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Quinta-feira, 16/10/2003 O Candomblé de Verger e Bastide Ricardo de Mattos Como dito, Verger chegou ao Brasil em 1.946, no dia dezassete de Abril, logo travando relações com Bastide. Este encontro permitiu que duas pessoas de farto conhecimento acerca de determinado assunto - ritos africanos - partilhassem e complementassem suas informações, abrissem uma a outra portas para novas pesquisas e, futuramente no elaborar projectos de maior fôlego, encontrassem no outro um conselheiro verdadeiramente apto. Eles souberam aproveitar este encontro e a amizade dele derivada. O livro Verger/Bastide - Dimensões de uma Amizade traz catorze textos a bem ilustrar esta comunhão de interesses. Entretanto, o excepcional volume não serve apenas para isso. Dá ao leitor informações tão respeitosas quão úteis sobre os rituais africanos que se costuma reunir sob a denominação comum de "candomblé". Conhecendo-se melhor uma religião - qualquer religião - respeita-se-lhe melhor e aprende-se a distinguir as mistificações. Os textos foram destinados inicialmente ao jornal O Cruzeiro e outras publicações técnicas e são surpreendentes na clareza e na legibilidade. O leitor deixa o livro apto a distinguir entre o honesto e o engodo. Há textos escritos a quatro mãos e outros apenas por um dos estudiosos. As fotografias todas são de Verger, porém é ingrato observar a discrepância das legendas, significando que nem todas as imagens foram publicadas. Um texto, o terceiro, traz onze fotografias e legendas para 24. O candomblé é o local onde realizam-se os cultos africanos. Quem olha de fora não sabe a diferença entre um ritual e outro - festa de Oxum, iniciação das filhas de Nagô - e generaliza falando em "religião de candomblé" e logo em "Candomblé". São vários os cerimoniais e várias as entidades, alguns equivalentes a deuses, outros a semi-deuses, isto é, aqueles nascidos homens mas alçados à divindade. Aponto um paralelo com a tradicional mitologia greco-romana. Febo é o mensageiro dos deuses olímpicos, intermediário entre eles e os homens, e tem por equivalente latino o deus Mercúrio. Entre as entidades mencionadas por Bastide, encontrei Exu com a mesma função. Apesar desta tarefa específica o vulgo, por influência da quimbanda, costuma tê-lo como espécie de demónio promotor de obras malévolas. A mesma equivalência pode ser encontrada entre Ares, Marte e Ogum. Deve ser apontada a questão do sincretismo. O candomblé, se visto como religião única, não é sincretista assim como não o é, v.g., o catolicismo. Já a umbanda e o voduismo são, pois trazem elementos das duas anteriores e mais algumas. No candomblé busca-se distinguir e manter distintas as seitas, como a Nagô e a Jêje, verifica-se a manutenção de uma pureza étnica. Os descendentes de uma determinada nação praticam as venerações que lhe são típicas. O quinto texto do livro, intitulado Os Mistérios dos Bronzes de Ifé e do Benin narra a descoberta pelo explorador Leo Frobenius de alguns bustos de cobre lavrados com uma técnica naturalista incomum em relação ao que se costumava ver na arte africana. Tal a perfeição das máscaras que se imaginou ser trabalho de algum artista estrangeiro, ou ainda, um negro aluno de alguma academia grega ou romana. Declara Bastide: "Assim, a arte de Ifé, apesar de ser naturalista - o que decorre talvez de uma influência exterior -, não é menos autenticamente africana, se for julgada por estas cabeças tal como aparecem nos museus, desprovidas de seus ornamentos barrocos, mas em seu contexto natural" (pág. 87). Encontra-se na National Geographic - Brasil de outubro de 2.001 a reportagem sobre a descoberta do exército chinês de terracota. Verifiquei algo análogo no estudo destas peças artísticas - termo aqui aplicado em generalização superficial - recentemente encontradas. Traz a matéria: "'Ninguém acreditaria que eram chineses se não soubéssemos de onde vêm', diz Wang Tao, da Escola de Estudos Orientais e Africanos, na Universidade de Londres. Ele compara o estilo das estátuas ao dos antigos gregos - e talvez essas figuras reflitam de fato intercâmbios culturais entre os Qin e os povos não chineses. Antes da unificação da China, o reinado Qin localizava-se no limite ocidental do território que seria abrangido pelo império, e os antepassados de Qin Shi Huang Di mantinham contato com várias tribos estrangeiras, cuja arte pode ter sido influenciada por trocas com a antiga Grécia" (pág. 40). Ainda que para este último caso realmente haja o intercâmbio comercial a considerar, não deixo de julgar pretensioso o lugar comum de atestar a excelência das artes africana e chinesa tendo por critério - único, parece-me - a semelhança d'estas com a produzida no molde da helénica clássica. Bastide inclusive qualifica como "barrocos" os complementos de expressão artística d'um povo que ou não vivenciou esta fase, ou a vivência não se deu da mesma forma que os europeus e europeizados dos séculos XVII e XVIII. Como se a arte independente destes povos só fosse bela porque se aproxima dos padrões ocidentais. E por aproximar-se, pode não ser deles. Se não foi esta a intenção, primeiro de Bastide e segundo do professor Wang Tao, foi o que se transmitiu quando afirmaram que obras tão perfeitas têm possível vínculo com o mundo ocidental. Soa como negada ao artista nativo e alheio à academia a capacidade de produzir arte de valor. Há no Brasil músicos inspirados em temas africanos. Já tive oportunidade de ouvir peças de Osvaldo Lacerda (1.927), Marlos Nobre de Almeida (1.939), Assis Republicano (1.897/1.960) e Valdemar Henrique da Costa Pereira (1.905/1.995). Todavia, afiguram-se homenagens aos negros e sua contribuição à formação do país, não assimilação profunda de sua cultura. No Uruguai encontramos o "candombe", uma dança dramático-religiosa - cujo nome revela a origem - antes limitada aos escravos e seus descendentes e hoje popularizada. Equivale ao samba e foi retractada várias vezes pelo pintor Pedro Figari (1.861/1.938). Para ir além Ricardo de Mattos |
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