|
Segunda-feira, 19/3/2001 Façam suas apostas Rafael Lima Muito já se disse e já se ouviu sobre o notório conservadorismo da Academia nas escolhas do Oscar, mas o que se descobre acompanhando a cerimônia ao longo dos anos é que a previsibilidade acaba sendo bem menor do que se supunha. Apesar da eterna preferência por atores que interpretam limítrofes, aleijados ou dramalhões, e de uma certa aversão à comédias, ficção científica e terror - de certo modo quebrada pela premiação do Silêncio dos Inocentes - a Academia consegue se superar nas complicações de sua lógica interna. O que a fez premiar a Helen Hunt de As Good as it Gets, num ano de Judi Dench em Mrs. Brown, de Helena Bonhan Carter em Wings of the Dove? O fato dela ser a única norte-americana das 5 indicadas. Isso sem falar em loucuras ocasionais, como a Ana Paquim de O Piano (quem diria que ela viria a interpretar a Vampira dos X-Men), ou recente indicação de A Vida é Bela para melhor filme e melhor filme estrangeiro. Mas vamos às chances. ![]() Gladiador já levou o Globo de Ouro de melhor filme, foi superprodução, arrebentou nas bilheterias, enfim, tem todos os indicativos para levar o melhor filme. Como O Tigre e o Dragão não tem quem o ameace para melhor filme estrangeiro, suas chances de levar também o de melhor filme se reduzem, deixando o primeiro mais isolado na corrida. Sempre é bom lembrar que o Oscar também tem por fim premiar os títulos que mais impulsionaram a indústria comercialmente, o que é mais um motivo para o Gladiador ganhar. Existe um tradição quase sagrada da Academia premiar também o diretor do Melhor Filme, que explica, por exemplo, o Coração Valente ter conquistado para Mel Gibson sua estatueta, no ano de Razão e Sensibilidade - Ang Lee não tinha sido indicado, então o filme não poderia ser o vencedor. Assim, Ridley Scott vira automaticamente favorito. A Miramax rompeu essa tradição com Shakespeare Apaixonado num lobby fortíssimo, mas foi um negócio tão descarado que é difícil que se repita. Spielberg até hoje não sabe porque o Soldado Ryan não levou... ![]() ![]() Para melhor ator codjuvante, acontece algo curioso. Há 3 anos o vencedor do Globo de Ouro perde o Oscar, foi assim com Tom Cruise que perdeu para Michael Caine ano passado. Mantendo-se a tendência, Benicio Del Toro, aquele chicano com olho de peixe morto que apareceu em Os Suspeitos e fez Excesso de Bagagem com a Alicia Silverstone (por onde andará?) vai perder para Joaquin Phoenix, o imperador incestuoso de Gladiador e candidato a Malcolm McDowell versão ano 2000. Melhor Atriz Coadjuvante. Kate Hudson levou o Globo de Ouro por Quase Famosos, está com uma mão e meia lá, mas Judi Dench está mais uma vez brilhante em Chocolate, rabujenta como só ela consegue ser. Quem sabe a Miramax não seja tão forte para encarar o Gladiador, mas é pouco provável que Chocolate saia de mãos abanando, e Judi Dench seria um gol de honra. O problema é que eles já gastaram todas as fichas que tinham premiando Gwyneth Paltrow em Shakespeare Apaixonado. A melhor maneira de descobrir a favorita para atriz coadjuvante é ver se tem alguma indicada em filme de Woody Allen. Mira Sorvino e Diane West estão entre as recentes, é sempre, sempre barbada. ![]() Maquiagem é outro prêmio interessante, porque nem sempre a transformação de gente em bichos, monstros ou alienígenas leva o prêmio. Nunca esqueço, em Ed Wood, a transformação de Martin Landau em Bela Lugosi, que derrubou o Frankstein de Kenneth Branagh. Nesse raciocínio, ficamos com Shadow of the Vampire ao invés de O Grinch. O prêmio de melhor roteiro original deve ser visto com atenção, porque costuma reunir os filmes mais originais do ano, especialmente os injustiçados, que não levam o Oscar de Melhor Filme. Caso clássico, A Sociedade dos Poetas Mortos. Pulp Fiction não tinha como superar Forrest Gump em melhor filme, mas deu poeira em melhor roteiro. É onde Quase Famosos deve levar a sua, batendo Gladiador. Roteiro adaptado, outro prêmio meio de consolação, está dividido entre Wonder Boys e Traffic, com vantagem para o último. Mas nunca se deve ignorar os irmãos Cohen - Where art thou, my brother? - numa disputa de melhor roteiro. Apesar da já mencionada aversão da Academia à polêmica, o que diminuiria as chances de Traffic, é bom lembrar que recentemente Larry Flynt foi premiado, um filme bastante provocante. Por fim, uma nota especial sobre melhor canção. Se tem desenho da Disney no meio, música composta por Elton John ou Phil Collins, não tem o que vacilar. Nesse ano, o exemplar foi A Roupa Nova do Imperador, com música do Sting, mas quem deve subir ao palco para ornamentar sua lareira é ninguém mais, ninguém menos que o freewheling Bob Dylan, que compôs para Wonder Boys. Sempre é interessante ver um dos ícones da cultura pop subir naquele palco, a ovação da platéia, o discurso abobalhado, o estrago que o tempo fez em seu rosto, e algo me diz que o grande momento do Oscar desse ano vai ser quando mr. Jakob ouvir seu nome no microfone... Rafael Lima |
|
|