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Segunda-feira, 15/11/2004 A extraordinária Nina Lucas Rodrigues Pires Feito esse mea-culpa, entro enfim no filme em questão. Nina foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, mas só o assisti quando estreou oficialmente, na semana seguinte. Não estava dando muita bola pra ele, pois adaptações - melhor seria dizer atualizações - para o Brasil atual não costumam render grandes obras. Na primeira fala do filme, a protagonista faz a separação dos seres humanos - há aqueles ordinários e aqueles extraordinários. Os primeiros são pessoas que não fazem nada pra mudar sua vida e se acomodam. Os extraordinários são o oposto: não se deixam tomar pela inércia e querem transformar, mudar o que acham que deva ser mudado, coisa que legitimaria até um crime. Pois bem, Nina é um filme extraordinário. Nina (Guta Stresser, a neurótica Bebel do seriado A Grande Família) é uma jovem estilo clubber e punk que vive sua vida em São Paulo dividida entre festas regadas a drogas e álcool e subempregos que não lhe são mais que exercícios de paciência. Mora numa pensão em que a proprietária, Dona Eulália (Myriam Muniz), cobra-lhe insistentemente que pague o aluguel. Não só isso, mas a velha senhora é uma megera sem igual, cruel, fria, que atua psicologicamente sobre a jovem Nina com tamanha volúpia exatidão que chega a soar torturante os diálogos entre elas. Para quem conhece previamente a história, esperar o desfecho dessa relação é um martírio que o diretor constrói com sólida noção de planos, enquadramentos e iluminação. Esse aspecto dark dos quadrinhos presentes pelos traços feitos por Nina está de acordo com a proposta do filme. O que o filme faz de fato é envolver o espectador no drama de uma jovem atormentada (explorada, torturada psicologicamente) pela dona da pensão em que vive e pressionada pela falta de perspectiva profissional e de toda ordem. Nina, no fundo, não tem perspectiva de nada a não ser morrer. Eis um viés presente, mas pouco explorado no filme. A cidade e a falta de perspectiva dos jovens cedem espaço para o drama interior da personagem, que é exposto incessantemente ao espectador. O grande diferencial de Nina está na sua concepção visual. Fotografia e iluminação expressionistas e um estilo um tanto gótico fazem dos cômodos da pensão uma espécie de castelo do Conde Drácula. Há uma sensação de mistério e suspense em cada corredor que ela adentra ou cada porta que é aberta ou fechada. As paredes e as portas, estas pela possibilidade do olhar pela olho mágico, apresentam tal grau de importância para o clima tenso que tais objetos, inanimados, chegam a parecer pulsantes e com vida. Mais que isso, adquirem função de espionar, julgar, punir, comprimir fisicamente a protagonista. Tem um quê de Kafka na história, mistura de A Metamorfose com O Processo, e o absurdo da crueldade de D. Eulália chega a ser desumano, surreal (tal qual o pai de Gregor Samsa). A tortura psicológica frente a uma mente frágil como a de Nina é fatal, e essa angústia e culpa que advém de seu interior é transportada e representada na forma do próprio filme. A fotografia, os planos, a deformação das imagens criam um ambiente exterior de insanidade que estaria se movimentando dentro da mente de Nina. Aí a decorrência de vários acontecimentos serem encarados como perseguições. Quando se tem algo a esconder, parece que todo o universo conspira para que a verdade seja revelada. Dentro da inconsciente, isso se transforma numa força pulsante que chega a afetar o que os olhos vêem e o que o corpo sente (pode-se chamar de alucinação, delírio). Nina, tomada pela culpa, pelo medo e ainda a abstenção das drogas, enxerga o mundo pela sua mente atordoada, daí a realidade ser afetada. Além do filme, uma coisa chama a atenção: a presença desnecessária de grandes atores nacionais - a nova safra de talentos brasileiros - em participações tão insignificantes em que alguns não dizem uma palavra. Vemos ao longo do filme atores como Renata Sorrah (a puta maltratada), Selton Mello (namorado bêbado e drogado de uma amiga), Wagner Moura (o cego), Lázaro Ramos e Matheus Nachtergaele (pintores da pensão e sem uma fala sequer). O que justificaria tais presenças em papéis tão secundários, quase figurantes? Apesar disso, Nina já é uma das melhores estréias nacionais do ano. Tem um jeitão pós-moderno, de resgate de filmes da história do cinema, mas tem sua originalidade e, portanto, seu valor. Outro bom autor que nasce no cinema brasileiro. Como fazer um filme de amor original Algumas situações cômicas e outras nem tanto fizeram a crítica se dividir a seu respeito. Mas convém ressaltar o ótimo texto de Torero, que escreveu o roteiro além de dirigir, com sacadas geniais em diversos momentos. Exemplar do cinema (da arte, seria melhor dizer) de Torero é o final do filme, quando os créditos sobem e o narrador ainda está lá apresentando os erros de gravações e dialogando sobre custos, objetivos do filme, que é ganhar dinheiro, e pedindo aos espectadores para indicar o filme aos outros. E ainda dizendo que todo filme de amor é igual, que já vimos dezenas, mas mesmo assim semana que vem estaremos lá vendo outro filme de amor. "O espectador sempre volta. Sempre volta". E não é que ele tem razão? Lucas Rodrigues Pires |
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