povo pacífico (genocídio da população indígena, escravidão negra, extermínio físico e psíquico de trabalhadores, mortes violentas pela posse da terra), como país da democracia racial (discriminação contra os negros, árabes e asiáticos comerciantes). O verde, símbolo de nossas grandes florestas, esmaece-se na foto de Farina - melhor dizendo, degrada-se. Serve ainda para ampliar a presença visual da bola, brilhante por ser nova e murcha em sua desfuncionalidade e inutilidade (afinal, para que serve uma bola murcha?). A sombra da bola, que um fotógrafo comercial jamais deixaria existir, na obra de Farina transforma-se numa desdenhosa auto-ironização da própria operação artística enquanto fotografia de qualidade. E alegoricamente nos faz pensar um pouco mais na incapacidade do nosso país em realizar qualquer projeto de qualidade profissional. A Bola de Maurícius Farina, nova, porém murcha, sintetiza bem o que diz a canção de Caetano Veloso: “aqui tudo é construção e já é ruína”. Além destas três obras, podem ser apreciadas mais 19 fotos na exposição "Fotografia Cínica". Imperdível. Para ir além www.iar.unicamp.br/galeria/m_farina/ Jardel Dias Cavalcanti |
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