|
Quarta-feira, 11/4/2007 Festival Chaves no Centro Cultural Vergueiro Tatiana Cavalcanti El Chavo del Ocho e El Chapulim Colorado, nomes originais em espanhol, eram produções que faziam parte de um pacote de novelas e dramalhões que a recém criada emissora de Silvio Santos nos anos 1980, TVS, adquiriu da emissora mexicana Televisa, a maior daquele país. A alta cúpula da nova empresa do futuro Homem do Baú não via com bons olhos aquelas séries, e as engavetou por quatro anos. Entretanto, por uma proteção contratual, a TVS se viu obrigada a exibir o pacote em sua totalidade e, após serem traduzidas e dubladas, as séries criadas por Bolaños foram acomodadas no programa do palhaço Bozo. Foi um sucesso estrondoso e logo Silvio Santos importou novos capítulos. Uma vez perguntado o por quê do sucesso dos seus personagens no Brasil e em 90 países, Bolaños respondeu: "Não imagino por quê. E isso não é falsa modéstia. Já passou muito tempo, os programas seguem com cenário antigo, e as pessoas de muitos lugares continuam gostando (...) Acho que os programas são bem feitos, pelo menos foram feitos com muito carinho e honestidade". Há uma certa identificação entre os personagens e os espectadores, que reconhecem na série o seu próprio cotidiano. El Chavo del Ocho é um órfão pobre de oito anos de idade, sem nome conhecido e nem identidade, que mora no barril de um cortiço, ou uma vila simples. "Chavo" em espanhol significa "menino", e na verdade a tradução para o português, Chaves, deu identidade ao garoto, o que acabou alterando a característica original do personagem. Esse lado social pode ser visto em todas as séries que Bolaños criou. Alguns dos bordões mais conheci dos do menino Chaves são: "Foi sem querer querendo", "Tá bom, mas não se irrite", "Ninguém tem paciência comigo!" e "Ai que burro, dá zero para ele!". Outro personagem bastante popular é o anti-herói (ou seria apenas um herói atrapalhado?) Chapolin Colorado, que possui características políticas e sociais que são claras quando "O Vermelhinho" encontra o caricato Tio Sam, que tem o bordão "Time is money". Aqui, Bolaños parece tecer críticas ao vizinho do norte, com o qual o México tem uma relação complicada e conturbada. Usando uma linguegem cômica, bordões repetitivos e situações circenses, que tem esquetes simples e de fácil assimilação, os personagens criados por Bolaños lembram outros de humoristas de grande popularidade, como O Gordo e o Magro, Cantinfas ou até mesmo o genial Charles Chaplin. Isso é claro num dos episódios de Chapolin Colorado, em que o anti-herói tenta descobrir os integrantes de uma gangue dentro de uma festa à fantasia. O que é mais interessante neste festival, além dos episódios inéditos das séries, é um longa-metragem gravado pela trupe em 1979. El Chanfle, inédito no Brasil, é a história de um casal, interpretado por Florinda Meza e Roberto Gómez Bolaños (atores que eternizaram Dona Florinda e Chaves), que tenta ter um filho há dez anos. Ele é um homem pobre, desastrado e sonhador, que é apaixonado pelo América, time de futebol popular do México. Sua esposa, uma mulher lindíssima e jovem, o ama com devoção e carinho. O astro do time é Valentino (interpretado por Carlos Villagrán, o Quico), um pilantra convencido que acredita ser um grande galã que pode ter o que quer na hora em que desejar. Outros personagens envolvidos completam o enredo, todos interpretados pelos mesmos atores que compõem o seriado Chaves, como a Chiquinha, Jaiminho O Carteiro, a Bruxa do 71 e Seu Madruga. O filme é simples e de baixo orçamento, porém tem um desenrolar engraçado, exagerado e cativante. Para os fãs de alguma das séries criadas por Bolaños, é garantia de boas risadas e até momentos emocionantes. O festival está atraindo pessoas de diversas faixas etárias. A sala Lima Barreto, no Centro Cultural Vergueiro, abriga desde crianças, adolescentes, adultos até idosos. Pessoas de outros países também vieram prestigiar o ator e escritor mexicano Roberto Gómez Bolaños, que atualmente está com câncer na garganta. As histórias dos bastidores dessas séries de sucesso são tão intensas que deram origem a um livro, escrito pelo próprio Chaves. Bolaños estudou engenharia, foi casado e teve seis filhos. Carlos Villagrán e Florinda Meza eram namorados durante a maior parte das gravações. No final dos anos 1970, ela se envolveu com Bolaños, o que irritou "Quico" profundamente, tanto que ele abandonou o seriado para sempre. Ramón Valdés, o Seu Madruga, deixou de integrar o elenco em consideração ao amigo (apesar de ter voltado um ano depois sem muito sucesso), foi quando o restaurante da Dona Florinda foi criado. O novo casal, que tinha uma diferença de idade de 19 anos, namorou por 25 anos e finalmente Florinda e Bolaños se casaram em 20 de novembro de 2004, mas nunca tiveram filhos juntos porque ela é estéril. Essas são algumas das histórias por trás do fenômeno mexicano, que não vêm tanto ao caso aqui. O que importa é que as séries escritas e produzidas por Bolaños resistem ao tempo, aos atritos internos e ao preconceito. Para ir além Confira aqui a programação dos últimos dias do evento. Tatiana Cavalcanti |
|
|