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Segunda-feira, 2/9/2002 Padre chicoteia coquetes e dândies Luís Antônio Giron O "nosso La Bruyère", como foi chamado no Rio no período que seus textos exerceram impacto, exercitou a crítica política e social munido do chicote do verbo sarcástico, para ele corretivo ideal dos costumes. Seus textos cumpriram a função no tempo e até hoje provocam gargalhadas. Monarquista e reacionário, Lopes Gama condenou as usanças antigas, as crendices populares e as liberalidades modernas. Cresceu em Pernambuco e se criou dentro do gosto colonial. Era lente de retórica do Seminário de Olinda em 1822 quando a mosca azul do jornalismo lhe picou de forma indelével. Passou a publicar e dirigir jornais, como O Conciliador (1822) e Diário de Pernambuvo (1829) e O Popular. Exerceu cargos públicos e morreu traduzindo e escrevendo. "O Carapuceiro" surgiu para defender a monarquia constitucional expressa na Carta de 1824. Para tanto, o satirista ocupou-se em fustigar as posições radicais e retrógradas, batendo-se pelo caminho do meio. Rechaçava o liberalismo extremado, mas acreditava na solução republicana para um futuro distante: "Para diante, em seu tempo adequado, só nos convirá a república, que é a natural tendência da América", afirmou num artigo de 1834. O polemista se beneficiou da atmosfera para muitos anárquica daquele momento de materialização da idéia de nacionalidade. É no período regencial, de 1831 a 1840, que a liberdade de imprensa passa a ser exercida com plenitude. O fato vai coincidir com a eclosão do Romantismo e das primeiras narrativas com temática tipicamente brasileira, os poemas de Gonçalves Dias. O primeiro romance brasileiro, A Moreninha, é publicado em 1844, em plena voga de "O Carapuceiro". O processo se desencadeava de 1802 a 1811, com a edição em Londres do Correio Braziliense ou Armazém Literário, o primeiro jornal livre brasileiro, ainda que dirigido do exílio por Hypolito José da Costa. Desta época à Independência, formou-se o fenômeno que Wilson Martins descreve em História da Inteligência Brasileira como "linha paralela de rebeldes e desajustados que vai conduzir à Confederação do Equador, em 1824, à Guerra dos Farrapos, em 1835, e à Revolução Praieira, em 1838, tudo isso constituindo o ciclo revolucionário em que se estabelecem e consolidam as instituições políticas do Império". Lopes Gama é um contra-revolucionário, desajustado provinciano contrariado com a instabilidade do período. Época que, até graças ao próprio padre, viria a se fixar como a mais efervescente em termos culturais do Brasil novecentista. A fatia mais saborosa do "Carapuceiro" fica por conta justamente dos daguerreótipos sociais que o padre tira da vida cotidiana do Recife das décadas de 30 e 40 do século XIX. A língua afiada perpetua os tipos do momento, avalia e detalha os hábitos em rápida transformação, da imaginação colonial para os ideais românticos afrancesados, das novas danças agalopadas aos cardápios que causam constipações nunca antes experimentadas. Ele populariza, por exemplo, a expressão "nosso espírito macaqueador" no artigo "O nosso gosto por macaquear" (14/01/1840), em que condena os "folhetinhos" estrangeiros: "O que estraga os costumes, o que perverte a moral é, por exemplo, a leitura de tanta novela corruptora, onde se ensina a filha a iludir a vigilância de seus pais para gozar de seu amante, à esposa a bigodear o esposo etc. etc. O que corrompe horrivelmente os costumes é a leitura dos folhetinhos, como o Citador, a carta apócrifa de Talleyrand ao papa, as Liras de José Anastácio e a praga de quadros com moças nuas, de Vênus saindo do banho, de Vênus e Adônis etc. etc., que todos os dias se despacham nas nossas alfândegas". Dentre os novos costumes repudiados pelo polemista está o namoro, recém-transplantado do Sena ao Capibaribe. Com ele, também aportaram os novos tipos urbanos: o pelintra, a coqueta, o peralvilho e o gamenho, com barbas, suíças, cartolas altíssimas e trajes apertados. O padre desconhecia o termo "dândi", que já estava entrando na moda em Paris pelos fins de 1840. Mas já descrevia otipo em "O que é ser pelintra" (20/04/1842) como "o adônis das partidas", "o cupidinho dos bailes": "Não há madama fashionable, que não queira dançar com um destes bonecos muito espinicados e mais aromáticos que um sepulcro de Quinta-feira Santa. Quem só atenta para a cabeça de um pelintra parece que está vendo Pilatos, Anaz, Caifaz ou o Centurião, mas do pescoço para baixo é um macaquinho, é um bonifrate, é um boneco de peloticas. Ai da menina que chega a esposar-se com um desses jovens da escola peralvilha de Paris!" Dez dias depois, Gama investe contra moda feminina no artigo "O que é um coqueta": "Esta é uma dama que parece ter o rosto calçado de aço. O cinismo da licença lhe sombreia a cabeça com o seu penacho orgulhoso: o despejo reina em seus olhos nunca visitados do pudor, semelhantes aos das bacantes quando desgrenhadas, e com o tirso na mão pisam todas as leis da decência. Suas roupas curtas, parecidas às das donzelas de Esparta, quando quase nuas iam disputar o preço dos exercícios gínicos, são enfeitadas de cores cambiantes". São as novas mulheres de família, nas quais o frei detecta o "étimo da inconstância", um suspeito "composto de fingimento e seduções". O látego do jornalista recai também sobre o passado. A referência mais antiga sobre festas populares no Recife é de autoria de Gama, em "A Estultice do bumba-meu-boi" (11/01/1840). Ali esmiúça o folguedo, segundo ele o non plus ultra da estupidez. "Todo o divertimento cifra-se em o dono de toda esta súcia fazer dançar, ao som de violas, pandeiros e de uma infernal berraria, o tal bêbado Mateus, a burrinha, a caipora, o boi(...) Além disto o boi morre sempre sem quê nem para quê, e ressuscita por virtude de um clister que pespega o Mateus, coisa muito agradável e divertida para os judiciosos espectadores". Tropeçam nos textos de "O Carapuceiro" mártires das modas, escrevinhadores, jogadores, filósofos, padres glutões, jovens mal-educados, africanismos e galicismos a contaminar o português, aleluias e passatempos – como o das quadrilhas. "Estamos no século das quadrilhas, e quadrilhas em todos os sentidos...", dispara o beneditindo linguarudo. Não foi por pouca malícia que o sociólogo Gilberto Freyre lançou mão da série, raridade em 1931, para redigir Casagrande & Senzala. Lopes Gama pinta um quadro sensual e vivo como a pintura ou mesmo a incipiente ficção da época não conseguiram fazê-lo. Para ir além Luís Antônio Giron |
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