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Sexta-feira, 23/8/2002 A volta do quadrinho nacional Gian Danton Durante muito tempo, os quadrinhos nacionais passaram por uma fase de hibernação. Depois dos períodos áureos da Grafipar, Vechi (início dos anos 80) e Press (meados dos anos 80) e de esporádicos sopros de vida nos anos 90, a HQ nacional pareceu desaparecer. O lançamento da série Escala Graphic Talents mostrou que o problema não era criativo, mas de oportunidade. A coleção tem colocado nas bancas, de quinze em quinze dias, novas revistas de quadrinho nacional com ótima qualidade gráfica e impressão em policromia. Quem conhece o mercado de quadrinho sabe que a iniciativa da Escala tem por objetivo suprir o vácuo deixado no mercado pelas grandes editoras, em especial a Abril, que cancelou toda a sua linha de gibis. As revistas da DC Comics (Super-homem, Batman) estão sem editora e as revistas da Marvel Comics (Homem-aranha, X-men) passaram a ser publicadas pela Panini, com acabamento de primeira, mas preços proibitivos. A idéia da Escala é conquistar aquele leitor que está se iniciando na arte sequencial e sai da escola querendo comprar algo que seja divertido e barato. Em tempo: todas as revistas da coleção custam apenas R$ 1,50. Certamente os gibis mais baratos das bancas. A iniciativa também representa um contrato de risco com os artistas. Cada revista tem apenas uma edição. Se vender o suficiente, a história se estende por uma minissérie de três partes. Se continuar vendendo bem, o título pode virar uma revista de linha. O resultado, claro, é muito irregular. Mas a idéia é essa mesma: produzir em quantidade para fazer, daí, aparecer a qualidade. É o que acontece com todos os quadrinhos do mundo. Na Europa, Japão e EUA são publicados anualmente inúmeros títulos, muitos deles totalmente irrelevantes. Mas, no meio de muitas revistas, surgem verdadeiras pérolas. Até há pouco tempo eram publicados no Brasil três ou quatro títulos nacionais e os leitores queriam cobrar desses uma qualidade equivalente aos melhores trabalhos gringos. A Escala acerta ao não limitar os títulos a um só gênero, como o de super-heróis. Há revistas de sátiras, de heróis, de suspense, de ficção-científica e até versões tupiniquins de desenhos animados japoneses. O quadrinho americano entrou num beco sem saída justamente por se especializar demais. Nas décadas anteriores os comics americanos apresentavam títulos para os mais variados tipos de leitores, das meninas que adoravam histórias românticas aos fãs de terror. Na década de 90 o mercado americano se especializou em super-heróis e hoje faz apenas histórias de super-heróis para fãs que acompanham todas as revistas de uma editora. O mercado se torna cada vez menor. Na linha infantil, o que mais chamou minha atenção foi Gamemon. Como o leitor esperto poderá imaginar, trata-se de uma versão dos desenhos japoneses, como Digimon. É uma revista certamente oportunista, mas, nas mãos de Arthur Garcia, a história ganha uma outra dimensão. Arthur Garcia é um veterano dos quadrinhos e foi responsável, na década de 90, por adaptações de vários vídeo-games para os gibis. Ninguém mais abalizado que ele para criar uma versão nacional dos Digimons, portanto. E, muitas vezes, o que surge como cópia, pode tomar tonalidades muito particulares. Muitos dizem, por exemplo, que A Turma da Mônica era um plágio das histórias do Snoopy. De fato, ambas as histórias têm um menino perdedor, uma menina mandona, um menino sujinho, um cachorro... Mas hoje poucos conseguem perceber a semelhança entre as duas séries. Talvez, se sobreviver e conquistar a preferência dos leitores, os Gamemons tomem uma cara tipicamente nacional. A coleção traz ainda diversas outras revistas, no mais variados estilos. Desde histórias sobre caipiras no estilo infantil, como A Turma do Barnabé, até a série Mico-legal, que tem como protagonistas animais. Essa última, inclusive, foi a primeira a passar para a segunda fase do projeto, quando a revista ganha mais três edições. Mas o quadrinho nacional não está representado só pelo Escala Graphic Talents. A revista A Classe Média Agradece, de André Diniz e Marco, mostra uma ótima história policial ambientada no Rio de Janeiro. Os mais antenados vão se lembrar do seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro que terminou com a morte de uma refém e de um assaltante. A partir desse fato básico, tirado dos noticiários, Diniz constrói uma trama detalhada sobre o submundo do crime. Ao ler A Classe Média Agradece, é fácil perceber porque André Diniz ganhou o prêmio Ângelo Agostini de melhor roteirista de 2000. A revista pode ser pedida gratuitamente através do e-mail: nonaarte@nonaarte.com.br. Gian Danton |
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