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Segunda-feira, 30/9/2002 Um afro-nordestino tocando para o mundo José Nêumanne Naná Vasconcelos é assim mesmo: uma fusion em constante movimento. Da própria pele negra faz atabaques que lhe ressoam na mente e percutem o ritmo de um coração macumbeiro e folião. Seu berço recifense (ninguém nasce à toa numa cidade de cujo calendário turístico consta uma festa chamada "a noite dos tambores silenciosos") remete-o ao remelexo safo e safado do xote, do xaxado e do baião. Sua vocação de globe-trotter e de permanente guardião das tradições do presente fê-lo mergulhar com competência e sensibilidade nos mistérios nem sempre gozosos da vanguarda musical do século 20, particularmente o legado eletrônico de John Cage. Some-se a isso um sorriso absoluto de marfim, sem meios tons, sem peias, sem mais nem menos – e aí já se torna possível entender a beleza, o bulício e sobretudo a alegria sem pudor do CD Minha Lôa, lançado por um selo independente, Fábrica Discos, pernambucano tal e qual ele próprio. Esse CD é uma visita marcada às raízes de onde se produziu a seiva de que se nutre a verve de um artista consagrado fora de casa, mas que nunca se perdeu no caminho da volta para lá. De saída, o título refere-se ao maracatu rural de Pernambuco (a ópera popular que tanto encanta o dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, recifense por adoção): "minha lôa" – esclareceu Naná à repórter Adriana del Ré, do Estadão – significa "minha maneira, o que estou gostando de fazer agora". Um my way de Paul Anka, que Frank Sinatra consagrou, mas bem brasileiro, na medida em que a música eletrônica se mistura com os ritmos nativos, para resistir aos quais não dá. Sim, porque o último lançamento fonográfico de Naná se assume dançante mesmo, sem subterfúgios – pode claramente se inserir no panorama da Música Pra Pular Brasileira. O "Afoxé do Nego Véio" pisa no barro do chão dos terreiros de candomblé ("E agora nêgo só quer dançar"). No "Forró das Meninas" ("Tira a faca da bananeira, deixa de besteira e vem morar mais eu") assoma o aconchego sem-vergonha de outro tipo de samba – palavra pela qual também se designam os bailes populares no sertão, os forrós. E, assumindo-se brasileiro até na citação da "Bachiana" do maestro Villa-Lobos (na faixa "Curumim"), o CD não seria completo sem carnaval – marcando ponto no maracatu "Caboclo de Lança" ("é rural, é o baque solto abrindo caminho para a capital") – e sem futebol. A canção entre as 12 que o abre chama-se exatamente "Futebol" e chora a arte que se perdeu na relva num refrão-síntese: "Não deixe o futebol perder a dança". Só que, como tudo o que Naná faz é prático, esse manifesto, que seria assinado por todos os fãs nostálgicos de Zizinho, Garrincha, Didi, Pelé, Tostão e Zico, não pára na teoria. Ao reproduzir a narração radiofônica de lances de uma partida do ludopédio, o autor mostra que, apesar de bretão de origem, esse esporte não pode ser só força nem apenas estratégia & tática, pois é sobretudo ginga, ou seja, música mais dança. Bem, é aí que o ouvinte chega ao xis da questão: em Naná Vasconcelos tudo é música e tudo é dança. Por isso, a homenagem nostálgica que faz aos tempos do Codona (trio que ele formou com o trompetista Don Cherry e o baixista Collin Walcott, ambos de jazz, e que gravou um disco antológico) – ao registrar duas vezes o "Don's Rollerskates", de Don Cherry, sendo a segunda, a que encerra o CD, remixada pelo conterrrâneo DJ Dolores – mostra que o Brasil também fica na África e o Saara chega até o Nordeste. Pelo menos no universo musical, rítmico e dançante desse afro-nordestino feliz, que toca para fazer o mundo dançar. Nota do Editor Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no caderno "Variedades" do Jornal da Tarde. José Nêumanne |
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