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Sexta-feira, 29/12/2006 Mitos na corda bamba Guga Schultze Este novo século promete algumas surpresas que, como toda surpresa, está além da especulação - pois toda surpresa é inesperada, antes de tudo. O ano de 2006 foi meio inexpressivo, mas sua trivialidade aparente é enganosa no que concerne à seguinte questão: mesmo que o calendário seja apenas uma convenção funcional ainda subsiste um resíduo, mítico que seja, da sensação estranha de termos virado mais um milênio - tudo é muito convencional apenas, mas essa passagem é, queiramos ou não, histórica, na medida em que a História precisa de datas para se localizar. Estamos deixando para trás o sexto ano do primeiro século do novo milênio, seis pequenos passos adiante na paisagem que era, há pouco tempo, o futuro fabuloso. Posta assim em palavras a nossa ingênua percepção do tempo adquire algum significado, volto a insistir, mítico. Somos seres mitológicos dentro de uma mitologia não mapeada e a vida vem mostrando seu espaço geográfico: entre as paredes internas do crânio. Somos seres cuja capacidade de abstração é tão intensa que grande parte de suas lucubrações se confunde com o que chamamos de realidade. Um exemplo típico é o dinheiro, o vil metal. Nada remete mais à vida material do que o dinheiro e, no entanto, poucas coisas são tão absolutamente abstratas. O próprio materialismo, seja lá o que for isso, não passa de uma idéia e é através das idéias que todos nós vivemos. Alguns mais, outros menos; esse me parece ser o novo e emergente parâmetro comportamental dos anos que se aproximam. Quais são as novas idéias e as conseqüentes respostas que elas irão gerar, em quantos graus de profundidade serão absorvidas, que mudanças provocarão no dia-a-dia; essas questões não são a novidade em si; a novidade está no fato de que essas questões estão ocupando os primeiros lugares na fila das preocupações ordinárias. Nunca estivemos tão atentos ao desenvolvimento tecnológico geral - e nunca tão vulneráveis às tecnoprofecias. O país segue no espírito burlesco que lhe é habitual. Piadas: - Bastou um brasileiro ir ao espaço para um planeta sumir. - AÇO, a sigla do projeto social do nosso presidente metalúrgico: Abitação, Çaúde e Onestidade. - Etc. Alguns mitos decadentes, fotografados neste final de ano: Esquerda versus Direita Os novos leitores não têm idéia de como essa visão orientou o pensamento de uma quantidade realmente incrível de intelectuais que viam, politicamente falando, uma balança mundial em equilíbrio permanente com a URSS e os EUA em cada prato. A balança era considerada indestrutível. Uma quantidade enorme de intelectuais de esquerda acreditava piamente num crescente desequilíbrio ocasionado pela insustentável leveza do ser da América, que ia ser pulverizada a longo prazo. Hoje os sobreviventes evitam a discussão, que se tornou menos que acadêmica. Terceiro Mundo O termo ainda subsiste mas a análise mais acurada faz prevalecer lentamente outro consenso: não há degraus escaláveis, portanto o termo só serve para batizar, canhestramente, uma geografia e uma realidade, ambas transitórias e não aspirantes ao primeiro degrau. Por falar nisso, cadê o segundo mundo, hem? Eficiência governamental como conseqüência direta do exercício democrático Quanto mais o povo se exercite na democracia, melhor o governo. Era essa a idéia. Nada mais ilusório. O Brasil é o Maior, em muitos aspectos Quais aspectos? Terror ecológico ou O mundo periga acabar a qualquer momento se o ser humano não tomar jeito Não vai acabar não. Vai resistir ao ser humano e ao que vier depois dele (hehehe). A literatura é algo ultrapassado Não é. A explosão audiovisual gerada pela mídia moderna só destacou o fato de que leitura é insubstituível. Leitura é, além de outras coisas, porta de passagem para um mundo interior. De volta pra dentro, de encontro às idéias, à vida interior que, diga-se com todas as letras, é a vida em si. Nunca tanta gente leu tanto ou escreveu tanto (o que é meio chato, às vezes). Religiosidade Sem comentários. Não dou pra cristo de ninguém. Importância Metafísica De Artes E Artistas Os indícios apontam para o entretenimento como valor, uma volta dos artistas ao antigo lugar que ocuparam, quando apenas distraíam cortes e reis e platéias diversas. A hipervalorização do artista, criando toda uma estirpe de dondocas mimadas, é coisa recente na História. Obras de arte continuam sendo produzidas e sua devida apreciação será, acredito, mais discreta. Com esse balanço, do tipo balança mas não cai, tentei definir para mim algum desenho do ano que passou. Um desenho difícil porque o ano em si é meio inexpressivo, o retrato não saiu muito apropriado, mas dá pra ver a cara do ano em questão; é irmão de sangue de outros que virão na mesma balada. Uma última observação tem a ver com o Digestivo Cultural: existe o embrião de um novo jornalismo e ele se desenvolve em sites como o DC. Há uma coesão interna (já disse isso em outro lugar) que me parece fascinante e uma nítida tendência (ou será apenas um modismo passageiro) para um jornalismo que produz textos pessoais, epistolares, confidenciais - tudo fora do velho padrão do jornalismo tradicional - e o que é muito interessante: a informação é transmitida da mesma forma (ou quase) e os leitores claramente preferem assim. Um pouco menos da informação puramente objetiva e muito mais da impressão pessoal de cada um que, aprendemos, vai criando o cerne de um bom senso à toda prova. Ou seja, o novo jornalismo molda uma opinião pública extremamente mais arejada, ou consciente, do que antes foi possível, fora da rede. E outra coisa, aproveitando a brecha para as declarações pessoais: uma das melhores coisas de 2006, pra mim, foi o DC e a conseqüente redescoberta do prazer da leitura. Guga Schultze |
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