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Quinta-feira, 25/6/2009 Zé Rodrix ― o escritor e o amigo Luis Eduardo Matta Zé, carioca radicado em São Paulo havia quase três décadas, era amigo de Ana Maria de longa data ― ambos foram colegas no até hoje conceituado Colégio de Aplicação da UFRJ, no Rio de Janeiro ― e, após uma longa e exitosa carreira na música e na publicidade, decidira enveredar, também, pela literatura. Estimulada pelo meu parecer favorável, Ana Maria ofereceu o livro à Editora Record, que o lançou numa belíssima edição, no final de 1999. A noite de autógrafos, seguida de um jantar, aconteceu na Livraria Saraiva de um recém-inaugurado shopping center do Rio, e contou com a presença de algumas personalidades ligadas às artes, como a escritora Angela Dutra de Menezes e a atriz Analu Prestes, além da própria Ana Maria Santeiro. Foi precisamente nesta noite, chuvosa e friorenta para os padrões de fins de novembro, que estive com o Zé e sua mulher, Julia, pela primeira vez e, durante horas, conversamos os três como se nos conhecêssemos havia anos. Na dedicatória que Zé me fez no livro está registrada a data exata deste encontro: 29 de novembro de 1999. Nessa ocasião, a confraria dos Estertores da Razão, fundada por mim e um grupo seleto de amigos, em 1998, passava por um período de acentuado crescimento, com a gradual adesão de novos membros e a intensificação dos debates sobre toda sorte de temas no fórum de discussão do grupo, na internet. Durante um desses debates, Ana Maria Santeiro, que ingressara nos Estertores no começo de 2000 e, desde sempre, fora sua entusiasta, percebeu que o assunto interessaria ao Zé e encaminhou as mensagens a ele, que respondeu na mesma hora, como era de seu estilo e logo se entrosou com todo mundo, sendo imediatamente incorporado ao grupo. Foi a partir deste momento que o fórum viveu sua fase de maior efervescência, quando discussões de altíssimo nível rolavam entre os membros, numa intensidade impressionante, a ponto de, em junho de 2000, o fórum ter registrado a incrível marca de mais de cem mensagens diárias. Isso, vale lembrar, numa época em que o acesso à internet era discado, e a navegação incomparavelmente mais lenta e precária do que hoje em dia, com quedas constantes de conexão e dificuldades para enviar e receber e-mails com arquivos de tamanho superior a 500KB. O terceiro livro, que encerra a trilogia falando sobre a relação entre os Templários e a Maçonaria, Esquin de Floyrac ― O fim do Templo, saiu em 2007, e coube a mim redigir a orelha. Foi preciso voar contra o relógio para dar conta da tarefa. Isto porque, em setembro daquele ano, Ana Maria Santeiro completaria trinta anos como agente literária e pretendia comemorar a data com o lançamento de um livro "forte" de um dos seus autores. Esquin de Floyrac estava programado para sair somente no ano seguinte, mas Ana Maria intercedeu junto à editora, que acabou antecipando a publicação para setembro. Dessa maneira, todos os procedimentos necessários para transformar os originais numa obra impressa tiveram de ser acelerados, inclusive a redação da orelha. No final de junho, Zé Rodrix me telefonou e propôs, num leve tom de desafio: "Vou te mandar o livro por e-mail. Você consegue ler tudo e aprontar a orelha em cinco dias?" (detalhe: os originais tinham quase quinhentas páginas em Word e eu tenho enorme dificuldade em ler textos longos em qualquer superfície que não seja um papel). Respondi-lhe que sim, sentindo a responsabilidade me pesar nas costas. Ele mandou o arquivo e eu não só o li detidamente em menos de dois dias ― depois de imprimi-lo, naturalmente ― como ainda reli os dois títulos anteriores a fim de situar a apresentação da orelha no contexto da trilogia. Em cinco dias, o trabalho estava pronto, o livro foi para o prelo e pôde ser oficialmente lançado na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, na data programada. Dois meses depois, Zé Rodrix repetiu a dose e promoveu um novo lançamento, desta vez em pleno Palácio Maçônico do Lavradio, uma belíssima construção neoclássica no coração do Rio, antiga sede do Grande Oriente do Brasil. Lá, eu, Ana Maria Santeiro e alguns amigos tivemos a oportunidade única de assomar nos salões normalmente vetados à visitação pública e assistir a uma cerimônia da Maçonaria, aberta para alguns convidados, que precedeu uma palestra emocionante, na qual Zé conclamou a todos para as nossas responsabilidades em relação aos rumos da sociedade e do país. A essa altura, a confraria dos Estertores da Razão havia retomado o ritmo do início da década, sobretudo depois que eu, Zé e Ram Rajagopal nos encontramos durante o lançamento do meu thriller 120 horas, em São Paulo, em janeiro de 2006. Com o grupo reunido novamente e a carreira literária de Zé Rodrix a toda, passamos a nos ver constantemente, sempre em torno de alguma efeméride literária. Quase sempre acompanhado de sua mulher, Julia, Zé nunca deixava de nos chamar para os eventos dos quais participava no Rio e, quando algum de nós ia a São Paulo, era praxe entrarmos em contato com ele. Com uma retórica acelerada e contagiante, Zé não permitia que uma roda de pessoas na qual ele estivesse presente ficasse em silêncio. Ele dava a impressão de deter um conhecimento infinito sobre todos os assuntos, conjugado com uma ânsia de transmiti-lo a quem estivesse aberto a recebê-lo. A última vez em que estive com Zé Rodrix foi na "showlestra" de lançamento da caixa reunindo os títulos da Trilogia do Templo, realizada na Livraria Argumento do Leblon, Rio, no começo de maio. Chegamos a nos falar pelo telefone alguns dias depois e sua última mensagem para o fórum dos Estertores da Razão foi postada às 19h32 de 21 de maio, poucas horas antes de sua morte. O choque da perda de Zé Rodrix, ainda não totalmente digerido, me lançou numa espiral de questionamentos sobre o sentido da vida. Ele não era, de forma alguma, uma pessoa que já tivesse cumprido o seu destino. Além disso, levava uma vida saudável, não fumava ou bebia e tampouco padecia de estresse ― seu entusiasmo pelas coisas era a prova disso. Sua carreira artística, do mesmo modo, encontrava-se num excelente momento, em todos os campos nos quais atuava. Se há alguma lição a ser extraída deste episódio é a de que a vida humana é frágil, curta, por mais longa que seja, e pode acabar daqui a dois segundos. Trata-se de uma constatação óbvia, mas da qual poucos parecem se dar conta. Portanto, nunca é demasiado fazer uma reflexão e pensar naquilo por que realmente vale a pena lutar ou por que vale a pena se aborrecer. Não perder tempo, por exemplo, com bobagens mesquinhas e polêmicas tolas que só conduzem a uma animosidade e a um rancor que envenenam a alma e as relações humanas inutilmente. Tampouco se atribuir uma importância excessiva ou pretender ter a posse inconteste de alguma verdade. E, no entanto, buscar sempre a verdade, ainda que seja preciso contrariar algumas das nossas mais arraigadas paixões. Essas eram algumas das muitas noções positivas que Zé Rodrix sempre procurava reforçar e que acredito ter aprendido com ele. Noções que podem ser resumidas numa frase de Oscar Wilde: "a vida é importante demais para ser levada a sério". Luis Eduardo Matta |
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