|
Sexta-feira, 4/6/2004 Prazeres escondidos Eduardo Carvalho Trinta volumes, pelo menos, então, podemos considerar livros. Como a antologia de ensaios de Saul Bellow, Tudo faz sentido, que merece uma edição revista e melhor traduzida, mas que contém ensaios sobre assuntos variados como Mozart, um inverno em Toscana e civilização. Saul Bellow é dos poucos escritores vivos que ainda acreditam em literatura. Comprei uma seleção de contos sua, Trocando os pés pelas mãos - Bellow, como um bom escritor americano, sabe escrever contos. Levei também, de tabela, Ravelstein, em que Bellow disseca a personalidade de seu amigo Allan Bloom - dono de uma erudição e de um apartamento fenomenais, foi uma das figuras mais interessantes e influentes no debate de idéias norte-americano. Outro personagem curioso - para além de sua música - foi Stravinsky, que conviveu com Huxley, Eliot, Auden, Christopher Wood, e quem mais, em sua época, tivesse alguma expressão artística. Seu assistente pessoal, Robert Craft, maestro e crítico de música, escreveu esse Stravinsky - Crônica de uma amizade, resultado do diário que manteve durante mais de 20 anos de relacionamento com o compositor. Os dois circulam de Moscou à California, atravessando o mundo diversas vezes, mas Stravinsky, compreensivelmente, amou Veneza acima de todas as outras cidades - e lá foi enterrado. Como vários espíritos cosmopolitas, Stravinsky foi apaixonado pelo ambiente de Veneza: que, num espaço relativamente pequeno, resume o que é viver civilizadamente: o contato com a água, com o passado, com as artes - e quase todas as obrigações cumpridas de barco ou a pé. A biografia de Edmund Wilson por Jeffery Meyers parece - ainda não li inteira - competente, com um texto rápido e muitos detalhes pessoais da vida de Wilson. Mas a editora Civilização Brasileira poderia ter escolhido alguém mais preparado para escrever a orelha - e não Fausto Wolf, que ainda reclama da "banalização da mídia" e do "conformismo que tomou conta dos leitores nos últimos vinte anos". Quando foi melhor? Comprei também, de Christopher Sawyer-Lauçanno, Escritores americanos em Paris, do qual Wolf provavelmente também adoraria assinar a orelha - mas não assinou. Gertrude Stein me cansou; Hemingway me fascinou com um ou dois contos, e nada mais; a vida de pessoal de Fitzgerald não me interessa muito, apesar de ter escrito um dos meus romances preferidos, The Great Gatsby. São muitos porres em Paris e poucas idéias dos americanos: valeu, no entanto, o preço que paguei na liquidação. Eu já tenho a coleção da Globo de Em busca do tempo perdido, de Proust, traduzida, entre outros, por Mário Quintana, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, mas os tomos estão quase se despedaçando. Comprei então a nova, da Ediouro, traduzida por Fernando Py. Pode ser que a tradução, como alguns reclamam, tenha simplificado ou alterado o texto original; ainda assim, a coleção é prática - condensada em apenas três volumes, em vez de sete -, num papel fino e com capas lindas. Outro clássico francês que trouxe para casa, com prefácio de Tarsila do Amaral, é O vermelho e o negro, de Stendhal, uma narrativa longa e às vezes pesada, mas com apuradas observações sociais e psicológicas. Eu li Os homens preferem as loiras, de Anita Loss, publicado nos anos 20 com o apoio de Mencken, e que depois virou filme com Marilyn Monroe, mas ainda não tinha a continuação: Mas os homens se casam com as morenas. Não é verdade, mas enfim: o subtítulo também é cômico: O revelador diário de uma lady profissional. O livro é divertidíssimo, mas deve ter perdido a graça para quem se acostumou com confissões dessas - como disse um amigo - "escritoras-putas" atuais. É engraçado ainda reparar que, depois de oitenta anos, o modelo satirizado por Anita é apresentado, em livros e seriados, como estereótipo da mulher de sucesso. Não aprenderam nada. Mulher de sucesso é Patricia Highsmith, criadora do personagem Ripley - que, reduzido a um almofadinha homossexual, estrelou recentemente em alguns filmes. O livro está se desintegrando, mas ainda pretendo ler - mesmo que em outra edição - Uma questão de moral, que foi publicado no Brasil em 1989. O livro de Peter Fleming, Uma aventura no Brasil, é muito lido por estrangeiros que visitam o país - e infelizmente desconhecido pelos brasileiros. Fleming veio para cá nos anos 30, e se enfiou numa expedição pelo interior do país. É o tipo de relato que, suspeito, foi escrito mais vezes por estrangeiros do que por brasileiros. Nessa mesma época, Maurício Nabuco - filho de Joaquim Nabuco - circulava por salões internacionais, e depois escreveu o simpático Drinkologia dos Estrangeiros, traçando as origens e recomendando as melhores combinações do que se oferecia elegante do Hotel dos Estrangeiros, no Rio. O posfácio é de Antonio Houaiss - que, se não entende de economia e política, pelo menos entendia de comida e bebida. Mauricio Nabuco tinha o hábito de, mesmo sozinho, jantar de smoking, e inventou uma engenhosa taça de champanhe: uma taça normal, mas sem a base para ser apoiada numa mesa. Nabuco gostava de seus convidados com o copo sempre na mão - e, portanto, levemente embriagados. Uma edição com ensaios acadêmicos sobre Huckbelerry Finn, de Mark Twain, parece piada, para quem conhece o autor - que se dispôs a metralhar quem fizesse "interpretações" de seu livro. Huck é um dos personagens mais bacanas da literatura ocidental. Dispenso comparações do Rio Mississipi com a vida, etc., e comprei Adventures on Huckbelerry Finn por cinco páginas: um ensaio de T. S. Eliot sobre o livro. Henry James, porém, praticou um tipo de literatura, digamos assim, oposta à de Mark Twain - e em The Turn of the Screw, dizem, encontrou sua expressão máxima. Ando, ultimamente, distante de romances psicológicos - apesar de encantado com Proust -, e deixarei esse volume na prateleira enquanto leio O ponche dos desejos. Pouca gente lê Michel Ende - o desconhecido escritor de A história sem fim -, que concentrou sua produção em literatura infantil. O ponche dos desejos é uma história criativa, com um relógio acompanhando as páginas e figuras diferentes das que encontramos em historinhas tradicionais. É o que precisarei para alternar com o conteúdo enciclopédico pesquisado por Alberto Costa e Silva, e publicado em A enxada e a lança, uma densa história da África antes da descoberta portuguesa - comparável, em rigor científico e ambição literária, com os melhores momentos de Gilberto Freyre. Wilson Martins é o crítico literário mais odiado no Brasil, talvez por ser também o mais cosmopolita. Comprei apenas o segundo volume da sua monumental História de inteligência brasileira - que estranha por ser tão longa. O embaixador Sérgio Correa da Costa, no entanto, preferiu uma forma mais tranqüila e alternativa de narrar a história do Brasil: e descreveu, em Brasil: Segredo de Estado, passagens desconhecidas da história brasileira, que às vezes preferimos esquecer. A bonita Enciclopédia da Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho, deve ter exigido trabalho, pela extensão do seu conteúdo, mas se focou em autores conhecidos e em folclóricos. A impressão é que desafetos dos organizadores foram ignorados, ou injustamente reduzidos a notas muito curtas. Machado de Assis também tinha inimigos. Josué Montello - que conhece profundamente Machado - selecionou algumas polêmicas do escritor, e publicou os artigos de suas disputas em Os inimigos de Machado de Assis. É bom ver que Machado - hoje unanimidade - nunca agradou a todos, mas também não aceitou passivamente as críticas que recebia. Diz muito, aliás, o fato de que vários de seus inimigos tenham desaparecido na história. O contraponto a Machado e Montello pode ser uma seleção de quadrinhos No One You Know, de Bek. Bek escreveu alguns capítulos de Seinfield, e é o primeiro nome que vários leitores da New Yorker procuram quando abrem a revista. A idéia da evolução de Platão a Darwin é o subtítulo de Lance de dados - mais uma maravilha de Stephen Jay Gould, um desses escritores que silenciam quem reclama da produção literária atual. É, claro, um livro sobre ciência - e Gould é um cientista erudito -, mas nem por isso pode ser desconsiderado como literatura. Gould escreve de forma leve e agradável, apresentando idéias complexas - quando, digamos, revisa idéias sobre a Teoria da Evolução - usando a habilidade dos rebatedores de baseball como exemplo. City Life - Urban Expectation in a New World, de Witolt Rybczynsk, representa também essa safra de idéias contemporâneas realmente novas, descrita por autores competentes. Outro exemplo dessa tendência é Fiction on Business: Insights on Management From Great Literature, do ex-CEO e professor de literatura Robert A.Brawer. Brawer se limita aos clássicos para oferecer soluções a problemas empresarias, como a submissão dos interesses pessoais aos da corporação. É imperdível para quem divide o mundo em segmentos, e acha que a "vida real" é muito diferente da "dos livros". Não recomendo, apesar das compras que fiz, que procurem a livraria em que passei horas, nas últimas semanas. Quase tudo se esgotou. Todos os livros que comprei eram exemplares únicos. E nem eu mesmo pretendo ler todos esses livros em breve. Não sou adepto de um método sistemático de leitura. Guardarei a maioria na prateleira, enquanto acabo os que já comecei. Para que, um dia - daqui, digamos, uns vinte anos -, eu esbarre com Patrícia Highsmith de novo, e decida acompanhar a história de um garoto de 15 anos numa pequena cidade no interior dos Estados Unidos. É por acaso que descobrimos prazeres escondidos. Eduardo Carvalho |
|
|