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Sexta-feira, 16/7/2004 Parati, Flip: escritores, leitores –e contradições Julio Daio Borges ![]() São mesmo. E é impressionante que haja tanta gente interessada neles. Martin Amis, um dos mais conhecidos escritores ingleses das últimas décadas, tremia visivelmente diante da platéia - e, ao ler a si mesmo, enrolava a língua. Era evidente: fora do Brasil e fora da Flip, nunca tinha passado por aquilo. "Para Martin, o escritor é aquele sujeito que se sente mais vivo quando está sozinho", havia dito Isabel Fonseca, sua esposa, na noite imediatamente anterior. ![]() Já o Angeli - que não é escritor, mas que em Parati era como se fosse - sorriu largamente e apertou minha mão, quando, passando-lhe meu cartão, contei que havia resenhado a nova edição de Wood & Stock. Mesmo o Verissimo, a celebridade mais evocada e mais reconhecível (e também a mais muda), demonstrou algum interesse e leu atentamente o nome do site, enquanto apalpava os relevos com dedos finos. ![]() "Eu acho que tem a ver com a explosão da mídia. De repente, o jornal de domingo, que era o mais 'grosso' da semana, virou o padrão. E os jornalistas - para preencher os espaços vazios - descobriram que têm de escrever até sobre nós... escritores", ponderou Martin Amis. ![]() Então era essa a contradição mais flagrante da Flip: os escritores, por timidez ou por algum outro motivo, optaram pela escrita como profissão; não previam, porém, eventos literários e muito menos uma festa dessa magnitude, em que fossem - justamente ao contrário do que sempre foram - o centro das atenções. "Virou um circo", confidenciou-me, à boca pequena, um certo editor de cultura. "Meu caro, você me perguntou se eu ia a Parati, mas eu não vou: não sou escritor", confidenciou-me, por e-mail, um outro. Os dois estavam lá. Mas tinham razão: havia, igualmente, à maneira de João Ubaldo Ribeiro, um certo constrangimento no ar... Escritores, embora evitem os holofotes, são seres extremamente vaidosos - e essa era a segunda contradição. "Muita gente se mete a escrever diários e a tomar anotações quando adolescente ou mesmo criança. Os escritores, também. A diferença é que as pessoas normais acabam superando essa fase; os escritores, não. Nesse sentido, eles são eternamente adolescentes - adolescentes que não conseguiram se livrar do diário" (Martin Amis, na coletiva). ![]() É verdade que os escritores não têm geralmente sido prioridade nos mais variados meios. E é verdade, também, que essa "prioridade" precisa ser invertida de vez em quando. Mas, na Flip, os "autores" tinham - por vezes - uma ascendência desrespeitosa e uma desnecessária supremacia. Havia cadeiras reservadas para eles em todo lugar; e eu vi um sujeito entrando num restaurante aos berros porque uma suposta "mesa dos autores" havia sido inadvertidamente ocupada... ![]() Era a terceira contradição da Flip. Se qualquer pessoa pode publicar um livro (ainda que pague por isso), por que os "autores" eram deuses na Flip e por que os "não-autores" eram cidadãos de segunda categoria? "Para escrever meu novo livro, eu me aproximei de um neurocirurgião muito cortês que me permitiu acompanhá-lo na sua rotina. Pude estar a seu lado inclusive nas cirurgias. Eu me paramentava, me vestia de branco e atravessava aqueles corredores longos onde os familiares se acumulam. Eles me olhavam e pensavam: 'Lá vai o doutor...' Então eu me sentia 'grande', eu me sentia 'maior'..." (Ian McEwan). ![]() Afinal, por mais que se despejem críticas à Flip, ela conseguiu deslocar mais de 10 mil pessoas até Parati, para 5 dias com escritores tão obscuros quanto Colm Tóibín, Margaret Artwood e Pierre Michon. E eu vi uma moça, de uns 25 anos, tentando encontrar passagens (lidas no telão) do Ulysses de Joyce; e eu ouvi uma discussão - cansativa, vá lá - entre um casal gay, onde um era "o crítico" e outro era "o artista"; e eu encontrei um casal de meia-idade - morando em São Paulo, mas de Recife - que embarcava em elogios desbragados aos escritores. E não eram do meio; e não escreviam uma linha. Eram leitores. Lei-to-res. "Sim, eu vejo um bom momento para a literatura contemporânea. Na verdade, não sei se há muitas pessoas lendo, mas, certamente, há muitas escrevendo." (Paul Auster) "Quando publiquei meu primeiro livro, literatura era coisa para uma pequena esfera. Então não me incomodo se, de repente, esse tempo voltar - e a literatura se restringir, novamente, a apenas algumas pessoas -, eu me sentiria confortável do mesmo modo." (Martin Amis) Julio Daio Borges |
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