|
Terça-feira, 1/1/2013 A Poesia em Noir de André Luiz Pinto Jardel Dias Cavalcanti Poesia entrecortada, criada num ir e vir incerto, da dúvida do querer afirmar-se em algum sentido, vai remoendo a si mesma na inconstância de versos dolorosos: "pois agora/ tudo que nos cerca/ silêncio e moinho/ tudo que conta/ náusea e destino (...)". Entregue ao desalento do "Irreversível", título de outro poema, o poeta só pode indicar uma interrogação final que não temos como responder, já que somos vítimas e culpados ao mesmo tempo no processo civilizatório do mundo: Arrastado até a secura dos órgãos das marcas indeléveis do corpo, do mundo cidadão de onde não há abrigo, essa criança, esse suplício que reverbera na boca de todos entre o susto e o já esperado no fim das leis e a visão civilizatória: do esquife do caixão branco cadáver de menino e se o orvalho já não sopra a culpa não é nossa? O título do livro, Terno Novo, parece indicar o momento de alguma comemoração ou festividade. Ironia? No mínimo, pois os poemas não deixam espaço para exaltações alegres e cordiais. Ao contrário, tudo parece estar por um "Triz" - título de um poema também desalentador. Inicia-se com a questão: "A que horas devo sair?/ Ou não devo?" E o que se segue é uma coleção de assertivas negativas, promessa do que já é destroço: Esse é o dia em que tudo vale e nada presta, dia em que a vida mesma não conta, a utopia de uma serpente o limite máximo entre o cair e o desistir onde só permanece a dura promessa a razão mesma desse encontro um peito viril que geme baixinho a miséria claustrofóbica em meio a tanto brilho, só ficando seguir e procurar entre os destroços da noite o que sobrou de solidão. Esse desencanto traduz em versos uma espécie de sentimento "noir" do existir. O poema "Arvoredo" destaca esse duro inverno do "ser no mundo": "Sempre que o amor bate a porta/ não sei se importa./ Até logo raiar da manhã/ de onde vejo o duro inverno./ Outras são as cantigas/ outra a prosa./ Até logo minha filha." Para o poeta, seu terço, sua oração (e verso), é esse guardar "em silêncio/as mazelas do dia", é também sua forma de educação (pela pedra?): "Foi da pior maneira que aprendi/ como se a própria inspiração me cortasse as mãos". O mais peremptório poema do livro revela o sentido da ars poética de André Luiz Pinto, esse colocar versos e coração sempre na contramão: Poemas não pedem para nascer. Deslocam o ponteiro daquilo que funciona. Cinco dedos são insuficientes muito menos uma cabeça pra pensar a fim de que um poema venha a funcionar ausenta-se de todas as regras põe o coração na ré é preciso ter a fé de que nada vai dar certo para escrevermos se fosse. No poema "Terno", a única certeza, como o raiar do dia que sempre retorna, é a culpa de todos frente ao mundo em desordem. Os elementos desse universo são terríveis, contrariando o sonho de um destino maior, diverso do que se apresenta agora: "juventude que morre", "horas frias e sombrias", "violência dos morros", "a mentira estampada nos jornais". A poesia talvez seja, enfim, a única saída desse mundo, ela sim o crime possível, o próprio terno novo ou o único motivo para usá-lo. Jardel Dias Cavalcanti |
|
|